• Sonuç bulunamadı

Essa tese, em resumo, é o que conseguimos captar do exercício da benzedura das mulheres negras de Rio de Contas. Nesta localidade crianças e adultos continuam sendo visitadas pela cura através das mãos dessas mulheres portadoras da vida, portadoras da única chama da esperança que nunca deixou de fumegar restabelecendo o equilíbrio dos corpos. Essas mulheres em seu silêncio dizem-nos que a religiosidade popular é algo muito forte e que pode parecer apagada num certo período, mas que funciona como brasas sob cinzas em outro. As palavras das benzedeiras são repletas de vida e de poder. Seus gestos certeiros e sequenciais são carregados da força curadora e renovadora.

O primeiro capítulo do trabalho tem como objetivo abordar aspectos naturais, humanos e religiosos da cidade de Rio de Contas para nos situar na realidade em que estão fixados os sujeitos pesquisados de nosso trabalho. A história da cidade de Rio de Contas servirá como que um pano de fundo, ou ainda um cenário que envolverá a vida e obra das mulheres negras benzedeiras dessa cidade. É pertinente ressaltar ainda, que nesse capítulo nos fundamentaremos em dados históricos fornecidos por Maria de Lourdes Pinto Arakawa, com sua obra intitulada “As Minas do Rio de Contas”, publicado em 2006. Iremos nos valer ainda das pesquisas realizadas junto ao Arquivo Público Municipal de onde retiramos informações preciosas com o auxílio das funcionárias que lá trabalham e que prontamente nos cederam os dados procurados.

Segundo Arakawa (2006), Rio de Contas é uma cidade tranqüila e pacata desde sua fundação até os dias atuais. O povo tem um andar preguiçoso a qualquer hora do dia, fazendo-o sem pressa e sem medo de nada. Na cidade todos se conhecem e se tratam cordialmente. As crianças ainda podem brincar

despreocupadas com a violência. As pessoas são sempre acolhedoras, tendo as portas de suas casas escancaradas, dispostas a receber as pessoas que muitas vezes adentram sem se anunciar indo parar direto na cozinha, próximas do fogão a lenha.

Essas e outras características serão abordadas nesse capítulo, onde faremos também um recorte sobre a presença dos quilombos no município de Rio de Contas e a presença marcante de uma negra comunista, Maria Brandão, que orgulha os riocontenses por sua personalidade determinada. Entretanto, sente-se claramente, numa visita à sede da cidade que o racismo ainda é presente quando as terras dos negros foram “negociadas” à força para a criação de uma barragem e ainda pelo local onde residem as famílias afro- brasileiras, na periferia.

O segundo capítulo da pesquisa se ocupará de mostrar as mulheres negras da montanha de Rio de Contas e sua resistência social. Esse enfoque se dará por meio da apresentação da presença da mulher negra no contexto sócio-cultural brasileiro. Porém, a mulher negra não se situa num espaço vazio e sem referências com outros contextos. Aquilo que a mulher negra é na realidade está vinculado ao outro lado do Atlântico, à África. A mulher negra que conhecemos é uma realidade nova, fruto da diáspora negra, mas não desvinculado de suas antepassadas. Por esse motivo, enfocaremos nesse capítulo a presença da mulher negra no seu uso do seu poder que perpassa todas as instâncias sociais e que são repletas de sentido transcendental. Daí percebermos que é possível conceder às mulheres negras benzedeiras de Rio de Contas algumas prerrogativas presentes nas mulheres africanas, tais como: poder de resistência, uso da energia espiritual (o axé) para a cura e sua presença nas múltiplas funções sociais. E como referência teórica para esse capítulo apoiamo-nos em obras de autores como: Pinsky e Pedro (2003); Bernardo (1997; 2003); Del Priore, (2000; 2003; 2007); Bastide (1971); Ferkiss (1967); Schumaher e Brazil (2000; 2003); Morin (1988); Lopes (2005); Dubois (1986); Gilroy (2001); Augras (2008); Oduyoye (1989); Brandão (1986); Prandi (2001); Durkheim (1989); Bernardo (1997; 2003); Badinter (1985); Lody (1987), e textos de outros autores.

Se às mulheres foi dado socialmente o cuidado como característica do feminino, elas souberam aproveitar muito bem dessa qualidade a seu favor.

Existe como que uma cadeia de aprendizado para o cuidado entre as mulheres. A mãe aprendeu com a avó o que passará à sua filha e assim por diante ininterruptamente. E o foco desse cuidado, é, na maioria das vezes, um homem: o ai, o marido, o filho, o neto, o patrão, o doente, o abandonado... O terceiro e último capítulo tem como objetivo indicar o conjunto de reflexões teóricas e a exposição prática sobre a benzedura através da apresentação do resultado das entrevistas realizadas para essa pesquisa. Falaremos sobre: a religiosidade popular como a instância que carrega em seu interior, entre outros aspectos, a benzedura; a relação histórica da Igreja Católica com as mulheres consideradas bruxas por causa de sua atuação popular e eficaz junto às massas; o poder da palavra que age na cura demonstrando sua eficácia através da fala das benzedeiras e das pessoas que experimentaram a ação de suas palavras e um questionamento de como articular o saber popular das benzedeiras com a medicina institucional criando uma prática que favoreça políticas públicas de saúde em benefício da população. Todas essas referências procuram reunir uma reflexão sobre a atuação das mulheres negras benzedeiras de Rio de Contas no uso do poder da palavra como manifestação da memória viva de suas antepassadas. Os textos que nortearão nossa reflexão são das autorias de: Turner (1974); Hampatê Bâ (2010); Bernardo (1998); Halbwachs (1935; 1990); Maluf (1993); Lévi-Strauss (1996); Vansina (2010); Bourdieu (2001; 2007); Mauss (2000); Zaluar (1983); Quintana (1999); Lévi-Strauss (2003); Brandão (1977; 1981; 1988; 1991; 1998); Kramer e Sprenger (1991); Hoornaert (1972); Berger e Luckmann (2010); Evans – Pritchard (2005), entre outros.

Frente ao quadro sugerido pela disposição dos capítulos dessa pesquisa, é possível pensar que o processo de benzeção se dá a partir da assimilação daquilo que oralmente foi transmitido pelos antepassados – no caso das benzedeiras de Rio de Contas coisas passadas pelas mães, tias e avós. Na relação com o passado as palavras e gestos da benzeção adquirem vida. A oralidade é atualizada na memória e como memória. Isto é, o que foi aprendido e assimilado agora faz parte das ‘lembranças sagradas’ e é atualizado na prática da benzeção.

II. Capítulo 1 – Rio de Contas: cidade dos vínculos invisíveis e

Benzer Belgeler