4. Kitapta Yer Alan Öyküler ve Tahlilleri
4.4. Uyuyan Göz
Para a construção de sua teoria semiótica, Peirce se baseou na Fenomenologia, ou estudo dos fenômenos. Para o autor, fenômeno é “tudo que está presente ao espírito, sem cuidar se corresponde a algo real ou não” (PEIRCE, 2000, p.85). Ou seja, tudo o que se apresenta à mente, qualquer ideia, quer corresponda ou não ao mundo real. Seu pensamento está ancorado na observação dos fenômenos, ou como estes fenômenos são representados. O conceito de mente aqui pode ser entendido como o processo de formação das significações, ou simplesmente semiose.
Para explicar o modo como os processos de produção de sentido se dão em nossa mente (SANTAELLA, 2002), Peirce desenvolveu três categorias fenomenológicas: Firstness, Secondness, Thirdness. Esses termos são traduzidos pela maioria dos autores como primeiridade, secundidade e terceiridade.
Para Peirce, primeiridade é a qualidade potencial atribuída a algum objeto, a sua essência ou emoção, ou seja, nada que dependa da mente interpretadora, é um elemento separado de qualquer contexto. A ideia de primeiridade (que em algumas traduções vem como ‘presentidade’ ou ‘primeireza’) é a da mônada, da qualidade primeira, novidade, vida, liberdade, todas as sensações. Na temática da preservação ambiental, por exemplo, é a cor verde, pois pode remeter a sensações de floresta, mata, natureza, clorofila, planta... uma variedade de possibilidades de significação, mas enquanto primeiridade ela não se delimita ainda em nenhuma delas. Essa categoria inicia os processos de compreensão, o primeiro
entendimento acerca de algo subjetivo, sem comparação e sem referencial, antes que a mente se aproprie dela para reflexão. Nas palavras de Pinto (2009b):
A primeireza33 é o modo de ser que consiste no seu sujeito ser positivamente tal como é, independentemente de qualquer outra coisa. Isso pode ser apenas uma possibilidade. Pois, enquanto as coisas não agem umas sobre as outras, não há sentido em dizer que elas têm algum ser, a menos que seja que elas são de tal forma que isso as coloca em relação com as outras. O modo de ser uma vermelheza, antes de qualquer coisa no universo ser vermelha, era, ainda assim, uma possibilidade qualitativa positiva. A vermelheza em si mesma, mesmo que encarnada em algo, é algo positivo e sui generis. A isso chamo de Primeireza. (CP 1.25, apud PINTO, 2009b, p. 40-41)
É a categoria de acordo com a qual não existe nada anterior: “Predomina nas ideias de novidade, vida, liberdade. Livre é o que não tem outro atrás de si determinando suas ações” (PEIRCE, 2000, p. 88), não há comparação, não há referencial. Porém, essa possibilidade de sensação é colocada em confronto na segunda categoria fenomenológica, a Secundidade.
Em reação a essa explosão de sentidos, e como condição para que seja compreendida, é necessário um teste, algo que impeça o ceticismo. Quando existe o conflito, o processo de semiose alcança a secundidade. É a formação da díada. Para Santaella (2002), “Agir, reagir, interagir e fazer são modos marcantes, concretos e materiais de dizer o mundo, interação dialógica, ao nível da ação, do homem com sua historicidade” (SANTAELLA, 2002, p. 50). Essa reação pode ser exemplificada pela cor verde em um sinal de trânsito (já não mais o verde repleto de possibilidades), mas aquele que provoca uma reação, a de seguir adiante. Essa categoria, do segundo, está no domínio “do atual, do presencial, do visto, do sentido conscientemente, daquilo que percebemos sabendo dessa percepção” (PINTO, 2009b, p. 10). Ou nas palavras de Peirce:
Temos uma consciência bivalente de esforço e resistência que, parece-me, chega toleravelmente perto de uma sensação pura de atualidade. No todo, penso existir aqui um modo de ser de algo que consiste em como é um objeto segundo. (CP 1.24,
apud PINTO, 2009b, p.43)
A Secundidade representa a parte manifesta do signo, a reação que, no entanto, ainda não gerou uma interpretação. É a categoria do mundo real, da ação e reação, de tudo que é. Nela, a multiplicidade característica do possível (Primeiridade) se torna existente em uma materialização parcial, canalizada, rumo a uma nova tendência interpretativa.
O raciocínio de interpretar pode ser considerado o terceiro vértice da tricotomia peirciana, quando o embate entre todas as possibilidades de significação de um objeto e seu recorte são mediados num processo de semiose. Por Terceiridade, Peirce entende ser o mediador entre o primeiro e o segundo. “O começo é o primeiro, o fim segundo, o meio
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Alguns autores preferem traduzir Firstness, Secondness e Thirdness como Primeireza, Segundeza e Terceireza (PINTO, 2009b)
terceiro” (SANTAELLA, 2002, p. 92). É a categoria do que tende a ser, da linguagem e do pensamento:
Cinco minutos de nossa vida desperta não passarão sem que façamos algum tipo de previsão e, na maioria dos casos, essas previsões se realizarão em um evento. Entretanto, uma previsão é essencialmente de natureza geral e não pode nunca ser inteiramente realizada. Dizer que uma previsão tem uma tendência decisiva a se cumprir é dizer que os eventos futuros, em certa medida, são realmente governados por uma lei. (CP 1.26, apud PINTO, 2009b, p. 44-45)
Exemplo simples de Terceiridade, que assume este caráter geral necessário para assim ser considerado, é o próprio verde da ‘economia verde’, aquele que compreende uma série de mudanças nos modos do capitalismo, proposto pela ONU. Determina a ideia mais simples de signo útil para analisar variáveis de representação relacionadas à preservação da natureza: “Um signo representa algo para a ideia que provoca ou modifica” (SANTAELLA, 2002, p. 93).
Por estas três categorias o ser humano entende o mundo (a parte acessível a cada um), porque o representa, e só entende essa representação porque está ligada a outra, e outra, infinitamente, em cadeias de relações triádicas. As três categorias são onipresentes. É possível, no entanto ser observado o predomínio de alguma delas:
Na sua forma genuína, terceiridade é uma relação triádica que existe entre um signo, seu objeto e o pensamento interpretante, ele próprio um signo, considerado como constituindo o modo de ser de um signo. Um terceiro é algo que traz um primeiro para uma relação com um segundo. (NOTH; SANTAELLA, 1997, p.24)
Essa relação triádica é o processo de semiose, que Peirce define como uma ação, uma influência entre “três sujeitos, como por exemplo um signo, o seu objeto e o seu interpretante, tal influência tri-relativa não sendo jamais passível de resolução em uma ação entre duplas”. A relação entre o signo e seu objeto é mediada pelo interpretante.
Um signo, co-relacionado às três categorias propostas, tem potencial para se referir ao mundo real ou fictício, às coisas e ao seu estado, e incorpora nossa relação com aquilo que eles denotam: “crença, convicção, dúvida, interrogação, apelo, paixão, indiferença, etc.” (RODRIGUES, 1991, p. 25). A denotação resultante do processo de semiose depende da enunciação, de como o signo se manifesta, e possui uma significação que corresponde ao seu conceito, de acordo com a convenção de algum sistema de signos.
De maneira geral, há consenso que o signo comunica informação. Porém, é preciso saber o que é uma ‘árvore’ para saber escutar e entender ‘árvore’. É necessário um universo de significados pré-existentes para saber o que o signo deseja comunicar, para produzir o efeito comunicacional viral que se encontra hoje nas redes sociais.
Como não é objetivo dessa tese uma revisão aprofundada da Teoria Geral dos Signos (isso já foi realizado na dissertação de mestrado), o próximo item apresenta o
conceito de pragmatismo peirciano, associado ao conceito de meme (DAWKINS, 1976; BRODIE, 1996).