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No desafio histórico de superar os seus próprios limites o homem vem ultrapassando as barreiras do tempo com a poderosa arma do conhecimento, tendo encontrado muitos substitutos para seu esforço físico, o que lhe diminuiu o trabalho e criou condições para viver melhor.

Inventos de incontestável valor ajudaram nessa fantástica trajetória, a exemplo da roda, das ferramentas para o labor, dos barcos, dos aviões e inúmeras outras que permitiram a conquista do controle do movimento, a exploração do subsolo, à potencialização da força, enfim, a geração de riqueza.

71 Mesmo com tudo isso, como é sabido, existem de um lado da moeda, povos convivendo com os recursos da mais alta tecnologia e, de outro, ainda nos primórdios da humanidade ou mergulhados na miséria. Quem tem melhor qualidade de vida? Esse poderia ser um debate interessante, mas não é foco deste bloco de abordagem que tem como alvo se cingir ao que significa qualidade de vida.

Antes, contudo, é preciso saber que a qualidade de vida é consequência de uma ação e que, analogamente, usando uma linguagem estatística, funcionaria como uma variável dependente, podendo se desdobrar em outras, as quais podem ter seu status modificado para melhor ou pior a depender da avaliação realizada, ou seja, sofrer um impacto.

Em termos de impacto, a complexidade maior se encontra em como avaliar sua presença, pois ainda há controvérsia na literatura em como fazer isso. Vários exemplos de definições podem ser vistos no Quadro 9, conforme seus autores:

Quadro 9 – Definições sobre Avaliação de Impacto

Autor Definição∕Comentários

Scriven (1991) Uma avaliação focada nos resultados ou retornos do investimento, em vez de no processo, na entrega, ou na avaliação da implementação.

Mohr (1992)

Vamos tomar o termo análise de impacto para significar a determinação da extensão em que um conjunto de atividades humanas dirigidas(X) afeta o estado de alguns objetos ou fenômenos (Y1,..., o Yk) – pelo menos algumas vezes – determinando por que razão os efeitos foram tão pequenos, ou grandes, como acabaram por ser.

Baker (2000)

A intenção [...] é determinar mais amplamente se o programa teve os efeitos desejados nos indivíduos, domicílios e instituições e se aqueles efeitos podem ser atribuídos à intervenção do

programa. Avaliações de impacto também podem explorar

consequências não previstas, positivas ou negativas, nos beneficiários.

Roche (2002) É a análise sistemática das mudanças duradouras ou significativas – positivas ou negativas, planejadas ou não – nas vidas das pessoas e ocasionadas por determinada ação ou série de ações. Bickman (2005)

É uma avaliação focada nos resultados ou impactos de um programa, política, organização ou tecnologia. Avaliações de impacto tipicamente tentam fazer inferências causais que conecta o avaliado com o resultado. [...] Avaliação de impacto também é referenciada como resultado, impacto ou avaliação somativa. Organização para a Cooperação e o

Desenvolvimento Econômico OCDE (2008)

Impacto são os efeitos de longo-prazo, positivos e negativos, primários ou secundários, produzidos por uma intervenção para o desenvolvimento, direta ou indiretamente, intencional ou involuntariamente.

72 Neste trabalho, o modelo adotado será aquele exposto por Roche (2002, p. 38). Daí por que os efeitos a serem esperados a partir da intervenção do AGROAMIGO, objeto de averiguação nesta pesquisa, podem ser vistos na Figura 4:

Figura 4 – O Ponto de Vista Ortodoxo do Enfoque da Avaliação de Impacto

Fonte: Elaborado pelo autor.

Um alerta fundamental e oportuno nesse contexto é assinalado por Roche (2002), ao discorrer que:

Repercussão no Agroamigo

Modelo de Roche

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A mudança significativa e duradoura nas vidas das pessoas deve levar em conta seus valores, prioridades e julgamentos; os projetos não podem ser julgados como tendo sido um ‘sucesso’ ou ‘fracasso’ se as percepções daqueles que a intervenção pretende beneficiar divergem (sic) drasticamente daquelas do pessoal encarregado dos funcionários do projeto ou de um avaliador externo. [...] Valorizar a sabedoria e o julgamento das pessoas comuns é, portanto, um elemento crítico de qualquer processo de avaliação de impacto. (ROCHE, 2002, p. 46).

Evidentemente que isso se torna um desafio a considerar, mas pode ser superado ao se estabelecer um foco para o que se quer, concentrando a interpretação dos fatos e achados nessa mesma direção.

Também não podem passar despercebidos os problemas de agregação e atribuição no âmbito da avaliação de impacto, destacando, porém, o último deles, já que todo mundo quer ser o pai da boa ideia. O primeiro guarda consonância com a dificuldade de sintetizar ou por em sumário o que se está realizando, a fim de lhe dar um significado, em termos de informações e relatórios, por exemplo. Em relação ao segundo, o óbice se encontra em determinar a causalidade, pois muitos fatores podem influenciar uma mudança observada, ainda mais quando não se podem isolar determinadas variáveis como ocorre nos estudos experimentais de laboratório.

Hulme (1997 apud ROCHE, 2002, p. 51) comenta que no exterior do laboratório, especialmente quando se está diante de um trabalho de desenvolvimento social, não é conveniente e nem comumente possível, a dependência pontual desse modo de observação científica, devido a motivações éticas e metodológicas, em que:

. É geralmente impossível encontrar um grupo de controle similar ao grupo de pessoas que se beneficiam de uma intervenção, que estão sujeitas a exatamente as mesmas influências, exceto quanto ao aporte específico da agência, e cuja situação espelha aquela do grupo beneficiário no decorrer de determinado projeto;

. Reter o apoio de um grupo de controle para que ele permaneça “não contaminado” não é apenas difícil (talvez seja preciso ter que persuadir outras agências a não apoiá-los, mas é na maior parte dos casos antiético e pode transgredir seus direitos humanos);

. Determinada intervenção não ocorrer de forma isolada de outras organizações, a partir do contexto local, das políticas econômicas e políticas mais abrangentes e, de modo mais importante, das ações e reações daqueles a quem se pretende apoiar. Ela interagirá com estas de diferentes maneiras em diversos locais. Identificar o que

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causou um impacto nesta situação de algum modo científico é provavelmente muito difícil e geralmente muito dispendioso.

O tratamento dessas ponderações será explicitado no item sobre metodologia, especificamente em termos do processo de coleta de dados.

Uma vez estabelecida a ligação entre “Impacto” e “Qualidade de Vida”, retoma-se os esforços acerca do significado deste último termo aproveitando o trabalho científico de Sacomano (2010), envolvendo o tema da Responsabilidade Social, quando faz um resgate do percurso seguido pelos estudiosos para a compreensão do que ele representa, vide Quadro 10:

Quadro 10 – Referências Históricas sobre Qualidade de Vida

Natureza da Referência Autor e∕ou Registro no Tempo

A primeira semente de que se tem notícia sobre o termo “Qualidade de Vida” foi plantada no livro “The Economics of Welfare”, porém a expressão não foi

devidamente valorizada. Paschoal (2002) Incorpora-se o conceito de bem-estar ao de Saúde, gerando polêmica sobre se

era possível ou não avaliar o grau de bem-estar físico, emocional e social.

Organização Mundial de Saúde-OMS (Final da Segunda Guerra Mundial, em meados dos anos 1940) A expressão “Qualidade de Vida” é usada pelo presidente dos Estados Unidos,

Lyndon Johnson, em 1964, ganhando maior relevância e repercussão. Fleck et al (1999) Grupos científicos propalam o tema “Qualidade de Vida” em discursos na

esfera científica e política, como decorrência da preocupação das Nações Unidas em medir o grau de vida das muitas comunidades espalhadas pelo mundo.

Meados dos anos 1960 Os valores ambientais e humanos são descritos pela “Qualidade de Vida”, e

nesse conjunto são postos à margem pelas sociedades industriais que tem como prioridade os avanços tecnológicos e a busca da produtividade.

Rodrigues (1994) A “Qualidade de Vida” é vista como um tema amplo, podendo qualquer opinião

ser considerada correta, pois que trazem uma verdade sobre ela, embora não a abarque por completo.

Daminelli (2000) O termo “Qualidade de Vida” fica ao crivo da sensibilidade de cada observador,

de sua cultura, seus meios econômicos e também dependente das frustrações. Moreira (2001) A “Qualidade de Vida” é interpretada como o viver no bom sentido e de

resultado compensatório em pelo menos quatro vertentes: social, afetiva,

profissional e a saúde. Lipp(2001) Felicidade e bem-estar são sinônimos de “Qualidade de Vida”. Cloninger (2004) As condições materiais e imateriais almejadas pelos indivíduos e comunidades

são vinculadas à “Qualidade de Vida”. Há um olhar para aspectos sociais e econômicos que proporcionam ou não que as oportunidades sejam mantidas. Percebido que as pessoas possuem anseios diferenciados, a depender da idade e do modo de vida.

Gonçalves e Vilarta (2005) Fonte: Elaborado pelo autor com base em Sacomano, 2010.

75 Herculano (2000 apud GUERRA, 2008) realiza crítica sobre os diferentes aspectos que poderiam caracterizar o conceito de “Qualidade de Vida”:

[...] A questão do entendimento sobre o que é qualidade de vida pode ser vista como desnecessária, não por ser desimportante ou pouco palpável, mas pela sua obviedade. Algo que ninguém saberia definir, mas que parodiando a referência da poeta Cecília Meirelles à liberdade, todos entendem o que é. Talvez por isto a ênfase dos estudos sobre qualidade de vida enfoque predominantemente a sua mensuração, ficando embutido na escolha sobre o que mensurar os pressupostos do que se entende venha a compor qualidade de vida (HERCULANO, 2000 apud GUERRA, 2008, p.56)

Com fundamento na ideia desse autor, Guerra (2008), pontua dois aspectos acerca de como a qualidade de vida pode ser avaliada:

1) Avaliando e mensurando os recursos disponíveis que permitem a sociedade, ou determinados grupos dela, satisfazer suas necessidades. Por exemplo, é possível analisar as condições de saúde baseada no número de leitos e médicos disponíveis, as condições de educação pela quantidade de escolas, professores, livros publicados e níveis de escolaridade atingidos, as condições ambientais pela potabilidade da água, da emissão aérea de poluentes, pelo número de domicílios com acesso a água encanada e esgotamento sanitário, pela dimensão per capita de área verde.

2) Avaliar a qualidade de vida através das necessidades, mensurando a mesma pela distancia entre o que se deseja e o que se alcança. Neste caso há que se considerar que a definição de qualidade de vida irá oscilar em função das diferenças individuais, sociais e culturais (GUERRA, 2008, p. 56-57).

Analogamente, o primeiro dos aspectos acima se sintoniza com a objetividade preconizada pela observação sobre qualidade de vida de Guerreiros e Hayos (apud AGUIAR 2003), diante da possibilidade de serem criados indicadores relacionados à carência humana (mortalidade infantil, deficiência alimentar etc). Já o segundo, tem ligação com a subjetividade definida nessa mesma abordagem, podendo esta ser traduzida pela percepção psíquica que os indivíduos detêm acerca de qualidade de vida, oscilando de pessoa para pessoa, como dependência de variáveis como nível educacional, faixa social a qual pertence, valores de sua personalidade, cultura etc.

Conclui-se, assim, que ainda não há uma posição consensual sobre o conceito de “Qualidade de Vida”.

76 Nada obstante, é aceita a existência de três características que influenciam a compreensão desse termo, a saber: multidimensionalidade; subjetividade e vertentes positivas e negativas, conforme defende Fleck et al.(apud SACOMANO, 2010).

Por hora não é objetivo aqui perpassar por um aprofundamento desses aspectos. Mas aproveitando a flexibilidade do que significam ou possam transparecer com base na carga de definições ou referências sobre “Qualidade de Vida”, é possível evidenciar que, em termos teóricos ou práticos, existe a preocupação no sentido de que as pessoas precisam de uma plataforma mínima para viver e da sociedade participar dignamente.

Uma das referências é a “Hierarquia das Necessidades”, desenvolvida por Maslow (1987).

Por intermédio da figura de uma pirâmide ele mostra que o topo, onde se encontram as necessidades de auto-realização, só pode ser alcançado quando satisfeitas as dimensões anteriores, a partir da base, onde estão aquelas consideradas prementes e de grau mais baixo (CHIAVENATTO, 2011, p. 307-309).

Maslow, em sua teoria, definiu que as necessidades se apresentam hierarquicamente em 05 níveis, conforme figura 5 e descrição seguinte:

Figura 5 – Pirâmide de Maslow

77 1) Necessidades Fisiológicas ou Básicas

Água, alimentação, abrigo, excreção, repouso, sexo,; 2) Necessidades de Segurança

Segurança do corpo, emprego, de recursos, da saúde, da moralidade, da família, da propriedade, da integridade da vida;

3) Necessidades Sociais

Afeto, amizade, independência, participação, socialização; 4) Necessidade de Auto-Estima

Aprovação social, confiança, conquista, prestígio e consideração, respeito alheio; 5) Necessidade de Auto-Realização

Ausência de preconceito, criatividade, espontaneidade, solução de problemas.

Discorrendo sobre o que essas necessidades podem significar, Chiavenato (2009) assevera que:

O ser humano é um animal social dotado de necessidades: cada pessoa se caracteriza por necessidades tipicamente humanas que a conduzem a certos tipos de comportamentos com o propósito de satisfazê-las. [...] o comportamento humano é orientado para objetivos: os objetivos individuais são complexos e mutáveis (CHIAVENATO, 2009, p. 173).

As palavras de Chiavenato (2009) também soam como advertência para que não seja atribuído um hermetismo à compreensão dessa escala de carências humanas, pois, ao envolver o fator subjetividade, o radicalismo perde força em face da percepção presente em cada um e a faculdade que o homem tem de agir, neste contexto, segundo a sua vontade.

Por fim, não seria presunção afirmar que teorias como a de Maslow (1987) influenciam formadores de opinião e políticos bem intencionados, os quais, visando uma convivência social mais saudável, trabalham para converter tais ideias em instrumentos legais. Isso no intuito de tentar suprir minimamente algumas necessidades, a exemplo da segurança, da educação e da saúde. Pois bem, em se tratando do Brasil, as citadas estão entre as que o

78 Estado deve fundamentalmente garantir, abrindo uma importante veia de ação para que políticas públicas e práticas sociais, principalmente usando a estrutura governamental ou com a colaboração de parceiros, possam ser desencadeadas na busca da melhor qualidade de vida em favor dos seus cidadãos (BRASIL, 1988).

Apresentada a fundamentação teórica passa-se, na sequência, a discorrer acerca dos elementos da metodologia da pesquisa.

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Benzer Belgeler