• Sonuç bulunamadı

3. BÖLÜM

4.5. Uygulanan Boyama Yöntemleri

Judith Butler, situada entre os chamados teóricos queer, elabora sua discussão a partir da desconstrução da noção de gênero centrada no binário homem/mulher e questiona o que considera como matriz heterossexual da teoria social. Inspirada na crítica genealógica foucaultiana, Butler (2010, p. 9) aponta como sua tarefa analítica ―centrar-se – e descentrar-se – nessas instituições definidoras: o falocentrismo e a heterossexualidade compulsória‖. Para a filósofa, o gênero, o desejo e as identidades sexuais são ―efeitos de instituições, práticas e discursos cujos pontos de origem são múltiplos e difusos‖.

Como parte da crítica aos chamados binômios constituintes do pensamento moderno – homem/mulher, sexo/gênero –, Butler formula a ideia de desconstrução da matriz heterossexual. A autora considera que os termos que constroem classificações de gênero não carregam sentidos fixos e, dessa maneira, gênero compreenderia não só a culturalização conferida aos corpos, como se esses fossem portadores de um significado dado; até mesmo a ideia de sexo é submetida a uma compreensão cultural. ―A hipótese de um sistema binário dos gêneros encerra implicitamente a crença numa relação mimética entre gênero e sexo, na qual o gênero reflete o sexo ou é por ele restrito‖ (BUTLER, 2010, p. 24).

Ainda no entendimento de Butler (2010, p. 25),

[s]e o sexo é, ele próprio, uma categoria tomada em seu gênero, não faz sentido definir o gênero como a interpretação cultural do sexo. O gênero não deve ser meramente concebido como a inscrição cultural de significado num sexo previamente dado (uma concepção jurídica); tem de designar também o aparato mesmo de produção mediante o qual os próprios sexos são estabelecidos.

28 Para Butler, as diferenças sexuais são marcadas por práticas discursivas. Em suas palavras:

[a] categoria do ―sexo‖ é, desde o início, normativa: ela é aquilo que Foucault chamou de ―ideal regulatório‖. Neste sentido, pois, o ―sexo‖ não apenas funciona como uma norma, mas é parte de uma prática que produz os corpos que governa (BUTLER, 2010, p. 153).

Assim, termos como feminino, masculino, mulher, homem, não são compreendidos simplesmente a partir do seu par oposto, através de significados estáveis, mas como termos relacionais em determinados discursos constituídos. Da mesma forma, a chave da opressão não é compreendida simplesmente a partir da tensão constituída na relação de poder entre homens e mulheres. Segundo Butler (2010, p. 20), ―resulta que se tornou impossível separar a noção de ‗gênero‘ das interseções políticas e culturais em que invariavelmente ela é produzida e mantida‖.

Ao questionar o binário que constituiu a base da teoria feminista, Butler (2010) põe em questão o fato de as mulheres serem o sujeito central do feminismo. Se, por um lado, reconhece que, do ponto de vista histórico, foi importante associar a linguagem do movimento a uma política de representação das mulheres, por outro, discute quão estável ou permanente se encontra o termo mulheres enquanto sujeito na contemporaneidade, inclusive problematizando a universalização de questões unificadas por esse termo.

A autora se apropria da afirmação de Simone de Beauvoir de que ―não se nasce mulher; torna-se mulher‖ e amplia seu significado: em seu entendimento, quando Beauvoir se refere ao tornar-se mulher, não necessariamente está subentendido um corpo dito feminino. O tornar-se mulher, para Butler, é enfatizado pela construção cultural e não pela determinação sexual: ―não há nada em sua explicação que garanta que o ‗ser‘ que se torna mulher seja necessariamente fêmea‖ (BUTLER, 2010, p. 27).

A crítica da matriz binária heterossexual nos conduz à noção de performatividade do gênero, através da qual Butler discorre sobre sua concepção de materialidade dos corpos, entendida como efeito produtivo do poder. Afirma a autora:

[n]ão se pode, de forma alguma, conceber o gênero como um construto cultural que é simplesmente imposto sobre a superfície da matéria – quer se entenda essa como o ―corpo‖, quer como suposto sexo. Ao invés disso, uma vez que o próprio ―sexo‖ seja compreendido em sua normatividade, a materialidade do corpo não pode ser pensada

29

separadamente da materialização daquela norma regulatória. O ―sexo‖ é, pois, não simplesmente aquilo que alguém tem ou uma descrição estática daquilo que alguém é: ele é uma das normas pelas quais o ―alguém‖ se torna viável, é aquilo que qualifica um corpo para a vida no interior de um domínio da inteligibilidade cultural (BUTLER, 2010, p. 154).

A noção de performatividade leva a perceber não só os mecanismos que produzem determinadas materialidades dos corpos segundo determinados sentidos, mas também o que fica deslegitimado e/ou silenciado pelos discursos constituintes de tais práticas. Se o corpo carregasse características dotadas de um significado intrínseco, como consequência ele só poderia ser compreendido culturalmente a partir dos seus elementos ―naturais‖. Butler chama atenção para o fato de que até mesmo a condição corpórea já está previamente culturalizada e uma associação direta entre sexo e gênero incorreria em inscrever os corpos sempre em identidades pré-estabelecidas.

Da pressuposição do discurso enquanto constituidor de práticas, Butler desenvolve a crítica da heterossexualidade compulsória, que estaria implícita nos discursos heteronormativos que regulam as sexualidades. Em seus termos,

[a] instituição de uma heterossexualidade compulsória e naturalizada exige e regula o gênero como uma relação binária em que o termo masculino diferencia-se do termo feminino, realizando-se essa diferenciação por meio das práticas do desejo heterossexual. O ato de diferenciar os dois momentos oposicionais da estrutura binária resulta numa consolidação de cada um dos seus termos, da coerência interna respectiva do sexo, do gênero e do desejo (BUTLER, 2010, pp. 45-46).

Se Beauvoir buscou desnaturalizar a ideia do ―ser mulher‖, Butler foi além e problematizou concepções de gênero e sexo. As duas matrizes teóricas possuem fontes filosóficas distintas, porém, a seu tempo e com seus pressupostos, causaram impactos nas formulações feministas, sejam teóricas ou políticas. O pensamento das duas filósofas se constitui como modalidades diferentes para compreender as classificações de gênero como construções culturais; ambas as modalidades são interessantes para pensar as noções de masculino e feminino conforme veiculadas nos manuais de autoajuda e em que sentido pertencem ao imaginário das leitoras que buscaram aconselhamento nos livros analisados na presente pesquisa.

30

Benzer Belgeler