Em uma quinta-feira, no dia 10 de setembro de 1987 circularia no Jornal O Povo, o primeiro número da Coluna Olimpíada de Matemática. É provável que muitos dentre os leitores do Jornal, não tenha atentado para tal publicação, embora o espaço dedicado ocupasse quase uma página inteira do sempre prestigiado primeiro caderno. E dentre os leitores que perceberam a novidade é possível que alguns, ou até muitos, tenham pensado que matéria tão excêntrica tratar-se-ia de uma publicação eventual. E talvez poucos, ou mesmo pouquíssimos, tenham imaginado que tal coluna se repetiria por mais de uma dezena de anos, semana a semana de forma ininterrupta.
Recorde-se aqui o frontispício deste número:
OLIMPÍADA DE MATEMÁTICA
Universidade Federal do Ceará – Centro de Ciências – Departamento de Matemática – Ano I – n.º 1
Guilherme Ellery - João Marques Pereira – Marcondes França – Thompson Gonçalves
O título refere-se a Olimpíada de Matemática, de forma genérica. Porém, eram inevitáveis as associações com as Olimpíadas Cearense de Matemática, que ocorriam desde 1981, e Brasileira de Matemática, que ocorriam desde 1979. A seguir, na mesma fachada, viria a informação acerca da instituição acadêmica responsável, o Departamento de Matemática, do Centro de Ciências da Universidade Federal do Ceará (UFC). E por fim, quatro nomes que indicariam a autoria da coluna.
São todas informações importantes e esclarecedoras, já que o Jornal se encontrava notadamente identificado por ser o portador do referido conteúdo. Todavia, resta analisar uma informação pequena no lado direito do frontispício: Ano I – n.º 1. O uso do sistema de numeração romano para ordenar o(s) ano(s) e o uso do sistema de numeração decimal posicional para ordenar as colunas dentro de cada ano, aparentaria indicar as verdadeiras intenções dos autores. Por eles, haveria muitas colunas por muitos anos.
Este primeiro número viria a constituir-se de uma apresentação da coluna, e de uma série de outras secções que de forma geral se repetiriam, em parte, nos números seguintes.
A seguir será feita uma análise do conteúdo da apresentação pelo seu elevado grau de esclarecimento sobre o contexto acadêmico, no qual a coluna se inseriria, bem como sobre os principais objetivos pedagógicos da mesma.
Dado que o texto é longo, seu conteúdo será analisado por partes:
APRESENTAÇÃO
Iniciamos, hoje, a execução de um Projeto que visa contribuir com o aprimoramento do Ensino da Matemática nos 1º e 2 Graus, estimular o gosto por esta Ciência e suas aplicações e despertar o espírito criativo latente na nossa juventude.
O Departamento de Matemática da Universidade Federal do Ceará vem se preocupando com a Iniciação à Matemática, há mais de duas décadas. Durante todo este tempo um amplo Programa vem sendo desenvolvido. Inicialmente com o Curso Mirim e com o apoio do CECINE. Posteriormente, com a realização de Cursos para professores de Fortaleza e do interior do Estado, que atuam em nossos Colégios, com a promoção da Olimpíada Cearense de Matemática e, agora, com a implantação do Plantão de Atendimento a alunos e professores da Rede de Ensino de 1º e 2º Graus e com a publicação semanal da Coluna Olímpiada de Matemática. (JORNAL O POVO, 10.09.1987).
Quando da escrita desta apresentação, o ensino da Matemática secundária no país, padecia das mazelas produzidas pela LDB 5.692/71. Os autores se mostram preocupados em estimular o gosto pelo estudo da Matemática, e, notadamente, contribuir para despertar a criatividade certamente existente na juventude, objetivos que não seriam possíveis de ser alcançados por meio do modelo tecnicista- mecanicista imposto pela Lei vigente.
Indo mais além, eles informam a sociedade, do engajamento do Departamento de Matemática da UFC na luta para melhorar o ensino da Matemática, com foco nos estudantes (Curso Mirim) e nos professores (Curso de Aperfeiçoamento), há mais de vinte anos, e humildemente, incluir sua coluna semanal apenas como mais uma dessas ações.
Em seguida continuam os autores:
A concepção inicial para a composição desta coluna visava veicular informações, problemas propostos e resolvidos e outras teorias diretamente relacionadas às Olimpíadas Estadual, Nacional e Internacional, além de outros concursos similares. Esta idéia primeira evoluiu, de forma que os objetivos iniciais foram ampliados para a perspectiva global do conhecimento matemático acessível ao nível do Ensino Médio, desde os pontos mais básicos. Entendemos que assim procedendo, alargamos também o universo de leitores que a Coluna alcançará e os possíveis efeitos de nosso trabalho.
Desta forma, a Universidade busca uma integração sempre crescente entre suas ações e as necessidades que são constatadas na realidade cearense. Cremos que, através deste canal que nos foi aberto por este veículo de comunicação de massa, poderemos alcançar significativa parcela do nosso meio e colaborar de forma efetiva com o segmento científico da Educação do nosso Estado, que clama por uma verdadeira revolução nos processos e métodos ora empregados. (JORNAL O POVO, 10.09.1987).
Estes confessam, humildemente, que o objetivo inicial da Coluna era mais modesto. No entanto, este viria a ser ampliado para uma concepção mais abrangente, orientada a uma ação de preservação do conhecimento matemático, por meio de sua divulgação em um veículo de comunicação de massa. Demonstram ter plena consciência do poderio comunicativo que lhes está sendo disponibilizado para uso, e da grande responsabilidade que lhes caberá por esta utilização.
A apresentação da Coluna em seu primeiro número, conclui-se:
Acreditamos que os currículos escolares, despindo a Matemática de seu conteúdo cultural e exibindo um elenco de tecnicismos muitas vezes estéreis, contribuem para inibir o desenvolvimento da criatividade e para repelir muitas mentes argutas que, de outra forma, certamente seriam atraídos pelo assunto.
Almejamos alcançar os nossos leitores com mensagens comprometidas com as idéias e com os métodos de desenvolvimento que envolvem a Matemática e seu uso, nos cingindo aos níveis de conhecimento alcançáveis no ensino médio.
Nas primeiras edições apresentaremos problemas propostos e resolvidos, inclusive relacionados às Olimpíadas de Matemática, textos sobre assuntos matemáticos que podem ser abordados na Escola, construções geométricas, temas para desenvolver a criatividade, notícias sobre eventos e fatos relevantes, além de comentários específicos.
Aguardamos, ansiosos, torcendo por um relacionamento mais aproximado com professores, alunos e interessados pela Matemática. Sugestões, soluções de problemas, enunciados de novas situações, e problemas podem ser encaminhados aos responsáveis por esta Coluna e, em ocasião oportuna, serão aproveitados e veiculados com identificação de fonte. Procurem, também, o nosso Plantão de Atendimento para discussões e esclarecimentos. Trabalhamos em Equipe em prol do conhecimento e do homem cearense. (JORNAL O POVO, 10.09.1987).
Os autores voltam a denunciar a estrutura pedagógica dos currículos de Matemática secundária paridos da LDB 5.692/71 e atentando mais uma vez para seus enormes prejuízos, se propõem a compartilhar com os leitores, um trabalho de equipe, uma abordagem diferente que possa proporcionar uma maior aproximação de, e entre, alunos e professores da Matemática. E já anunciam como pretendem fazê-la citando algumas das seções que se farão presentes na Coluna ao longo dos próximos números.
O conteúdo desta apresentação conduz a conclusão de que os autores possuíam uma clara compreensão do contexto que envolvia o ensino da Matemática secundária à época. Tal constatação ganha relevância por não ter havido ainda o distanciamento, desta conjuntura, produzido pela passagem do tempo. Tratando-se, portanto, de uma profunda compreensão do presente. Isto, por si só, é um fato raro.
Todavia, além de ter sido uma exposição articulada nos predicados do discernimento e do descortínio, esta apresentação foi também um ato de coragem. Com efeito, o país viveria ainda um momento político no qual a redemocratização não se encontraria completamente consolidada. Portanto, o reconhecimento ao péssimo estado do ensino da Matemática secundária no país, poderia ter conduzido à Coluna Olimpíada de Matemática, a ser um exemplo de uma experiência nati-morta.
Este primeiro número poderia encontrar-se hoje no rol de centenas de artigos publicados que apresentam holísticas visões de conjuntura, via de regra recheados de boas intenções, mas que encerram por aí suas repercussões. Este não seria o caso. A visão de mundo, a concepção pedagógica, e mormente a proposta de intervenção social, presentes no artigo, seriam confirmados semana após semana, ano após ano, por mais de uma década.
Continuando essa viagem pelo número inicial da Coluna, far-se-á a descrição a seguir de dois tópicos específicos, que nem sempre viriam a repetir-se em números posteriores, mas que estariam impregnados de simbolismos.
O primeiro seria a reprodução do seguinte pensamento do grande matemático alemão Carl Friedrich Gauss (1777-1855), ao lado de um seu retrato-pintado:
Sempre me pareceu estranho que todos aqueles que estudam seriamente esta ciência acabam tomados de uma espécie de paixão pela mesma. Em verdade, o que proporciona o máximo prazer não é o conhecimento e sim a aprendizagem, não é a posse, mas a aquisição, não é a presença, mas o ato de atingir a meta. (JORNAL O POVO, 10.09.1987).
O segundo seria a seguinte referência ao Professor Titular, Decano, do Departamento de Matemática da UFC:
Nossa Homenagem
Ao Prof. ANTÔNIO GERVÁSIO COLARES Mestre de todos nós
Símbolo do entusiasmo pela Matemática Exemplo de amor ao trabalho,
Semeador da crença e do espírito científico. (JORNAL O POVO, 10.09.1987).
Gauss é considerado um dos mais importantes matemáticos em todos os tempos. Não apenas pela originalidade e profundidade de suas descobertas, mas também pela quantidade, de subáreas distintas na Matemática, nas quais trabalhou. Isto o conduziu à condição de detentor de uma profunda e abrangente cultura matemática. Portanto, sua opinião de que a obtenção e a aquisição do conhecimento são mais gratificantes ao ser humano do que a posse deste, reveste-se de uma importância maior ainda.
Todavia, a escolha de Gauss, pelos autores, pode ter tido uma motivação a mais. A história do começo da vida de Gauss e a de um provável garoto talentoso cearense, podem ter similaridades inesperadas.
Mlodinow (2008, p.114) nos fala sobre a infância de Gauss nos seguintes termos:
Carl Friedrich Gauss nasceu em Braunschweig (hoje Brunswick) na Alemanha, no dia 30 de abril de 1777, cinquenta anos depois da morte de Newton. Ele vinha de um bairro pobre, numa cidade pobre, quase 150 anos depois do seu ápice. Seus pais pertenciam a uma classe da população chamada, com precisão germânica, de “semicidadãos”. Sua mãe, Dorotéia, era analfabeta e trabalhava como empregada doméstica. Seu pai, Gerhard, trabalhava em várias atividades servis, desde abrir canais e assentar tijolos até fazer a contabilidade de uma sociedade funerária local.
Como se pode perceber, o contexto socioeconômico que envolvia a família de Gauss, ao final do século XVIII na Alemanha, poderia ser muito similar a de famílias de jovens talentosos leitores da Coluna, ao final do século XX no Brasil. Nestas situações é comum que muito cedo as crianças e adolescentes troquem os estudos por trabalho para ajudarem no sustento familiar.
Mlodinow (2008, p.115) nos afiança que com Gauss não teria sido diferente:
Infelizmente, a idéia de Gerhard quanto a alimentar os talentos de seu filho não foi o de contratar um professor particular e mandá-lo para uma escola montessoriana. Isto é compreensível, considerando-se que a família era pobre e que Maria Montessori nasceria somente cem anos mais tarde. Ainda assim, Gerhard poderia ter encontrado alguma maneira de encorajar a educação de seu filho. Neste sentido, ele entregou a Carl a tarefa semanal de conferir sua aritmética da folha de pagamento, e ocasionalmente, levaria o menino para divertir seus amigos, um tipo de show de criança superdotada. O jovem Carl não enxergava bem, e algumas vezes não
conseguia ler a lista de números que seu pai tinha adoçado para ele somar. Tímido demais para dizer alguma coisa, Carl apenas ficava sentado e aceitava o fracasso. Não demorou muito, Gerhard mandou Carl trabalhar às tardes, fiando linho para suplementar a renda familiar.
A sorte do mundo da Matemática mudaria em virtude da dedicação de Dorotéia e do apoio, inclusive financeiro, do professor primário de Gauss, um mestre rigoroso que atendia pelo nome de Buttner. Além de lhe ensinar toda matemática que sabia e de frequentemente comprar livros do seu próprio bolso para doar a Gauss, Buttner teria a incomum humildade de ainda na adolescência de Gauss, encaminhá-lo a estudar com um seu ex-aluno, o talentoso matemático Johannes Bartels (1769- 1836). Oito anos mais velho do que Gauss, Bartels o acompanharia durante grande parte de sua vida. E embora Bartels tenha sido um dos melhores matemáticos de sua época, ele tinha a compreensão de que Gauss seria um dos melhores de todos os tempos.
As atitudes desses dois professores de Gauss encontrar-se-iam entre aquelas que a Coluna pretendia estimular. Todavia, a referência ao pensamento de Gauss, embora bela e oportuna, poderia ter ficado como algo um pouco distante, não fosse o reconhecimento à prática docente do Professor Gervásio Colares. Com este, estaria feita a necessária ligação entre o universal e o regional. A reverência ao “mestre de todos nós” ressaltando seu “entusiasmo” pela causa matemática, bem como “seu amor ao trabalho” e à sua persistência em semear, não seria apenas uma grande homenagem, mas sim a divulgação à sociedade da existência no Ceará de uma pessoa com todas estas características. Ao mesmo tempo em que os autores demonstravam que ser um professor com todas estas qualidades era algo possível, deixavam também claro que a iniciativa daquele empreendimento resultava, em muito, da atitude docente do professor Gervásio Colares.
Por fim, os quatro autores da Coluna e o professor Gervásio Colares seriam exemplos confirmativos da primeira frase do pensamento de Gauss.
O primeiro número ainda conteria as seções intituladas: “Probleminhas”; “Problemas (1º Grau)”; “Problemas (2º Grau)”; “Problemas de Olimpíadas”; “Problemas Livres”; Ensinando e Aprendendo”; e “Comentando”; algumas das quais se tornariam seções permanentes e ansiosamente aguardadas.
Após esta breve descrição, fica a conclusão que já no seu primeiro número a Coluna Olímpiada de Matemática do Jornal O Povo, deixaria uma clara impressão em seus leitores sobre o excelente trabalho que estava por vir.