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Começamos com este interessante ordenamento da era Vargas, válido até hoje:

Art. 1º - Os desembargadores da Corte de Apelação do Distrito Federal, nas sessões do Tribunal Pleno e das respectivas Câmaras, usarão, nos termos do regimento, as vestes talares, que obedecerão aos modelos ora aprovados e que acompanham este decreto. Rio de Janeiro, em 14 de maio de 1934, 113º da Independência e 46º da República. Getúlio Vargas.

A história do traje judiciário testemunha a magnificência das pessoas investidas do poder de julgar. Outrora a paramentação servia para distinguir a categoria de letrados, na qual a monarquia se apoiava para afirmar o seu poder em detrimento do feudalismo. No Antigo Regime a toga vermelha dos magistrados superiores, de origem real, era distinta da toga negra dos de origem clerical. No Regime Republicano, prevaleceu a toga negra na magistratura.

No contexto do ritual judiciário, especialmente dos tribunais do júri, todo gesto realizado, toda unidade de espaço e de tempo representa, por convicção, alguma coisa diferente de si mesmo. A toga do magistrado é uma linguagem de sinal que remete-nos ao decreto acima, assinalado por Getúlio Vargas.

As vestes talares constituem parte dos itens que remontam a antiga tradição e a toga é algo quase indispensável aos magistrados que continuam a usá-la quotidianamente. "Na Idade Média, o juiz usava a toga durante todo o dia e em qualquer ocasião, inclusive na sua residência" (GARAPON, 1997, p. 73). Hoje é mais comumente utilizada no momento da audiência, ficando os magistrados desobrigados do uso em caso de deslocamento para averiguações processuais. O uso da toga remete às formas solenes que conferem respeito aos atos judiciários, assim como os paramentos conferem respeito aos ministros ao exercerem suas funções sagradas.

A forma da toga judiciária sublinha o seu caráter sumptuário. A toga apresenta-se ampla e com pregas, praticamente sem costuras. Envolve o corpo de uma maneira majestosa. As pregas são numerosas. São as mangas que mais impressionam pelo seu tamanho. Bastante incômoda para quem trabalha, frisam a origem aristocrática de quem a veste (GARAPON, 1997, p. 76).

É uma vestimenta que configura a representação das profissões judiciárias. A cor negra simboliza a indiferença perante as cores da vida e a superioridade sobre a morte. Só os magistrados continuam o uso dessa "vestimenta velha de mais de dois mil anos e que sofreu alterações consideráveis, mas cujo corte e cuja cor permanecem idênticas" (GARAPON, 1997, p. 82).

Garapon ensina-nos que,

O traje judiciário tem a sua origem na realização da sagração, o que atenua a oposição entre a origem real e a origem clerical do traje judiciário, já que a veste que o rei recebia no dia da sagração - a mesma que depois concedia aos presidentes dos parlamentos - era um traje religioso (GARAPON, 1997, p. 82).

Os reis eram coroados em cerimônias que os integravam na hierarquia da Igreja católica, mas o poder glorificador da vestimenta é de origem romana e essa de origem inspirou as vestimentas litúrgicas. "O palácio da justiça é a morada simbólica e descentralizada do soberano" (GARAPON, 1997, p. 84).

A toga constitui um escudo protetor por ser uma veste institucional que cobre quem a usa. "Os juízes que vão ministrar a justiça saem da vida comum no momento em que vestem a toga" (HUIZINGA, 2000, p. 60).

Constitui-se um traje majestoso que engrandece a função e instaura a unanimidade ritual mitificando a justiça. Ela é em si mesma discurso. Alarga o significado simbólico do judiciário por designar o ser que representa ordem social.

Tanto a celebração de um ritual como seu conteúdo formam e transformam aquilo que pretendem realizar. O ritual consegue seus efeitos por meio da comunicação de um significado e a toga é um elemento formal que concebe de forma exata esse significado oculto. É um elemento informativo inseparável da natureza do judiciário que reflete o poder sagrado da liturgia católica.

Como um dos elementos que afetam os vários gestos e logram vários efeitos, a toga valida e dá eficácia para os atos, pois quem as usa é capacitado para codificar e transmitir a informação do poder de seu usuário, ainda que os interlocutores não tenham a capacidade para reconhecer a mensagem e recebê-la de forma representativa, manifestam pelo respeito a verdade que a reveste.

Enaltecer a autoridade, tal o paramento na prática religiosa é o objeto da toga manifestando uma ordem convencional intrínseca à semelhança dos rituais litúrgicos.

O ser humano que veste a toga "assinala a vitória do parecer sobre o ser" (GARAPON, 1997, p. 86). Sendo assim, é uma veste designada para manifestar a superioridade do procedimento ritual.

A toga identifica o personagem com a instituição e fornece uma identidade. Pelo uso da toga permite-se ser reconhecido pois o seu uso associa-se ao espaço. A toga contribui para enaltecer a justiça, sua identificação instaura a unanimidade do ritual. A toga tem, "uma só linguagem60, o Direito; e uma só alma, a justiça" (GARAPON, 1997, p. 88). É uma veste que amplia o seu significado simbólico e dialoga com outros elementos do judiciário.

A veste talar mantém sua identidade dentro de um universo integrado com a esfera jurídica, cujo papel busca a distância entre os sujeitos para se estabelecer numa regulação social que é proporcionada pelo próprio ritual da sessão plenária do júri. Constitui uma analogia com a vida religiosa, na qual a veste sacerdotal é deveras marcante; toga e veste sacerdotal são recebidas mediante a investidura. Portanto consagra a personagem oficial cuja função ultrapassa a identidade pessoal.

Vimos que o processo é regido por normas jurídicas. O ritual acrescenta-lhe outras regras, não escritas, que ditam o comportamento e a personalidade de cada um. Ou seja, juiz, promotor e advogados só podem compor o ritual se o público reconhecer na toga e nas demais vestes talares as insígnias de sua função. Entretanto, entre todos os personagens do ritual processual emerge a figura do juiz. Por isso dela vamos tratar no item seguinte na esteira das reflexões de Durkheim sobre o Totem.

Benzer Belgeler