A seguir, serão apresentados os resultados da pesquisa de campo realizada no MAV e na EC. Após a introdução de cada museu, serão apresentados os dados quantitativos referentes a cada um deles, sendo os qualitativos apresentados conjuntamente a partir das categorias de análises, comuns às duas instituições.
Ressalta-se que, para a organização das tabelas e dos resultados obtidos pelos questionários aplicados, optou-se pela divisão de categorias a partir da escolaridade, que abarcava tanto os visitantes espontâneos quanto aqueles que realizaram a visita por meio de agendamento de turmas escolares.
5.3.1 Museu de Anatomia Veterinária Prof. Dr. Plínio Pinto e Silva
O MAV está vinculado à FMVZ da USP e, juntamente com o Museu Histórico da mesma faculdade, é responsável pelo registro de parte do saber desenvolvido na USP. A história do MAV se confunde com a história da FMVZ, pois seu acervo é originário principalmente da coleção que o Prof. Dr. Plínio Pinto e Silva mantinha para suas aulas da disciplina de anatomia dos animais domésticos (MARIANA, 1996).
A FMVZ é originária do curso de veterinária criado em 1919 do Instituto de Veterinária, que era sediado no Instituto Butantan e subordinado à Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Em 1928, foi criada a Escola de Veterinária, que, em 1934, seria incorporada à USP. Entre 1935 e 1983, além de mudanças de espaço físico, a faculdade teve a inauguração do curso de Zootecnia e expansão dos seus departamentos, além da criação do Hospital Veterinário para o atendimento à comunidade. Ao longo dos anos e com o acúmulo das peças do já citado professor de anatomia e de outros de seus colegas, esse acervo foi sendo exposto pelos corredores da FMVZ até ganhar uma sala para exposição (MARIANA, 1996). Em 1984 é que o MAV seria aberto oficialmente à visitação.
Institucionalmente, a missão do museu é definida da seguinte forma: apresentar a anatomia veterinária para o público especializado e público em geral, com o fim de divulgar, educar e preservar, além de promover o respeito do ser humano com a vida animal. Seus objetivos são o de conservação e divulgação do material científico proveniente da pesquisa em anatomia veterinária da USP. Pesquisa
em anatomia veterinária e formação de recursos humanos para a museologia também estão presentes nos objetivos.
Da década de 1980 até os dias de hoje, a exposição ocupa o mesmo espaço: um galpão situado nos arredores da FMVZ. Porém, pode-se dizer que a sua organização passou por algumas mudanças. Não foram encontrados muitos registros históricos sobre a montagem e organização desse acervo. Um artigo de Marandino (2003) traz depoimentos do início dos anos 2000 que relatam mudanças na proposta conceitual, a qual incorporou uma preocupação museológica motivada pela busca de uma maior compreensão da anatomia para o público. Não se sabe exatamente quando surgiu essa preocupação, mas presume-se que foi ao longo da década de 90. Além disso, nota-se, em um dos relatos do mesmo artigo, que alguns elementos expográficos permanecem até os dias de hoje.
Nesta dissertação, foi possível levantar as informações da equipe atual do MAV e as mudanças mais recentes do museu. A exposição do museu sofreu pequenas alterações ao longo de sua história, sendo que somente há cerca de dois anos é que foi realizado um diagnóstico para sua atualização. Em 2010, foi inaugurada a nova exposição, denominada “Dimensões do corpo: da anatomia à microscopia”, fruto de uma reformulação total do MAV.
Atualmente, seu acervo é composto por cerca de mil peças, algumas ainda originárias de sua coleção inicial e outras oriundas de novos trabalhos de pesquisa, doações e permutas (VISINTIN, 2010)6. Essas peças são distribuídas entre esqueletos, animais taxidermizados, órgãos, modelos didáticos de anatomia comparada, sendo que a maioria das peças é de mamíferos. Todas as peças estão expostas, pois o local não dispõe de espaço suficiente para uma reserva técnica. A nova estrutura do edifício conta com uma recepção onde se encontram a bilheteria e uma loja de souvenir. A exposição é dividida nas seguintes seções: “A FMVZ e sua história”; “O que é anatomia”; “Origem e diversidade das espécies”; “Anatomia dos órgãos e sistemas”; e “Osteologia e morfologia”. Ainda no início do percurso se encontra uma bancada de explicação de todas as técnicas de conservação das peças (taxidermia, glicerinação, injeção de látex, desidratação, fixação etc.) e, no final, uma mesa de toque, em que o visitante pode sentir diferentes crânios e peles de animais. Por fim, o esqueleto de uma girafa é a peça escolhida para ser base de um desenho
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para colorir com uma estrutura destinada para crianças desenharem e exporem seus trabalhos em uma parede ao lado do esqueleto. Para Mariana (1996), o MAV possui uma coleção única, e talvez seja um dos únicos museus desse gênero da América do Sul. É certo que peças como alguns órgãos de baleia (coração, laringe, rim) são difíceis de ser encontradas em outro local, como dizem seus mediadores e seu técnico. Ressalta-se, também, a diversidade de ossadas de animais africanos.
Essa nova organização da exposição e do próprio museu foi fruto de um diagnóstico realizado por um especialista em Museologia que passou a integrar a equipe do MAV e que incorporou a proposta de uma comunicação museológica. Suas ações se ampliaram também para a proposta da criação de um Centro de Divulgação Científica da FMVZ – ainda em andamento – planejado para que todos os departamentos tenham seu espaço na divulgação de pesquisas e passem a integrar o museu. Por fim, foi definida uma comunicação visual. Hoje o museu tem uma logomarca, reproduzida na placa de entrada e em produtos como lápis, camisetas, canetas, fôlderes, marcadores de páginas, os quais são vendidos na loja, e também em todas as placas de identificação de peças e demais legendas informativas da exposição.
O público do MAV é diversificado, porém, em sua maioria, é composto por estudantes da rede pública e particular de ensino, variando desde o ensino fundamental até o superior. No período da pesquisa, observou-se que grande parte desses estudantes visita o museu com grupos escolares, sob a forma de visitas agendadas. Entretanto, por estar inserido dentro da Cidade Universitária, é possível notar um fluxo regular de visitantes da FMVZ e também de outras faculdades. As informações de controle de entradas cedidas para este estudo pela equipe do MAV apontam que o fluxo de visitação nos últimos três anos foi de 3.661 visitantes em 2008, 4.185 visitantes em 2009 e 3.460 visitantes em 2010. O MAV funciona de terça a sábado e tem política de cobrança de ingresso diferenciada para cada tipo de público, sendo que professores e alunos da rede pública de ensino, assim como a comunidade da USP, tem gratuidade na visita.
5.3.2 A Estação Ciência
A EC é um órgão da PRCEU que se configura e se define como um centro de ciências, responsável por “popularizar a ciência e promover a educação científica de
forma lúdica e prazerosa.” (USP, 2011b). A EC ocupa antigos galpões da Rua Guaicurus, no bairro da Lapa, na zona oeste de São Paulo, que datam do início do século XX e originalmente foram construídos para sediar uma tecelagem. O espaço total atual é de aproximadamente 5.000 m². Em 1985, a construção foi ameaçada de demolição, e o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT) iniciou estudos para o seu tombamento. Hoje, esse processo de tombamento em nível estadual está arquivado, e os galpões da EC são tombados apenas pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).
O espaço onde atualmente funciona a EC era de uso do Governo do Estado, que, em 1986, cedeu parte dele para uso do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para a instalação do Centro de Ciência para a Juventude, sendo, em 1987, inaugurada a EC. O projeto inicial da EC foi fruto de uma cooperação de integrantes do CNPq, universidades, outros órgãos governamentais e empresas e refletiu diretamente o entusiasmo do então presidente do CNPq, Crodowaldo Pavan, para a criação de um centro de divulgação científica na cidade de São Paulo. A EC surgiu a partir da necessidade de educar os jovens para um mundo que seria regido pela ciência e comandado pelo conhecimento. A ideia era de que o incentivo pelo gosto do conhecimento deveria ser para aqueles que estavam começando seus estudos. O espaço de experimentação seria ideal para canalizar a energia infanto-juvenil para o conhecimento (KREINZ; NUNES, 2010).
A missão da EC é formar uma consciência da dependência da vida moderna dos progressos da ciência e da tecnologia e promover a consciência de que se o conhecimento científico não fizer parte da cultura, jamais se terá um desenvolvimento sustentado e criativo. A criação da EC acontece em um contexto de redemocratização do País, no qual se insere o pensamento de que a democracia deveria representar acesso ao ensino e ao conhecimento científico em uma perspectiva da democratização da cultura (BACELLAR, 1987).
Desde sua inauguração, a EC já se diferenciava de um museu tradicional dotado de acervo. O local pretendia ser um centro para
ampliar a cultura científica dos cidadãos, envolvendo-os no processo de elaboração da ciência, estabelecendo contato com os fenômenos naturais, com os princípios físicos e com novas fenomenologias, num ambiente lúdico que anima a participação [onde o visitante deixa de] ‘ouvir falar’ para
visualizar o experimento, tocá-lo, fazendo com que as coisas aconteçam. (BACELLAR, 1987).
Evidencia-se aí a inspiração nos modelos hands-on privilegiados nos centros de Ciências, nos quais a interatividade é recurso principal para a participação do público na visita.
Em 1990, a EC passa a ser administrada pela USP com o intuito de que se tornasse uma vitrine para o conhecimento produzido na universidade. Porém, o que se percebe hoje na observação desta pesquisa e em conversas com diferentes funcionários da instituição é a desatualização do seu conteúdo expositivo. Muitas experiências e trechos da exposição permanentes são, ainda, os originais da década de 80, deixando evidente a necessidade de atualização e modernização do espaço.
Hoje, sua estrutura conta com recepção e bilheteria; dois andares para exposição, com destaque para um hall térreo, considerado espaço nobre que recebe as exposições temporárias; espaço denominado “Estação Natureza”, que é um conjunto de vagões localizados na área externa da EC e que abriga uma exposição permanente; cafeteria; e um auditório com capacidade para 190 pessoas. Cursos,
workshops, encenações teatrais e shows de ciência abertos à comunidade são
eventualmente oferecidos.
A exposição permanente é dividida nas seguintes áreas de conhecimento: Física, Matemática, Química, Ciências da Terra e Biologia (corpo humano e aquários). A EC possui, ainda, um planetário e os já citados vagões da Estação Natureza. Em 2011, recebeu a exposição comemorativa do Ano Internacional da Química. Ressalta- se que, como parte integrante da PRCEU, a EC também promove itinerância de partes de suas exposições nos diferentes campi da USP.
O público que visita a EC também é diversificado. Além de a maioria ser composta por estudantes da rede pública e particular de ensino (variando desde o ensino fundamental até o superior), a instituição recebe considerável número de visitantes espontâneos. O fato decorre de sua localização, horário de funcionamento de seis dias na semana (inclusive feriados) e por ser apresentada em diversos guias turísticos como opção de passeio na cidade. As informações disponibilizadas no site da EC apresentam a média de público anual de cerca de 400 mil visitantes. A política de cobrança de ingressos prevê gratuidade para a comunidade da USP, professores, agentes ou guias turísticos (com registro da EMBRATUR), menores de 6 anos e
terceira idade. Além disso, o primeiro sábado e o terceiro domingo de todo mês são dias com entrada gratuita para todos os visitantes (USP, 2011b).