2. KESİCİLERİ BAĞLAMAK
2.5. Uygun Kesme Şartları
Pelas lentes da Ciência da Religião nota-se que a sacralidade do Direito tem uma linguagem própria. Ritos e mitos refletem na experiência dos operadores do Direito. Experiências que podem ser vistas por meio dos seres que transitam entre dois mundos: o mundo da realidade cotidiana e o mundo inacessível habitado pelos juízes togados, investidos de poderes, como seres superiores que podem mudar o destino dos humanos pelo poder da palavra, da decisão, da sentença.
A mística que envolve o judiciário o torna mais adequado aos moldes sacramentais da Religião à medida que constatamos o temor reverencial que temos pelas leis e pelo Estado que institui "Deus" como o verdadeiro mito da "religião civil" figurado na imagem da deusa da justiça.
Figura VIII61
Foto tirada do bibelô presente à mesa do juiz no dia da entrevista.
A Religião é a resposta às necessidades de integração social e sua função vem cumprindo papel importante na organização e estruturação da sociedade. Os mitos que continuam vivos na sociedade secularizada mostram-nos, como diz Queiroz, o poder da palavra divina nos rituais transferida ao ser humano. "O poder da palavra mítica se dá também nos rituais" (QUEIROZ, 2013, p. 506). Isto pressupõe que as palavras realizadoras do Direito não são meramente comunicativas. Direitos e deveres são criados, relação jurídicas são estabelecidas e autoridades são investidas para dar eficácia e validez às palavras pronunciadas, seja em um ritual cerimonial de casamento, da posse de um funcionário público ou um testamento, de um contrato verbal e sobretudo de uma sentença judicial.
A hermeneutica literária ou filosófica, a prática teórica de interpretação de textos jurídicos não tem nela própria a sua finalidade; diretamente orientada para fins práticos, e adequada à determinação de efeitos práticos, ela mantém a sua eficácia à custa de uma restrição da sua autonomia. (BOURDIEU, 1998, p. 213).
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Dessa posição de Bourdieu podemos inferir que a palavra do juiz, ao definir uma questão ou proferir uma sentença não tem apenas efeitos práticos. Sua eficácia não é autônoma mas se funda em algo além de sua autonomia.
A palavra criadora do direito tem força e poder, juízes ao proferirem sentenças mudam situações de obrigações e de direitos, de pessoas envolvidas em conflitos judiciários. O Direito tem uma linguagem própria que espelha a linguagem religiosa. Os legisladores instituem as leis como que arcanos do Direito com o uso frequente do latim e palavras rebuscadas incompreensíveis aos leigos. As religiões da mesma forma separam o idioma sagrado do profano.
Como a Igreja e a Escola, a Justiça organiza segundo uma estrita hierarquia não só as instâncias judiciais e os seus poderes, portanto, as suas decisões e as interpretações em que elas se apóiam, mas também as normas e as fontes que conferem a sua autoridade a essas decisões (BOURDIEU, 1998, p. 214).
Essa hierarquia pela qual a justiça se organiza, se reflete e se comunica pelas palavras. Na antiga liturgia da missa católica, a palavra era envolvida no mistério da língua latina, que só os ministros sagrados compreendiam.
Assim como os textos sagrados sãos dogmas, os textos jurídicos possuem suas cláusulas pétreas que são verdadeiros dogmas do Direito. Os livros sagrados, assim como as constituições, códigos e leis, petrificam a escrita em determinado ponto da história e faz com que este perdure e gere a herança linguística arcaica. Isto faz com que a linguagem ritual do Direito "tenda a conferir a aparência de um fundamento transcendental às formas históricas da razão jurídica e à crença na visão ordenada da ordem social" (BOURDIEU, 1998, p. 214). E assim a linguagem jurídica se afasta da linguagem profana.
Comumente no âmbito do judiciário são invocados os adágios62. Os adágios pertencem ao discurso costumeiro, erudito ou popular. No âmbito da Religião seriam as palavras de sabor e sabedoria. Assim, a linguagem de nosso sistema judiciário chega a confundir-se em alguns pontos com a linguagem das religiões. O caráter esotérico de ambas as linguagens também as aproxima no sentido de que supostamente tratam de um saber restrito a iniciados que não pode ou não deve ser vulgarizado.
No seio do pensamento jurídico e judiciário há um tesouro de pensamentos memoráveis que humanizam e vivificam o Direito. Apresentaremos apenas alguns exemplos.
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"Fraus omnia corrumpit", "a fraude corrompe tudo" (CORNU, 2012, p. 18). Os adágios têm uma forma reconhecível e seu teor é evidente. Eles tendem para o que deve ser feito, têm como finalidade uma ação moral e brilham em todo o Direito, sendo a eles aparentados as máximas, sentenças, preceitos, provérbios, ditados, apotegmas. "Em todos os campos do pensamento e da ação - filosofia, moral, medicina, religião, governo -, a mesma necessidade de reunir em fórmulas lapidares a quintessência de um saber, fez brotar esse veio literário" (CORNU, 2012, p. 18).
Segundo Cornu muitos adágios expressam pensamentos de justiça, clemência ou bom senso, e em cada país constituem um tesouro. "Os bastardos não sucedem; tudo foi do marido e tudo será dele", "paterna paternis, materna maternis" (CORNU, 2012, p. 18). "O adágio está vivo e sempre em vigor e em ação, não numa vitrine [...] Vivo graças ao uso sempre renovado que os juristas fazem deles, de geração em geração, na própria aplicação do Direito de seu tempo" (CORNU, 2012, p. 18).
Os adágios ilustram o ensino do Direito e não são apenas ornamentos, mas fundamentos do pensamento. Particularmente dentre nós, ocidentais, muitos dos signos religiosos migraram para a liturgia forense sem qualquer dificuldade, mesmo que a separação dos poderes temporal e religioso seja aclamada como uma das maiores conquistas da democracia moderna.
"O acervo latino não se limita apenas aos adágios enunciados em língua latina, na Idade Média e no Renascimento, sobretudo pelos canonistas e glosadores" (CORNU, 2012, p. 19).
A linguagem verbal judiciária continua fortemente marcada por seu hermetismo, sintetizada nos adágios.
"Plurimae leges, pessima respubica", "leis demais, república péssima" (CORNU, 2012, p. 19). "Jus est ars aequi et boni", "o Direito é a arte do justo e do bom" (CORNU, 2012, p. 19).
Tendo sempre como finalidade a ação moral, os adágios são apreciados pelos juízes que zelam pela preservação da antiga jurisprudência e do seu selo doutrinal. Ora, o direito consuetudinário faz-se presente por sua característica transcendental. O Direito tem uma oralidade própria que requer seja preservada."Nascidos pela fala, os adágios são transmitidos pela fala" (CORNU, 2012, p. 20). Sua tradição é oral, vão da boca aos ouvidos, portanto, a lei está impressa na alma, no fundo do ser.
Os adágios são a memória do Direito. Perenizam o direito mental, conhecido de cor têm a função de lapidar o Direito.
A quintessência das regras, "o adágio é fundamentalmente criação do espírito" (CORNU, 2012, p. 21).
Segundo Boudieu a linguagem pode ser um princípio de uma autonomia real dos pensamentos e práticas.
"O efeito de apriorização, que está inscrito na lógica do funcionamento do campo jurídico, revela-se com toda a clareza na língua jurídica que, combinando elementos diretamente retirados da língua comum e elementos estranhos ao seu sistema, acusa todos os sinais de uma retórica da impersonalidade e da neutralidade. Ela é a própria expressão de todo o funcionamento do campo jurídico e, em especial, do trabalho de racionalização, no duplo sentido de Freud e Weber, a que o sistema das normas jurídicas está continuamente sujeito, e isto desde há séculos" (BOURDIEU, 1998, p. 216).
Bourdieu quer nos ensinar que a linguagem jurídica, em especial a dos rituais judiciários é perpassada por elementos estranhos ao próprio sistema, elementos esses que se alocam no próprio inconsciente, da psicologia do profundo afloram como elementos que transcendem o aqui e o agora, eis que foram introjetados desde há séculos.
Com Boudieu aprendemos que há um espírito jurídico.
Com efeito, aquilo a que se chama o espírito jurídico ou o sentido jurídico e que constitui o verdadeiro direito de entrada no campo (evidentemente com uma mestria mínima do meios jurídicos acumulados pelas sucessivas gerações, quer dizer, do corpus de textos canônicos e do modo de pensamento, de expressão e de ação, em que ele se reproduz e que o reproduz) consiste precisamente nesta postura universalizante (BOURDIEU, 1998, p. 216).
Entendemos, com Bourdieu que o espírito ou o sentido jurídico são traços, palavras, expressões jurídicas oriundas dos textos canônicos e da prática jurídica há séculos acumuladas pelas sucessivas gerações
Há uma forma específica sustentada por um corpo de regras de coerência interna, cuja palavra manifesta-se como poder, seja ela escrita ou verbalizada. O verbo é parte do ritual judiciário que requer um modo especial de postura. Está claro que a exibição material comunica, mas existe também algo diferente quando se comunica com palavras. As palavras também podem ser claras e convincentes e as palavras no ambiente judiciário tem características de afastarem-se da linguagem cotidiana para volver o mundo da linguagem na sua transcendentalidade histórica.
A linguagem é um estereótipo e uma estilização que se compõem de sequências específicas quase sempre arcaicas. Elas se repetem em circunstâncias determinadas bem reguladas. A linguagem indica as relações dentro da liturgia, seja ela forense ou religiosa, e
constitui um modo de comunicação. A linguagem é um código e o código é formado por vocábulos e desempenha um papel importante no ritual. As palavras e os atos se unem no ritual possibilitando um modo de comunicação mais completo e mais englobador. As mensagens de significados se tornam mais amplos, dado o aspecto simultâneo de um ritual em sua realização concatenada pela palavra e pelo ato.
Para Bourdieu os atores do ritual jurídico procedem por dois caminhos: o pensamento teológico no qual procuram a revelação do justo que fundamenta a letra da lei e o pensamento lógico, a técnica jurídica que lhes possibilita a aplicação da lei ao caso particular e assim garantem a coerência jurídica praticando uma exegese que tem por fim racionalizar o direito positivo.
Participando ao mesmo tempo de um modo de pensamento teológico - pois procuram a revelação do justo na letra da lei, e do modo de pensamento lógico pois pretendem por em prática o método dedutivo para produzirem as aplicações da lei ao caso particular -, eles desejam criar uma ciência nomológica que enuncie o dever-ser cientificamente; como se quisessem reunir os dois sentidos separados para a ideia lei natural, eles praticam uma exegese que tem por fim racionalizar o direito positivo por meio de trabalho de controle lógico necessário para garantir a coerência do corpo jurídico e para deduzir dos textos e das suas combinações consequências não previstas, preenchendo assim as famosas lacunas do direito (BOURDIEU, 1998, p. 221).
A palavra é provavelmente a glosa do logos, que procura aclarar, denotar a ordem estabelecida na liturgia processual, pois alude a uma gama de significados básicos do verbo associado que tem a finalidade de contar, reconhecer, enumerar, narrar, dizer. Existe também um sentido de não ocultar nem olvidar nada, portanto tem a função totalizadora.
O logos ou a lógica jurídica é a reunião recopiladora original que é em si mesma permanente e dominante. É um princípio ordenador que subordina e une tudo o que existe para formar um todo coerente e duradouro. Ou seja, o logos tem sentido universal, e é apreensível por todos os atores do processo, portanto, constitui norma. O dicionário, a linguagem canônica aplicada revela e registra o acontecimento processual.