Para se conseguir bom êxito naquilo que nos propomos a realizar enquanto pesquisa, seguimos uma metodologia. A técnica adotada para este trabalho foi a pesquisa qualitativa5 por reunir em si algumas características que nos ajudaram na presente pesquisa. Para Günther (2006) as bases teóricas dessa pesquisa estão construídas sobre as seguintes constatações: (i). a realidade social é vista como uma construção com atribuições de significados; (ii). existe uma ênfase no caráter processual e na reflexão; (iii). as condições ‘objetivas’ de vida tornam-se relevantes por meio de significados subjetivos; (iv). é possível refazer o processo de construção das realidades sociais partindo do caráter comunicativo das mesmas tornando-as ponto de partida da pesquisa.
Realizamos entrevistas com alguns grupos específicos: (i). As Benzedeiras.
(ii). A Clientela das benzedeiras.
5. “... A questão não é colocar a pesquisa qualitativa versus a pesquisa quantitativa, não é
decidir-se pela pesquisa qualitativa ou pela pesquisa quantitativa. A questão tem implicações de natureza prática, empírica e técnica. Considerando os recursos materiais , temporais e pessoais disponíveis para lidar com uma determinada pergunta cientifica, coloca-se para o pesquisador e para a sua equipe a tarefa de encontrar e usar a abordagem teórico- metodológica que permita, num mínimo de tempo, chegar a um resultado que melhor contribua para a compreensão do fenômeno e para o avanço do bem estar social” (Günther, 2006, p. 210).
(iii). As Jovens mulheres adolescentes que estão em idade para o aprendizado da prática da benzedura.
(iv). A Secretária de Saúde do Município.
As entrevistas assumem uma espécie de classificação na importância dos atores sociais para a pesquisa. O que equivale afirmar que existe uma
hierarquia de credibilidade das pessoas fornecedoras de informações ao
pesquisador. Na nossa pesquisa isto é claro quando colocamos em primeiro lugar, para serem entrevistadas, as benzedeiras com suas declarações. Neste caso, para Goldenberg (2009, p. 47 – 48), “em geral, são entrevistados [numa ordem hierárquica] aqueles que estão nos níveis superiores de uma organização, que parecem ‘saber mais’ sobre o problema estudado, do que aqueles que estão nos níveis inferiores.”
As falas das entrevistas revelaram-nos a importância dos relatos orais. Segundo Pereira (1991) e Queiroz (1987), tal importância se encontra na possibilidade de se obter generalizações com o conhecimento da realidade pesquisada através das entrevistas. Essa maneira de se realizar pesquisa é algo possível uma vez que se coletam os depoimentos em um número suficientemente grande, conseguindo desse modo o que se costuma denominar de saturação. Isto é, a percepção do momento em que os relatos respondendo às entrevistas começam a se repetir. Sendo assim, não existe uma fórmula que estipule o número adequado de pessoas a serem entrevistadas. A “senha” para a conclusão do número exato de pessoas entrevistadas poderá ser o momento em que as respostas começam a se repetir. É claro que esse procedimento dependerá do assunto em questão para ser pesquisado, do contexto estudado e do próprio objetivo de abrangência da pesquisa. Caberá ao pesquisador ter sensibilidade suficiente para observar quando os relatos orais começarem a repetir e já são passíveis de serem considerados generalizáveis. Na nossa pesquisa agimos dessa forma: as entrevistas com as benzedeiras, em número de dez; a entrevista com as jovens que poderiam optar pela benzedura, em número de quinze e a entrevista com as pessoas que freqüentam ou já freqüentaram a benzedura, em número de dez, foram realizadas nesse contexto de saturação.
O que nós não contávamos era com o silêncio das benzedeiras. Mas, ele é revelador para a nossa pesquisa, pois nos indicou uma tomada de atitude
que não estava prevista. Por causa desse silêncio imprevisto, tivemos de retornar à comunidade de Rio de Contas e recontactar com as benzedeiras para explorarmos itens específicos como, por exemplo, o conteúdo das orações referentes a cada espécie de doença. Mesmo assim, não obtivemos a fala de todas as benzedeiras que se mostraram reticentes no que falavam. Ao mostrarmos o que não apareceu na pesquisa como desejávamos, ainda estamos nos valendo da técnica qualitativa, pois segundo Goldenberg (2009) a mesma possibilita explicitar os resultados “negativos” e demonstrar as dificuldades e os (des) caminhos percorridos pela pesquisa até chegar aos resultados finais da mesma. Em geral, os pesquisadores ‘escondem’ as suas dificuldades em seus relatórios de pesquisa, preferindo mostrar apenas ‘o que deu certo’.
O silêncio, por sua vez, tem que ser interpretado. Tivemos que ler nas entrelinhas. Tivemos que descobrir o que as mulheres negras queriam nos dizer com seu silêncio. Tivemos que fazer uma descoberta que não estava no programa. Após esse susto, nos tranqüilizamos e aproveitamos o silêncio para discursarmos sobre o mesmo. Para aprendermos com o mesmo. Descobrimos a literatura que nos ajudou a trabalhar com essa questão um pouco embaraçosa para quem gosta de falar e deduz que todos têm o mesmo comportamento. Nossos planos eram outros. E resultaram numa descoberta maravilhosa. Claro que, a princípio, não foi esse sucesso esperado. Pensamos que o feitiço tivesse virado contra o feiticeiro, literalmente. Mas depois percebemos que precisávamos mudar de rota e deixar que as benzedeiras negras de Rio de Contas fossem sujeitos de nosso trabalho e não meros objetos. Foi aí que aprendemos a nos curvar diante do cotidiano de mulheres que têm os seus segredos e que não nos querem revelar nada. Querem continuar guardando-os. Isso é maravilhoso. Dá um ar de cumplicidade e continuidade sagrada.
O silêncio das entrevistas pode ser entendido como o não-dito que possui sua linguagem especifica. Pelo ‘não-dito’ das benzedeiras negras de Rio de Contas encontra-se um fio condutor que nos adverte sobre a importância de encontrar a ‘palavra’ certa para a ‘coisa’ que não se falou. Entretanto, com Olievenstein (1989) descobrimos que dizer o não dito é encontrar a palavra certa para aquilo que se deseja falar. Pode-se afirmar que o não-dito é o
discurso audível no lugar daquele que se deve calar, o solilóquio íntimo que cada um de nós experimenta cotidianamente e graças ao qual se impõe sobre as outras pessoas – no caso das benzedeiras negras de Rio de Contas – com a autoridade que lhe é atribuída a partir do exercício da benzedura. O não-dito, segundo Olievenstein (1989, p. 7) é,
aquilo que emerge e é inconscientemente censurado [proibido pela transmissão da ritualização] como inconveniente, inaceitável, ou aceitável somente no contexto limitado, no tempo e no espaço, de uma ritualização, onde tudo é provisoriamente permitido [...] O não dito é o que vem ao imaginário do sujeito de tal maneira que ele sabe que o imaginário do outro sabe, mas que a lei do outro não pode aceitar saber abertamente.
O silêncio nas falas das benzedeiras negras de Rio de Contas deixou de ser um problema para a nossa pesquisa, pois com ele descobrimos que aquilo ‘confessado’ pelas mulheres entrevistadas era o que poderia ser revelado. Aquilo que foi declarado abertamente pode ser entendido como o conteúdo que poderia ser revelado sem censura pela tradição. Como o entrevistador era padre há a possibilidade do medo ou da vergonha de se estar falando sobre algo considerado ‘errado’ ou, na mentalidade popular, próximo à bruxaria. E, portanto, pecaminoso. A presença do padre como entrevistador, provavelmente, censurou a fala das mulheres negras benzedeiras. Quando perguntadas sobre as palavras ditas nas rezas, todas diminuíram o ritmo da fala, olhavam para o chão - como eu procurando o que dizer – e num rápido silêncio respondiam superficialmente ao solicitado, riam e mudavam de assunto ou ainda diziam que era coisa simples o que rezavam enquanto benziam. Achamos que o não-dito era pra ficar guardado sendo transmitido somente às pessoas com a tarefa de continuar a rezação especifica. Parece que essas mulheres negras benzedeiras tinham um ‘contrato’ de não passarem para qualquer pessoa o que sabiam. Na verdade, acredita-se que o não-dito alimenta-se do presente e do passado ancestral. Ou seja, no caso das benzedeiras negras de Rio de Contas, é o presente de cada realidade social quem determina se uma oração será ‘declarada’ ou ficará guardada sob o silêncio da montanha.