• Sonuç bulunamadı

O fotógrafo e a pianista se mudaram para uma casa só. A velhinha da primeira casa foi morar no quarto da sua amiga italiana, assim não ficava mais sozinha, tinha sempre companhia para o chá e os sonhos. O homem rabugento foi embora. Agora são três casinhas para alugar. Quem será que virá?

Roseana Murray

O desfecho da obra O fio da meada revela as transformações ocorridas entre vizinhos mediante a concretização de seus pensamentos em ações. O homem rabugento, dono de pensamentos aterrorizantes, não achou lugar para acomodá-los naquela calma e alegre rua, rumando com seus cachorros para outro local. A pianista e o fotógrafo cruzaram seus pensamentos ao se esbarrem enquanto saiam de suas casas, reconhecendo que eles só seriam plenamente satisfeitos quando concretizados sob a forma de uma relação a dois. A velhinha da primeira casa, acostumada a viver só com seus pensamentos, encontrou na vizinha italiana a chance de dividi-los, estimulando-a a agir depois de tanto tempo, ação representada pela mudança para a casa da nova amiga.

Segundo Ricoeur, a personagem é quem faz a ação na narrativa, estando seu papel atrelado ao desempenho de suas ações no decorrer da trama: “a identidade do personagem compreende-se por transferência para ele da operação de intriga primeiramente aplicada à ação relatada” (1991, p.171). Esse efeito pôde ser notado na atitude dos leitores durante o primeiro encontro sob a temática “Eu sou as minhas leituras”, focada na personagem, reforçado pela premissa de que, na mente infantil, a ação assume o lugar da compreensão. De acordo com Bruno Bettelheim (1980), as

narrativas que sintetizam os fatos em uma única ação, característica recorrente nos contos de fadas, permitem que a ação da personagem facilite a compreensão de seus sentimentos por parte do leitor criança.

Durante o estímulo lúdico, os alunos haviam escolhido uma ocupação dentre várias presentes num quadro, todas retiradas da obra a ser lida. Muitos, contudo, após a leitura, alteraram suas escolhas por não se identificarem com a personagem que representava a profissão eleita. A identificação, que no estímulo esteve atrelada a si mesmo numa projeção futura, concretizou-se, mediante a leitura, no outro, protagonista do papel escolhido. Porém, quando as ações da personagem, responsáveis pelo delineamento de sua personalidade, não condisseram com a expectativa do leitor, instalou-se a repulsa. A identificação pela oposição acarretou a troca na escolha inicial, denotando uma atitude reflexiva movida pela leitura literária.

Foi o caso, por exemplo, de Larissa. Perante o quadro de ocupações, escolheu ser fotógrafa. Após conhecer a vizinhança de O fio da meada, substituiu a câmera fotográfica pelo lápis de cor, identificando-se com a mulher do professor de alemão, que adorava desenhar e sonhava em ser mãe e em ilustrar e escrever histórias infantis. As ações, tanto do fotógrafo como da esposa do professor, foram decisivas para a troca de Larissa. Segundo suas justificativas, expostas no momento de reflexão sobre a leitura, ela se afastou dos flashes assim que descobriu que o fotógrafo mantinha em sua casa gaiolas cheias de passarinhos, atitude que não aprovava. Em contrapartida, aproximou- se da aspirante à ilustradora, sobretudo, pelo gosto por desenhos e pelo sonho comum em um dia também ser mãe. Partindo das referências reveladas pela obra, atualizou-as de acordo com a sua concepção futura, imaginando-se no outro:

Meu nome é Clara, tenho 24 anos de carreira, mas na verdade tenho 36 anos de idade, moro na Alemanha e sou fanática por desenhos e imagens de paisagens e monumentos. Meu desenho favorito é um de uma paisagem da cidade de Paris. Eu viajo muito por causa dos meus desenhos que ganham todos os concursos de desenhos do mundo. Passo o dia inteiro em casa fazendo desenhos e ilustrações muito bonitas. Espero ainda ter um bebê...

Vitor também mudou sua escolha inicial. Se antes da leitura queria ser professor, após preferiu simplesmente voltar a ser o que já era, criança. Identificou-se com os filhos arteiros do casal de italianos. Como eles, também protagoniza atitudes condenatórias perante o olhar adulto. Entretanto, ao refletir sobre tal identificação, atualizando-a no papel, relativizou o perfil maldoso que atribuiu a si próprio no início do texto, projetando-se em outra personagem, de uma obra literária distinta, ícone da natureza travessa infantil, dinamizando, assim, sua suposta culpa:

Oi, eu sou aquele anjo que é bem PESTE! Que se irrita com qualquer coisa, com os pais, com os irmãos e com tudo. Na verdade eu sou do bem não sou tudo isso que eu falei agora. Ah, o meu nome é Menino Maluquinho e tenho 12 anos e tenho 5 irmãos. Eu não faço nada só brinco, ouço música e como doces. Ah! Meu apelido é Peste!!

No encontro seguinte, ao atraírem seus olhares para a importância do espaço na narrativa, cruzaram suas representações imagéticas de uma casa engraçada, feitas durante o estímulo lúdico ao som do poema musicado A casa, de Vinicius de Moraes, com os diferentes castelos presentes na obra lida. Tanto as casas imaginadas como os castelos revelados pela leitura apresentavam características inusitadas, particularizando-os no mundo próprio da fantasia, distante do real. Esse convite à recriação da realidade a partir de um contexto inédito motivou-os a diferentes reflexões. Depois de escolherem na obra o castelo no qual gostaria de morar, projetaram-se para dentro dele de maneiras diversas. Alguns limitaram-se a descrevê-lo, outros deram vida ao cenário escolhido, narrando situações por eles lá vividas. Jennifer, por seu turno,

uniu descrição e ação através de versos, num jogo de palavras que, por vezes, perdia- se do contexto original:

No castelo vermelho / Existem muitos segredos / Ouros e jóias / Pedras preciosas... // Um dia Manuela nasceu / Rápido ela cresceu / Um canguru tinha / Com ele vivia. // Seu quarto era vermelho / Cheio de segredos / O canguru morava no quarto / com Manuela. / Com ela, cantava e dançava / até que ela cansava.

Já Diana mergulhou no Castelo da Rosa, tornando-o sua própria morada, de modo a atualizá-lo para si num exercício interativo entre realidade, própria de sua vida, e fantasia, tomada pelas referências desveladas pela obra lida, evidenciando tal interação ao se aproximar e, ao final, afastar-se do plano imaginário:

A rainha deste castelo espetacular é a Marie, sou a princesa Mônika e tenho duas irmãs, que também são princesas, a Vanessa e a Cen. Todas nós somos minúsculas fadas fabulosas que moram neste castelo minúsculo mas glamoroso. A flor é o hall de entrada, sua cor é azul e rosa, envolvida por ramos perfumados. Nós nos alimentamos do pólen da flor. A torre do castelo é grande, azul e rosa. Tudo é sofisticado e da melhor qualidade. Lá é sensacional.

O espaço deu lugar ao tempo na oficina posterior, representado, inicialmente, através do jogo de se projetar no futuro, quando os alunos ilustraram-se mais velhos. Essa transformação temporal aparentemente física assume traços mais densos na experiência humana à qual está desde sempre vinculada. Diante disso, para Ricoeur, o caráter temporal da experiência humana é o desafio último da identidade estrutural da função narrativa bem como da exigência de verdade de toda obra narrativa. O mundo revelado pela leitura de uma narrativa é sempre um mundo temporal. Como define: “o tempo torna-se tempo humano na medida em que é articulado de um modo narrativo, e a narrativa atinge seu pleno significado quando se torna uma condição da existência temporal” (1994, p.85).

Ao propor uma mediação entre tempo e narrativa, concebe, como vimos, a tríplice mimese, evidenciando o papel mediador do tempo da tessitura da intriga entre os aspectos temporais prefigurados no campo prático e a refiguração da nossa experiência temporal por esse tempo construído. Como sintetiza: “seguimos, pois, o destino de um tempo prefigurado em um tempo refigurado, pela mediação de um tempo configurado” (1994, p.87). A construção configuradora da narrativa, que implica a pré- compreensão do agir humano, só tem sentido quando regressa ao tempo desse agir, ou seja, quando regressa ao mundo da vida e da experiência temporal do leitor.

Assim, através da leitura, o passado remoto configurado na trilogia do Rei Gilgamesh, recontada por Ludmila Zeman, foi refigurado pelos leitores, de modo a fazer sentido na relação com suas próprias vidas, denotando o caráter transformacional do tempo articulado na narrativa. Esse jogo temporal entre passado e presente foi estendido para a reflexão sobre a leitura, permitindo ao leitor se deslocar no tempo através da experiência imaginativa. Como resultado, os alunos escreveram uma carta para si mesmos, contando sobre suas vidas no futuro, onde se encontravam virtualmente. Esse exercício de deslocamento temporal, aproximando eras distantes, suscitou o próprio distanciamento de si, dividindo-o em dois, o si mesmo do presente (ou passado) e o outro, oriundo do futuro, como evidenciam os textos de Rafaela e de Carolina, respectivamente:

Oi, Rafa, tudo bem! Continuo morando em Porto Alegre e tenho 27 anos. Tenho namorado e filhos. Trabalho em artimanhas. Beijos, Rafaela no futuro. 25/06/24 Oi... Carol. Como está aí no passado? Aqui, quem está falando é a Carolina do futuro, ah aqui no futuro está ótimo. Eu tenho 11 filhos, brincadeirinha, eu tenho só 2, eles são gêmeos, meninos. Não pretendo ter mais nenhum filho, porque eu sou cantora e não tenho tanto tempo assim do mundo.