Os museus vêm se tornando cada vez mais ambiente de referência para a educação não formal. Constata-se que a educação está presente nos diferentes âmbitos da visita como um dos aspectos da mediação humana. Ela está ligada à linguagem escolhida pelos mediadores, às legendas e painéis disponíveis e às interações com os diferentes dispositivos dos museus. Ao longo da pesquisa de campo também se procurou observar como se davam as relações entre os professores como agentes educadores formais e a visita ao museu.
Ao se pensar a visita ao museu como uma atividade educativa de um grupo de alunos, cabe perguntar se os professores realizam algum tipo de contato com o conteúdo das exposições para preparar seus alunos, especificamente se existe a possibilidade de uma preparação direta entre professor e museu. Nas entrevistas com os técnicos especialistas das duas instituições, foi questionado se havia ou não um trabalho prévio, para que o professor pudesse orientar seus alunos a tirar maior proveito da visita.
No caso do MAV, com a reestruturação da exposição em 2010, ainda não foi formatado um projeto educativo no qual essa atividade poderia estar contemplada, enquanto na EC já houve uma tentativa de dialogar com os professores. Eram preparados encontros para que as escolas que agendassem grupos de alunos encaminhassem seus professores dias antes para uma visita prévia, com orientações pedagógicas sobre o acervo. Porém, na prática, os professores, principalmente das escolas públicas, não eram liberados para dois dias de atividades extraclasse; então, um professor fazia a visita prévia e outro vinha acompanhar o grupo. A EC entendeu que o sentido dessa experiência se perdia; os encontros prévios não tinham muitos participantes, e, hoje, a instituição projeta uma nova aproximação com os docentes no sentido de ofertar mais informações sobre o acervo no site, com indicações de como trabalhar cada conteúdo por faixa etária, de como integrar com outras disciplinas etc.
Em relação ao trabalho em sala de aula, questionando diretamente o professor, a situação que se apresenta é a seguinte:
Figura 27 – Após a visita ao museu, é cobrado algum tipo de relatório ou atividade dos alunos? (MAV).
No MAV, tanto o trabalho preparatório quanto o trabalho após a visita foram realizados por todos os 6 professores (75%) das escolas públicas. Os 2 professores (25%) das escolas particulares não realizaram nenhum tipo de trabalho nem antes e nem depois da visita.
Os dados referentes aos professores que visitaram a EC estão expostos nas Figuras 28 e 29:
Figura 29 – Após a visita ao museu, é cobrado algum tipo de relatório ou atividade ou atividade dos alunos? (EC).
Avaliando as Figuras 28 e 29, constata-se que o número de professores que realizam alguma atividade preparatória com os alunos equivale a 55,56% do total. Porém, 8 professores (88,89%) afirmaram que a atividade posterior à visita é uma prática usual.
Alguns professores, visitantes tanto da EC quanto do MAV, informaram ter feito um estudo dirigido como atividade complementar ao momento da visita, mas ressalta- se que não se observou nenhum aluno com anotações prévias. Das atividades a serem realizadas após a visita, a mais solicitada é um texto sobre a experiência, porém, iniciativas interessantes, como a redação do relato em diferentes formatos, como poesia, crônica, e o relato para os alunos ausentes, também foram mencionadas. Outra atividade interessante que uma professora solicitou foi a produção de um texto para o blog que os alunos criaram para a disciplina de Língua Portuguesa. Acredita-se que essas atividades posteriores são formas de estender a experiência museal, implicando uma reflexão sobre o que foi visto e incentivando maior atenção do aluno no museu. Ao mesmo tempo, é interessante pensar que a motivação deveria ser trabalhada antes, na sala de aula; o entendimento do museu como suporte educativo, como oportunidade de aprendizado, deveria ser absorvido pelo professor, transformando-o em um mediador antecipado da visita.
Em geral, a avaliação dos professores a respeito da mediação é de que alcançou a expectativa, que foi descritiva o suficiente e que enriqueceu o aprendizado
dos alunos. Porém, é interessante observar algumas percepções da equipe dos museus sobre a presença dos professores durante o percurso:
Poucos professores participam das visitas, apenas acompanham os seus alunos. Penso que o professor poderia trazer alguns subsídios para orientar a dinâmica das monitorias, mostrando aspectos que já foram discutidos em aula, confrontando informações. (M1, mediador do MAV).
Costuma-se conversar com os professores assim que chegam na área para saber quais são os interesses da turma [...] É importante para definir os interesses e controlar a turma, com relação à disciplina. O problema é que muitas vezes o professor acha que não tem nenhuma responsabilidade e que os monitores devem ser babás dos alunos. (M5, mediador da EC).
Acho importante a participação dos professores durante as visitas, porém, muitos deles acabam por não ajudar os monitores em relação à atenção dos alunos, que acabam ficando dispersos e não prestam atenção na monitoria. (M2, mediador do MAV).
O que acontece na maior parte das vezes, pelo contrário, são os professores encarando a visita como entretenimento apenas, e quando fazem intervenções, mais atrapalham do que ajudam. (M6, mediador da EC).
Os professores que visitam junto com os grupos, em muitos casos, não são professores de ciência (geografia, biologia, física, química, matemática) e acabam por comportarem-se como visitantes comuns e, em casos isolados, chegam a deixar o grupo de lado, fazendo com que o monitor tenha que se preocupar em manter o grupo organizado e sem bagunça, atividade esta que não faz parte de sua função. (M7, mediador da EC).
Nota-se, em um primeiro momento, o descontentamento no que diz respeito à disciplina dos alunos durante a visita, associando esse fato à ausência de uma postura mais rígida do professor no sentido de educar para um comportamento adequado para o ambiente. Mas, além disso, o que vale ressaltar nessas falas é a importância, na opinião dos mediadores, de uma participação dos professores na mediação, isto é, de uma orientação sobre o conteúdo mais relevante para aquela turma e, principalmente, participação no diálogo ao longo da visita.
Na observação de diferentes grupos foi possível perceber que, quando os professores se demonstravam mais interessados e faziam perguntas, os alunos se sentiam mais seguros para também abordar o mediador. Em alguns casos, o professor atuava como um motivador e favorecia, assim, a mediação de mão dupla, transformando o visitante em um agente crítico perante a exposição.
Especificamente na EC, observou-se que o professor era essencial na participação do aluno nas experiências, e eles reconhecem a importância dessas
atividades não só para o aprendizado, mas também para uma sociabilidade possível no museu:
Figura 30 – A respeito das experiências onde os alunos podem participar, você estimulou a participação deles? (EC).
Figura 31 – A respeito das experiências onde os alunos podem participar, você acredita que a participação nessas experiências é: (EC).
Na Figura 30, observa-se que todos os 9 professores (100%) que responderam ao questionário incentivam a participação dos alunos nas experiências. Na Figura 31,
o mesmo número afirmou que essa participação, esse tipo de mediação, ajuda no entendimento do conteúdo.
Observou-se que os professores são importantes no ato da visita, pois podem estimular um aluno mais tímido ou temeroso das experiências, estabelecendo uma relação de confiança. Isto é, em algumas ocasiões, foi observado que o incentivo de um desconhecido – o mediador – não era suficiente para convencer um aluno a ir, tocar, participar; já quando o professor o incentivava, a reação era positiva. Esse estímulo do professor foi mais observado na EC, em função do caráter dos dispositivos presentes na exposição. No MAV, a mesa de toque é atraente e não tem dificuldade em sua interação, uma vez que é instintiva; na EC, porém, os experimentos exigem coragem, manuseio de equipamentos e outras atitudes que requerem maior estímulo.
A partir daí é aceitável dizer que o papel do professor nesse ambiente de educação não formal é também de educar o aluno. Educar, porém, não para o conteúdo científico, mas para a postura, fornecendo informações que orientem um maior aproveitamento dos equipamentos culturais e incentivando essa experiência. Muitos visitantes de grupos escolares nunca foram a um museu, e estar acompanhado de um professor nessa primeira oportunidade é simbólico e motivador. Essa é uma consciência que o próprio mediador do museu pode trabalhar com o professor.
Por fim, em relação ao aspecto educativo do museu, ressalta-se a opinião de um dos mediadores da EC acerca da importância dos museus de Ciências:
A ciência é sempre encarada como algo extremamente distante da vida das pessoas, e a ela associam-se vários mitos, muitas vezes devido à desinformação prestada por alguns filmes e livros de ficção científica, isso tudo sem falar no ensino brasileiro, seja público ou particular, que está extremamente atrasado quando o assunto é ciência. Isto posto, a Estação e os museus de ciência em geral têm o papel de informar, ensinar e desmitificar a ciência e por fim mostrar que ela está presente em nosso cotidiano [...] [tem que] complementar algum conhecimento prévio ou ainda despertar o interesse em alguma área do conhecimento. (M7, mediador da EC).
Mesmo sendo uma opinião do mediador, é evidente que ela traz aspectos observados no seu cotidiano e é endossada, inclusive, pelo técnico especialista da EC, que disse lutar constantemente por uma atualização da exposição permanente. O que se sobressai nesse pensamento é que o museu apresenta uma responsabilidade
social como instituição que tem um timing diferenciado e pode se atualizar constantemente, ao contrário das disciplinas escolares, por exemplo. Cabe, então, aos seus gestores batalhar por maiores recursos financeiros para manutenção, pesquisa e produção de conteúdo.
Esse é um dos desafios mais importantes para os museus universitários. Eles se deparam com políticas internas, mudanças de gestão, metas, que muitas vezes representam entraves para sua melhoria. Isso representa um desafio para cada um dos museus no sentido de reivindicar sua importante posição para a divulgação científica e para a comunidade – principalmente escolar – que o visita. Um corpo de pesquisa vinculado ao museu pode ter maior independência para alcançar esses objetivos, e isso pôde ser observado de maneira sutil nas duas instituições pesquisadas. O MAV, por estar vinculado diretamente a uma faculdade da USP, tem, aparentemente, maior mobilidade para troca de conteúdo expográfico, atualizações, desenvolvimento de propostas educativas, entre outras mudanças. Já a EC se encontra vinculada às ações da PRCEU, exige maior tempo e avaliação das propostas para que sejam implantadas.