2. ŞİRKET VE MÜŞTERİYİ TANITICI BİLGİLER
2.4 Uygunluk Beyanı
A nova Constituição Federal de 1946, de caráter liberal e democrático, refletiu o novo governo, estruturado em uma coalização de partidos, com PSD, partido do presidente Dutra, eleito em 1946, e UDN, partido da oposição derrotada nas mesmas eleições e compondo o governo. Este processo, segundo Saviani (2010), expressou a mesma política de
―modernização conservadora‖, iniciada com a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio
Vargas ao poder.
Neste contexto, iniciou-se um novo processo de organização da educação nacional, tendo como fator principal a elaboração da Lei de diretrizes e bases da educação nacional.
O ministro da educação da época, Clemente Mariani, para atender o dispositivo do artigo 5, inciso XV, alínea d, da nova Constituição, instituiu uma comissão encarregada de elaborar o anteprojeto de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Para compor a comissão, convidou vários educadores do país, com participação hegemônica dos escolanovistas, tendo, inclusive, na presidência da comissão um dos signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, Lourenço Filho. Este constituiu três subcomissões: do ensino primário, do ensino médio e do ensino superior. O anteprojeto elaborado pela comissão foi enviado para a Câmara Federal em 1948, iniciando um longo processo que durou 13 anos, findando em 1961 com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, LDB 4.024/61.
No âmbito do Congresso Nacional, o debate que se desenvolveu nesse período, sobre o anteprojeto, foi centrado inicialmente sobre duas polêmicas: o caráter descentralizador e centralizador da legislação educacional. Numa segunda fase, esse debate se deslocou para a polêmica a respeito do monopólio estatal de ensino versus a liberdade de ensino, ou seja, a relação entre público e o privado. O caráter descentralizador da legislação educacional foi defendido pelos defensores da Constituição de 1946 e os escolanovistas. No tocante à organização da educação nacional, a concepção dos renovadores, desde o lançamento do Manifesto, era a de defender a descentralização. No anteprojeto esta concepção apareceu mais moderada do que na Constituição de 1946, com o foco nos sistemas estaduais de ensino, sendo que o sistema federal assumia um caráter meramente supletivo. Em razão do caráter técnico-cientifico atribuído a educação pelos renovadores, foi defendido por eles no anteprojeto que o Conselho Nacional de Educação possuísse funções consultivas e deliberativas. Contudo, esta proposta foi reformulada pelo Ministro da Educação ao enviar o anteprojeto para ser analisado pelo Congresso, transformando o Conselho em um órgão somente de caráter consultivo (ROMANELLI, 2014).
Já o caráter centralizador foi sustentado pelos defensores dos ideários da Constituição de 1937, tendo como principal representante Gustavo Capanema, líder do governo na Câmara dos deputados, ex-Ministro da Educação no governo de Vargas. Capanema se contrapôs ao anteprojeto elaborado pela comissão e enviado ao Congresso através do Ministro da Educação da época, Clemente Mariani, vendo no anteprojeto uma posição antigetulista. Para Capanema, o anteprojeto estava mais voltado para os aspectos político-partidários do que para as questões educacionais. Segundo ele, o projeto pretendia
políticos da ditadura” (BRASIL, 1957, p. 128 apud SAVIANI, 2010, p. 283, grifos do autor). Com isso, Capanema emite um parecer criticando o caráter descentralizador da educação e, simultaneamente, elabora uma interpretação centralizadora da mesma. Por isso ele encaminha no seu parecer o arquivamento do projeto de lei.
Em maio de 1957, foi retomada na câmara dos deputados a discussão entorno da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, através do projeto de lei nº 2.222. Esse projeto foi apresentado pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara Federal, em novembro de 1956. O processo de tramitação do projeto foi caracterizado pelo embate entre os defensores da escola pública, de um lado, e dos defensores da escola particular, de outro, marcando a segunda fase da elaboração da lei de diretrizes e bases da educação nacional. Esse conflito foi fomentado pelo discurso do deputado Padre Fonseca e Silva, pronunciado no dia 05 de novembro de 1956, em que ele acusava o diretor do INEP, Anísio Teixeira, e o presidente da comissão diretora do Congresso, Almeida Júnior, de se oporem aos interesses das escolas confessionais. Segundo Saviani (2010), apesar de todos os esforços de Anísio Teixeira de esclarecer que não defendia o marxismo, de que não defendia o monopólio estatal da educação, de demonstrar todo o seu respeito pelas escolas particulares, o eminente educador continuou sendo alvo de ataques. Para Saviani (2010), o alvo dos ataques não era a pessoa, mas as ideias que Anísio Teixeira defendia entorno da educação pública, universal e gratuita.
[...] não obstante tudo isso, os católicos orquestraram uma campanha cerrada contra ele. É que não estava em causa sua pessoa e, portanto, as suas ideias e convicções. O que estava em causa era o que ele representava, e que estava resumido no título de sua conferência: a luta pela implantação e consolidação de uma escola verdadeiramente pública, universal e gratuita. E a igreja sentiu-se ameaçada, pois interpretou que, universalizando-se a escola pública e gratuita, ela se estenderia a todos e atenderia a todas as necessidades educacionais da população. Não haveria, pois, espaço para outro tipo de escola [...]. (SAVIANI, 2010, p. 288).
Em 1958, foi apresentado um novo substitutivo pelo Deputado Carlos Lacerda, o qual ficou conhecido como: substitutivo Lacerda. Tal substitutivo, conforme Saviani (2010), tinha como base as ideias defendidas pelo Terceiro Congresso Nacional dos Estabelecimentos Particulares de Ensino, realizado em São Paulo, no ano de 1948. Para o autor, esse substitutivo tinha como objetivo contemplar diretamente os estabelecimentos de ensino particular, além de deslocar o debate, que estava circunscrito na figura de Anísio Teixeira, para amplos setores da sociedade. Porém, o substitutivo não foi colocado em debate. Em 1959, o mesmo Deputado, apresentou o terceiro substitutivo, que, além de contemplar a essência do substitutivo anterior, contribuiu com as bases do texto constitucional da primeira LDB.
Conforme assinala Romanelli (2014), o autor do substitutivo, Carlos Lacerda, utilizando-se de estratégias bem elaboradas e usando de artimanhas, com o objetivo de não revelar os reais interesses das instituições privadas, nos artigos 3 e 4 do substitutivo de 1959, defende o direito precípuo da família em oferecer educação dos filhos, para, logo em seguida, introduzir o artigo 5, em que defende a alocação de recursos públicos para a iniciativa privada. Para a autora, o direito da família e da liberdade de ensino foi uma estratégia do autor do substitutivo para se opor ao monopólio estatal de ensino e, por sua vez, favorecer o ensino privado nas instituições particulares.
Uma primeira observação que se pode fazer em relação a esses artigos consiste em que, na verdade, se armava habilmente um silogismo, no qual as premissas eram os dois primeiros artigos [3 e 4] e a conclusão, o último [5]. Com efeito, os dois primeiros foram capciosamente prepostos, como um sofisma, para que o último pudesse ser anunciado conclusivamente. Como se vê, o centro do interesse não estava no direito da família, mas na reivindicação de recursos que se fazia em favor desta ao Estado para beneficiar a iniciativa privada antes mesmo que ao ensino oficial. (ROMANELLI, 2014, p. 180).
Nessa perspectiva, o autor do substitutivo expõe nos artigos 70, 71 e 79, o que ele havia anunciado no artigo 5, ou seja, a concessão de recursos financeiros por parte do Estado as instituições privadas de ensino.
Art. 70 – Além dos recursos orçamentários destinados a manter e expandir o ensino oficial, o Fundo Nacional do Ensino Primário, o do Ensino Médio e o do Ensino Superior proporcionarão recursos, previamente fixados, para a cooperação financeira da União com o ensino de iniciativa privada, em seus diferentes graus.
Art. 71 – A cooperação financeira da União, dos Estados, e dos Municípios se fará: a) sob a forma de financiamento de estudos através de bolsas, concedidas a aluno, na forma da presente lei; b) mediante empréstimos para construção, reforma e extensão de prédios escolares e respectivas instalações e agrupamentos.
Art. 79 – Ao Conselho Regional de Educação e às Comissões que dele receberem os poderes previstos neste capítulo compete: a) garantir a plena liberdade do bolsista ou de sua família no uso e emprego que fizerem da bolsa quanto ao gênero de educação, tipo de estudos ou instituição escolar que escolherem.
No último artigo citado, do substitutivo Lacerda, aparece novamente o conceito de liberdade de ensino, assim como os católicos já reivindicavam na década de 1930, quando da polêmica com os renovadores. Romanelli (2014), seguindo Roque Spencer Maciel de Barros, defende que o conceito de liberdade de ensino, defendido pelo Substitutivo Lacerda e contemplado na LDB 4.024/61, segue a orientação dos documentos papais, em que estes defendem que liberdade de ensino implica no direito exclusivo da igreja no exercício da ação educativa. No caso do Brasil, este movimento foi expresso através da oposição ao monopólio estatal de ensino através de setores da igreja católica. Porém, segundo a autora, esta oposição também interessava outro setor da sociedade: a iniciativa de ensino privada leiga. É neste contexto que esses dois setores se aliam e defendem amplas liberdades de ensino, em que
todos poderiam abrir escolas privadas, sem a intervenção do estado, mas, ao mesmo tempo, fazendo uso dos recursos estatais.
Para se contrapor ao caráter privatista da educação, expresso no substitutivo Lacerda, foi articulada em todo o país, através de intelectuais, jornais e educadores, a defesa da educação pública e gratuita. Segundo Saviani (2010), nessa defesa pode ser identificado três correntes do pensamento: a liberal-idealista, tendo como principais representantes o jornal O Estado de S. Paulo, sob a direção de Júlio de Mesquita Filho, e professores da USP, ligados as áreas de filosofia e história da educação; a segunda corrente, denominada de liberal- pragmatista, pertence ao grupo dos renovadores; e a terceira corrente, de tendência socialista, tinha como principal representante Florestan Fernandes. Este foi um dos principais defensores e divulgadores da educação pública na época e durante toda sua vida acadêmica e de militância. Ele participou de vários debates, conferências e atividades públicas, além de percorrer todo o Brasil, tendo como pauta a defesa da educação pública de qualidade, que servisse à formação da classe trabalhadora. Florestan propiciou que o debate da educação pública e da LDB chegasse aos sindicatos e, por sua vez, às massas.
Em 1959, foi lançado um manifesto em defesa da escola pública, com o título: O Manifesto dos educadores: mais uma vez convocados. Sendo escrito novamente por Fernando de Azevedo, foi subscrito por 190 intelectuais e defensores da educação pública. Em razão dessa pressão, a campanha em defesa da escola pública, articulada com o Dep. Celso Brante, apresentou outro substitutivo, contribuindo para que comissão de educação da câmara, em acordo com os partidos, nomeasse uma comissão para apresentar um anteprojeto único. Este, apresentado, conservou, em linhas gerais, as ideias principais do substitutivo Lacerda, no tocante ao direito da família em oferecer ensino aos filhos e a liberdade de ensino das instituições privadas.
Segundo o Manifesto de 1959, os católicos, em aliança com os estabelecimentos privados de educação tinham três objetivos bem definidos na campanha contra o monopólio estatal e a favor da liberdade de ensino, a saber:
[...] 1) o ensino será ministrado sobretudo pelas entidades privadas e, supletivamente, pelo poder público; 2) o ensino particular não será fiscalizado pelo Estado; 3) o Estado subvencionará as escolas privadas, a fim de que estas possam igualar os vencimentos dos seus professores aos dos professores oficiais. É, como se vê (conclui o grande diário), a instituição no Brasil, do reinado do ensino livre: livre da fiscalização do Estado, mas remunerado pelos cofres públicos‖. (MANIFESTO, 2006, p.210).
Percebe-se, portanto, que o centro da campanha dos católicos e dos estabelecimentos privados de educação não era, de fato, a liberdade de ensino, mas os
interesses econômicos da iniciativa privada e das próprias instituições religiosas ligadas à Igreja Católica. É nesse contexto que é aprovado a Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional em 1961.