O resultado obtido a partir de cuidados dispensados às pessoas não pode ser medido simplesmente pelo que aparenta lhes ter sido propiciado, pois há que considerar o registro que o sujeito beneficiário teve da experiência de receber. Precisamos avaliar o quanto a transação que assim se estabelece está sendo útil, eficaz, em termos de determinadas funções sociais. Ao exame dos dados, constatamos que a qualidade da relação que o usuário estabelece com o equipamento e seus profissionais é fundamental, e determina em grande parte o curso de todo o atendimento e, certamente o grau de adesão aos serviços oferecidos. Ou seja, é fundamental que os equipamentos cooperem com os cuidadores de seus familiares em sua persistência na busca de garantir uma vida mais digna para futuras gerações.
A representação social dos hospitais-escola vinculados a Universidades de prestígio, como é o caso do Projeto Quixote, contribui significativamente na leitura que os usuários dos serviços ali prestados fazem de sua qualidade, havendo tendência a vê- los de forma positiva, legitimando-os como referência para a disseminação do conhecimento que produzem e dos cuidados que prestam. Em tese, esta leitura significa que a qualidade de prestação de cuidados nesse equipamentos é, em geral, de nível aceitável, e nos demais, a situação pode ser até mesmo pior.
Além dessa propensão inicial à aceitação, a concepção e o funcionamento do equipamento, construídos em sua prática cotidiana, podem contribuir para reforçar, ou enfraquecer, representações sociais sobre o lugar a ser destinado, na vida das pessoas, a todas as práticas sociais – inclusive a assistência disponibilizada pelos profissionais - em cada época, contexto e cultura.
Isto tende a valorizar, como condição de aprovação dos serviços, a necessidade de uma relação adequada entre as necessidades e as demandas dos usuários e a prontidão do atendimento oferecido. Em sua organização, está, portanto, a exigência de profissionais disponíveis durante todo o tempo exigido, impedindo a abstinência ao trabalho e reduzindo os períodos de ausência apenas a situações em que não possam ser evitados. Além destas condições, certamente as ausências não serão prolongadas e preservarão, em todas as circunstâncias, a comunicação sobre o restabelecimento dos serviços, desta maneira reforçados em seu valor.
Esperamos que os resultados que o Projeto busca alcançar junto aos familiares propicie a melhoria do atendimento às populações usuárias de nossos serviços e de outros semelhantes, de acordo com o significado que tais serviços têm no universo das pessoas atingidas e, conseqüentemente, no nosso.
Entendendo que a família está sempre atuante no sistema de proteção social é fundamental que lhe sejam propiciadas condições para cumprir adequadamente com suas responsabilidades relativas à reprodução social. Decorre disto a consciência de que qualquer intervenção só tem sentido se integrada às demais, reconhecendo-se os limites econômicos e sociais que se acham envolvidos. A integração deve ser garantida, também, no conjunto das formas de atendimento estabelecidas pela equipe de trabalho para cada família em particular. Divergências e conflitos dentro da equipe de trabalho devem assim ser tratados de maneira que não só não afetem negativamente a assistência prestada, mas contribuam para o aperfeiçoamento constante dos profissionais e suas formas de intervenção, motivando o eqüacionamento contínuo das questões referentes às condições de trabalho.
A exaltação e a importância do acolhimento, fato realçado pelos usuários, mostra a necessidade de que ele seja difundido como direito nos programas que lidam com o público. Com este objetivo, tal acolhimento deve ser cuidadosamente ponderado e analisado em futuros estudos que busquem seu significado, para que surjam e sejam expandidos os elementos que contribuem para sua existência, aprofundando-se o conhecimento de suas dimensões.
Considerando-se a situação econômico-social das famílias, revelada pela construção de seu perfil, é imprescindível provê-las de substanciais recursos, seja mediante auxílios financeiros, ou pela oportunidade de acesso a serviços sociais voltados para a atenção à variada demanda de todos o seus membros.
O aprisionamento dos indivíduos ao círculo familiar, atribuindo a essa esfera toda a responsabilidade de manter-se com aquilo que os baixos salários, condições de moradia e saúde instáveis, aliados ao reduzido suporte que lhe podem proporcionar as alternativas escassas oferecidas pelos diversos equipamentos da rede social formal, torna assunto da esfera privada o que é antes uma questão coletiva, de toda a sociedade.
Processa-se, deste modo, a privatização, hoje crescente, das manifestações da questão social.
Para que a responsabilidade pelos cuidados seja coletiva, há necessidade de que, na construção das políticas sociais, o poder público seja o primeiro agenciador, sendo a família e a comunidade em geral seus parceiros. A viabilização dos direitos sociais exige a garantia da intervenção do Estado, não decorrendo unicamente dos esforços particulares de cada família em luta extremada pela sobrevivência, mediante sua constante mobilidade pelo espaço do país e da cidade, sua longa procura de soluções pelo apelo à rede de serviços e aos parentes e amigos, e sobretudo nas obstinadas tentativas de elaboração e de efetivação de medidas direcionadas à solução das questões que afetam primordialmente seus membros em situação considerada de “risco”. O estudo feito, e a experiência de atendimento do Projeto, permitem constatar, e sentir, que, mantidas as condições atuais, dificilmente se poderá alcançar algum patamar de eqüidade na sociedade em que vivemos. Não é preciso esperar a falência do mercado, e da própria família, para o Estado intervir, desejável é fazê-lo de forma preventiva, para romper com as formas compensatórias e assistencialistas.
Dentro de sua experiência e alcance enquanto organização presente no campo, o Projeto pode constituir-se, de forma articulada à prestação de serviços diretos à população que o procura, em instância aglutinadora das “queixas” individuais numa reivindicação coletiva por mais serviços (e de qualidade desde a base). É um desafio que se impõe na direção da prestação de serviços vinculados com as demandas da época.
É mesmo uma exigência para avaliação do impacto provável do seu trabalho, e para ampliação e aperfeiçoamento de metodologias e procedimentos adotados.
Na verdade, qual a estrutura e o alcance da assistência e serviços oferecidos pelos equipamentos sociais que permitam que o responsável pela família possa se dedicar aos cuidados dos filhos e da sua subsistência sem deixar a desejar?
O significado da assistência oferecida pelo Projeto Quixote, na ótica dos sujeitos entrevistados, é de que atenda suas demandas, necessidades e até expectativas, com dignidade e qualidade. Isto deve ocorrer em acordo com as condições materiais e culturais presentes, dependendo dos valores atribuídos pelo indivíduo conforme sua necessidade, buscando sobretudo proporcionar a melhor resposta possível, no estágio
da arte atingido, tendo em vista o grau de desenvolvimento da tecnologia, em suma, disponibilizando o que a civilização humana já conseguiu, para tornar a vida mais fácil, satisfazendo as pessoas e seu desejos.
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