A República do Mali, país africano de 14 milhões de habitantes a oeste da Nigéria, Sul da Argélia e Leste de diversos países da costa africana, como Senegal e Guiné, privatizou em 2000 a empresa Energe du Mali por um período de 20 anos para o conglomerado francês Bouygues (Saur International).
Conforme estudo de caso descrito por (GOMEZ-IBAÑEZ, 2005a), logo após a privatização o governo e a concessionária já entravam em disputa sobre a forma de cálculo da tarifa de energia elétrica da empresa. Em 2005 o contrato foi alterado: de investidora, a Saur International passaria a ter apenas a responsabilidade de O&M dos ativos, e investimentos novos deveriam ser realizados pelo governo.
No entanto, um ponto importante da disputa era quanto o governo pagaria de indenização para ter os ativos de volta (tanto aqueles comprados em 2000 quanto os investimentos realizados de 2000 a 2005). O processo era acompanhado de perto pelo Banco Mundial e pela Agence Françoise
de Développement (AFD), que estavam preocupados com o fracasso do modelo de concessões
Apenas 15% da população de Mali era atendida com energia elétrica, e não necessariamente de forma satisfatória em termos de qualidade de fornecimento. O problema maior era que, considerando o baixo poder aquisitivo da população, obras de expansão (geração, transmissão e dist i uição à ãoà pode ia à se à pagasà i teg al e teà o à u aà ta ifaà eal ,à a i aà doà pode à deà compra dos consumidores. No entanto, nos centros urbanos (3,6 milhões de habitantes), onde o poder aquisitivo era maior, os investimentos poderiam ser inicialmente realizados.
O contrato de concessão previa metas de investimento, de universalização e de redução de perdas, além de projetar as tarifas necessárias para equilíbrio do contrato. Nos cinco primeiros anos o concessionário deveria passar sua base de consumidores de 80.000 para 143.000. Nos vinte anos de concessão, 300.000 consumidores deveriam estar ligados à rede elétrica25. Ainda, a
quantidade de centros urbanos atendidos deveria passar de 34 para 97.
A tarifa seria definida da seguinte forma: nos primeiros 10 anos, uma fórmula (prevista em contrato) baseada em índices inflacionários, preço do combustível e variação dos salários seria aplicada (aproximando-seà deà u à ost-plus). A partir do 11º ano o modelo migraria para uma regulação por incentivos (Price-Cap), a ser definida pela agência reguladora (a ser criada).
A licitação foi disputada pela AES e pela Vivendi, além da ganhadora Saur, que ofereceu US$17,6 milhões pela concessão (6 vezes mais do que o lance da AES; a Vivendi foi desqualificada). Em um primeiro momento, a relação entre a concessionária e o governo foi amistosa. Porém, ao longo do ano 2000, o preço do combustível (óleo diesel) utilizado na geração de energia dobrou, o que fez com que (pela fórmula contratual) a tarifa de energia tivesse que ser reajustada já em 2001 em 28,7%.
O governo vetou o reajuste, limitando-o a 5%, porém se comprometeu a compensar a diferença por meio de subsídios, cumprindo a promessa neste primeiro ano. Assim, a concessionária conseguiu atingir suas metas de melhoria de qualidade e redução de perdas (inclusive imediatamente trazendo um gerador adicional de 10MW para operar durante o verão e reduzir os blackouts do sistema).
25 O contrato de concessão era conjunto: energia elétrica e distribuição de água. Para este segundo, as metas eram menores: de 60.000 ligações, ao final dos 20 anos deveriam ser atendidas 195.000.
O verdadeiro problema começou em 2002, quando a usina de Manantali (200MW) foi ligada ao sistema elétrico. Esta usina era uma parceria entre Mali, Senegal e Mauritania, com o primeiro tendo direito a 52% da energia gerada, o segundo 33% e o último 15%. Isso porque o preço do MWh térmico era cinco vezes maior do que o preço do MWh comprado da usina de Manantali; e, mesmo com a usina hidrelétrica conectada, o contrato previa reajustes atrelados ao preço do diesel. Isso fez com que o reajuste de 2002 fosse de 4,87%, mesmo o custo da energia tendo caído consideravelmente. O General ATT, autor do golpe militar de 1991, aproveitou esta situação para ganhar as eleições de 2002 – valendo-se da bandeira de redução das tarifas de energia elétrica e água.
Em 2003, um novo reajuste foi calculado pela concessionária – desta vez de 16%. O governo não aceitou, e determinou uma redução de 9,6%. A concessionária não se mostrou aberta a renegociar os termos do contrato – mesmo com o evidente erro de precificação da energia comprada – temendo que esta renegociação poderia abrir as portas para outras. A agência reguladora, já estabelecida, propôs um meio-termo, de 7,6%. Em resposta, o novo presidente destituiu o diretor- ge alàdaàag iaàpo à s iasàofe sas .àE à àu à o oà eajusteà egati oàdeà , %àfoiàap ese tadoà pela agência, já com o novo diretor-geral,à ueà julgouàaàf ulaà o t atualà i justa àeà passouàaà definir a nova tarifa com base em critérios próprios. Assim, neste mesmo ano ficou claro para ambas as partes que não seria possível manter o contrato como estava.
Um mediador indicado pelo Banco Mundial foi envolvido para propor uma solução até julho de 2005. Foram realizadas reuniões de conciliação em Washington (nov/04), Paris (jan/05) e Bamako (mar/05), além de vários encontros técnicos. A solução encontrada foi a de firmar um contrato apenas de O&M, deixando a propriedade da empresa (e a obrigação de aportar novos recursos) para o governo federal.
A nova tarifa seria definida por: O&M + CC + TX + CAP1 + CAP2
Onde:
O&M = Custo a ser pago para a operadora (Saur) CC = Custo do combustível efetivamente gasto TX = Impostos e Taxas
CAP1= Fundo para suportar os novos investimentos
Assim, a Saur receberia a soma do O&M e do CAP2 (sendo o primeiro condicionado a metas de desempenho). No entanto, a cada encontro ambas as partes voltavam atrás em decisões já tomadas. Por isso, a Saur acabou vendendo sua participação na empresa ainda em 2005 para o Agha Khan Fund for Economic Development (1/3) e para o próprio governo federal (2/3) (PPIAF, 2011). Desde então, o país não conseguiu atrair mais investimentos internacionais significativos para desenvolver a infraestrutura local.