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III. BÖLÜM 1.TEKRAR SANATLARI 1.TEKRAR SANATLARI

III.1.2.2. Uyak-Kafiye

O século XXI começa turbulento, com o atentado às Torres Gêmeas, nos EUA, com o terrorismo frenético disseminado em muitas partes do mundo, com a violência contra as mulheres e as crianças, com a discriminação racial, religiosa e social, tudo isso visto e vivenciado no momento preciso em que está acontecendo, pois a globalização permite, através da internet, a experiência imediata dos eventos que ocorrem longe ou perto dos que a eles assistem.

A banalidade do mal, proferida pela filósofa Hannah Arendt, aumenta e não só o mal assim como a violência se banaliza muito mais; sobretudo a violência cresce e muda de patamar, deixando de ser apenas física, passando a ser subjetiva e simbólica. Os campos de concentração, de aniquilação e de extermínio passam a ser o espaço urbano, representados pelas ruas das grandes metrópoles e a população que vive esse extermínio é a mesma que convive com a precariedade, aquela que não possui bens materiais e que também acaba perdendo a sua dignidade enquanto ser humano, que não vale nada, a não ser como mão de obra barata, usada de qualquer maneira e descartada a qualquer momento quando não cumpre mais seu papel de servir. Frente a esse quadro e momento, aos quais muitos autores não ficam alheios e passam a usar o seu fazer literário para mostrar sua indignação à sociedade, colocando-se diante desses acontecimentos, sem o uso de nenhuma máscara, perante esse panorama e tocado por questões polêmicas, Roberto Bolaño escreve, em 2004, seu romance 2666, publicado depois de sua morte.

Esse estudo surge a partir da inquietação e do estranhamento deixados nas linhas escritas por Bolaño, principalmente os causados pelos temas abordados e narrados no capítulo já citado. Como dito anteriormente, para construir sua estrutura, Bolaño dispôs de alguns recursos e entre eles estavam os que serão apresentados. À estratégia do autor se junta esta análise que partirá de uma tentativa de pensar alguns dos temas tratados por ele, sob o ponto de vista de narrativas interrompidas. Como seria essa forma de pensar e apresentar as questões que aparecem no texto de Bolaño? Partir-se-á do entendimento da palavra ―interrompida‖, oriunda do verbo interromper e que aqui se vestirá com alguns significados, entre eles descontinuidade; pausa; não permissão ao funcionamento, à utilização ou ao acesso; impedimento ou proibição para realização de algo; interdizer, interditar; paralisar; suspender; deixar sem ação; tornar-se nulo; eliminar; neutralizar; inutilizar; anular; destruir e desarticular o que estava aparentemente controlado.

Interromper também notada com o sentido de suspender a ação, quebrar a continuidade de uma conversa, de um discurso, de uma cena, de um tema; de uma finalização aparente que pode ser retomada a qualquer momento; um desvio, um intervalo narrativo que, ao mesmo tempo, que é interrompido se une com o restante da trama, informando ao leitor a existência de uma ordem dentro da desordem. A interrupção, no caso desse capítulo, aparece como se fosse uma experiência cinematográfica (o instantâneo do recorte, cenas curtas e interrompidas, que se deslocam e são retomadas e montadas para compor a narrativa fílmica final) e com a função de conceder a oportunidade de direcionar o foco para trajetórias anteriores dentro do texto, além de criar um espaço para ampliá-lo, levando a outro território temático, portanto expandindo a trama e o olhar, permitindo ao leitor que construa a narrativa em conjunto com o autor. O termo interrompido ainda pode se unir aos termos: fragmentado, digressivo e paralelo com a finalidade de compor um gênero que consiga narrar as questões relativas ao homem, à literatura, à cultura, à sociedade, à falência e o enredamento do mundo.

Não existe uma colocação neutra por parte de Bolaño, quando da construção de sua narrativa, as interrupções são feitas como um espelho da vida que é vivenciada, todos os dias, por aqueles que habitam em países periféricos, a crise é revelada como uma terapia de choque. Mesmo falando

sobre a crise financeira, as palavras de Žižek ajudam a compor o pensamento de interrupção quando diz:

A crise financeira seria um momento de sobriedade, o despertar de um sonho? Tudo depende de como ela será simbolizada, de qual interpretação ou história ideológica se imporá e determinará a percepção geral da crise. Quando o curso das coisas é interrompido de forma traumática, abre-se campo para uma competição ideológica ―discursiva‖ – como aconteceu, por exemplo, na Alemanha no inicio da década de 1930, quando, invocando a conspiração judaica, Hitler triunfou na competição de qual narrativa melhor explicava as causas da crise da República de Weimar e oferecia a melhor narrativa para escapar da crise. (ŽIŽEK, 2011, p.27)

Consequentemente, analisar o capítulo a partir da interrupção, dá margem não só para pensar que Bolaño propõe outra variante do gênero policial, como para dizer onde cabem as reflexões sobre os acontecimentos atuais e que o caminho de saída da crise, nesses países periféricos, pode estar muito mais próximo da ideologia ―discursiva‖ de Hitler do que se possa imaginar.

Há uma falha no sistema, a anomia está vigente, o perigo é iminente, o colapso está cada vez mais perto, principalmente nas camadas sociais mais pobres da sociedade. A narrativa predominante é a de crise, não só econômica, mas também social, política e legal, que da maneira que é conduzida pode adormecer os seres humanos e os levarem a pensar que o despertar incomoda e que devem continuar sonhando. Mas sonhando com o quê? O discurso é bem montado, o véu que encobre a visão daqueles que precisam enxergar é bem opaco, portanto o despertar fica cada vez mais difícil, mas não impossível. Daí a necessidade de narrativas que contribuam com esse despertar e com o renascer da humanidade para que ela esteja disposta a encarar a guerra contra o terror e não aceitar o que está sendo imposto pelo sistema.

Por viverem em um estado de constante anomia, os que fazem parte das sociedades dos países marginalizados, aceitam e levam como verdadeiro qualquer discurso que os deixem aparentemente melhor, financeira e socialmente, pois sabem que, em um Estado anômico, é muito difícil uma punição e, além de aceitarem os discursos, os reescrevem para si e divulgam para os que estão ao seu redor da maneira que mais lhes convêm. O micro, cada vez mais, repete as ações do sistema macro. Não havendo punição

macro, também não haverá sanção no micro. Diante desse pensamento ―equivocado‖ as sociedades adoecem e entram em um abismo, em um caminho sem volta, onde ganha quem tem mais poder, o fraco perde para o mais esperto do momento.

Nessas brechas, onde surgem os pequenos e grandes delitos, as ações de arruinar, matar, sonegar, corromper, iludir, explorar, violentar não são mais sentidas como perversas, passam a ser entendidas como permitidas e de algum modo, legais e a punição passa bem longe desse cenário.

O narrador de 2666 em La parte de los crímenes, faz que o leitor aterrisse e constate a podridão do mundo e sinta que a cidade de Santa Teresa é o espaço micro que reflete e contém o espaço macro, no caso a América Latina, quiçá o mundo como um todo. A finalidade de Bolaño parece evidente, a de mostrar que existe um horror humano que deve ser revelado, mas de um modo cifrado, dado como pista, como enigma, como acontece tal qual em um romance policial. E para levar a cabo sua finalidade, ele estrutura sua narrativa dentro da infrarrealidade policial, onde a linguagem passa a ser breve e, ainda que breve, seja capaz de dar conta de toda perversidade do mundo e das circunstâncias que rodeiam o crime, nesse caso o feminicídio. Nesta parte, toda brutalidade e crueldade são narradas com tantos detalhes e com tamanha frieza e precisão que provocam náuseas em quem lê o texto:

Cuando ya finalizaba marzo, el mismo día, fueron encontradas las dos últimas víctimas. La primera se llamaba Beverly Beltrán Hoyos. Tenía dieciséis años y trabajaba en una maquiladora del Parque Industrial General Sepúlveda. Su desaparición se produjo tres días antes del hallazgo del cadáver. [...] Su cuerpo fue encontrado por unos niños en unos baldíos al oeste del Parque Industrial General Sepúlveda, un lugar de difícil acceso en coche. El cadáver presentaba diversas heridas de arma en zona toráxica y abdominal. Había sido violada vaginal y analmente y luego vestida por sus asesinos, pues la ropa, la misma que llevaba cuando desapareció, no mostraba ni un solo desgarrón ni agujero o quemadura de bala. El caso lo llevó el judicial Lino Rivera, quien inició y agotó sus pesquisas interrogando a las compañeras de trabajo y tratando de encontrar a un novio inexistente. No se rastreó la zona del crimen ni nadie tomó moldes de las numerosas huellas que había en el lugar. (BOLAÑO, 2013, p. 631-632)

Com o intuito de denúncia, de envolver o leitor na trama, a ponto que o mesmo se sinta parte do horror, Bolaño cria uma atmosfera que se junta a sua estética e monta esse capítulo, o mais político de todos. Sob a égide dos

corpos multilados, torturados, apresentadpos como emblema, símbolos de derrota humana e aniquilamento, concentra Bolaño sua denúncia: corpos que falam e clamam por justiça que nunca chega.

3.2 – Narrativas interrompidas

Sempre que alguém se dispõe a escrever sobre as questões literárias, fica diante de muitos aspectos teóricos que podem ser analisados dentro de uma determinada obra literária e entre eles se encontra a constituição da estrutura narrativa dentro de um determinado gênero. Assim, serão expostas algumas considerações para entender como, a partir da ideia de interrupção, se elabora o romance infrapolicial. Por que não usar o conceito de fragmentação no lugar de interrupção? A resposta a esta questão não é muito simples, mas tenta ser esclarecedora. Porque, embora ambas percam o sentido de totalidade, a fragmentação traz a ideia de quebra, de parte, de porção, de hiato, de divisão, de ausência, de descontinuidade, de individualização, de histórias incompletas e fracionadas que não são retomadas, muitas vezes, sem começo, meio e fim. E a interrupção apresenta a ideia de prosseguimento (interromper e retomar depois). O prefixo inter, cujo significado é unir duas partes, liga um ponto a outro, entre e dentro, acarretando a ideia de singularidade, de presença, de conjunto, de justaposição, de retomada, de continuidade, de um final, mesmo que este não seja o esperado, justamente o que acontece no capítulo que está sendo analisado.

Existe o entendimento de que, nos outros capítulos, ou até mesmo na costura desses capítulos, a narrativa de 2666 é fragmentada, sobretudo quando apresenta os jogos de temporalidade, buscando uma forma não linear do discurso. E os capítulos, ainda que autônomos e como fragmentos, compõe um todo que é o livro, existindo uma coexistência entre os dois. A ideia apresentada aqui será a de que a fragmentação dialoga com a digressão e a interrupção com o paralelismo. Há que esclarecer que este capítulo, lido como infrapolicial, usa a interrupção na base da sua elaboração, sem contar que os prefixos infra e inter pressupõem ideias complementares, pois o que serve de base (infra) tem uma relação de ligação (inter) com algo. As narrativas

interrompidas funcionam como base de estrutura do romance infrapolicial. Narrativas contrárias, umas das outras, que na interrupção promovem a continuidade e uma leitura única, conferindo à obra de Roberto Bolaño o valor estético pretendido dentro do seu projeto literário, apresentado com uma poética de produção e reprodução de interrupções aperfeiçoadas dentro de um processo de construção aparentemente turbulento e caótico.

Como leitor, Roberto Bolaño era uma espécie de leitor enciclopédico48, eclético que lia Pascal, Lichetenberg, Wittgenstein e ao mesmo tempo Philip K. Dick, James Ellroy, Rodrigo Fresán. De ficção científica à literatura policial, passando pelos filmes da série B e X, de Edgar Allan Poe a Raymond Carver, adentrando por Antón Chéjov, Jorge Luís Borges, Julio Cortázar e Georges Perec. Sem deixar de lado a poesia dos franceses do século XIX e a dos poetas chilenos Nicanor Parra e Enrique Lihn. Todas essas leituras e escritores, de alguma maneira, influenciam a maneira diferente como Bolaño trata a palavra e a estrutura literária nas suas obras e, além disso, ratificam que a sua preocupação original é com a literatura, pois escrever, mais que alento e complemento, é exercício, é profissão.

Existe dentro da sua forma de escrever uma interrupção entendida como desconstrução (retomando a ideia de Derrida), que levará a uma reconstrução estética de alguns gêneros narrativos, que passa pela ética e pelos acontecimentos que estão no devir do século XXI: o terrorismo, a morte pela morte, a falta de direitos humanos, a criminalidade e a violência nos três níveis, a do Estado, a econômica e a da divisão da estrutura social. Nessa sua desconstrução, para reconstruir, existe uma tensão entre política, ética e estética que leva os seus leitores para além do que está visível, talvez para um mundo infrapocalíptico 49 que aponta para dentro da infraestrutura econômico-

48 Entende-se enciclopédico a partir da explicação dada pelo semiólogo italiano Omar Calabrese, no seu livro, La era neobarroca: ―La enciclopedia se pensó no como lista de ingresos finitas, ni como bloque cerrado de temas, sino como geografía de nudos temáticos, cada uno representado por una condensación de argumentos entrelazados entre ellos y colocable en el sistema global de manera centrada. Cada entrada, por tanto, hace referencia a un nudo y el pasaje entre las voces constituye un laberinto. Nudo y laberinto se vuelven así en la imagen estructural del saber mismo: un saber abierto, interdisciplinario, en movimiento, continuamente sujeto al riesgo de la pérdida de orientación.‖ (1999, p. 152-153)

49 Este termo surge da junção de outros dois termos: infrarrealismo e postapocalipsis.

―Infra‖ remete ao já que foi apontado no capítulo dois e ―Apocalíptico‖ surge da ideia/conceito postapocalipsis proposto por Carlos Monsiváis, citado por Juan Villoro em seu artigo El vértigo

social, descortinando os meandros de uma sociedade enferma, que teima em não olhar para dentro de si mesma, se negando a fazer uma viagem ―infraexistencial‖. Se, dentro da sociedade, o que é dado como certo são as aparências, nessa parte da obra de Bolaño paira uma dúvida e vem à tona aquilo que está velado. Por exemplo, os assassinatos sem solução que acontecem dentro da trama, sevem para quê? Não há mais como fechar os olhos e não perceber que existe o feminicídio que muitos desconhecem e, se conhecem, acham que é normal, faz parte, virou banal.

Nesta parte do romance, o autor descreve, enumera e cataloga, tal como um criminalista, as centenas de cadáveres femininos, deixando o leitor distante de uma interpretação cômoda e tranquila, mas ativando a sua consciência, para tentar entender o que aqueles corpos reclamam. Além de uma investigação policial, qual a profundidade e a possível transparência dos fatos? Sim, houve crimes, mas como fazer que o leitor entenda a crueldade (doença) dos fatos acontecidos que transita por trás dos assassinatos? Para isso, o autor utilizará alguns recursos tais como: uma estrutura narrativa interrompida; as inúmeras intertextualidades; ―intergenericidade‖50 e temas variados dentro do mesmo capítulo que tentam achar uma possível saída do labirinto. Mas esse pode ser um labirinto com várias saídas e muitas delas falsas, levando o leitor a entrar e se perder dentro do mundo infrapocalíptico, tal qual um buraco negro, o inferno, o caos, repleto de muitos nós, difíceis de serem desatados que trazem a sensação de serem reais ainda que trágico.

As várias narrativas apresentadas nesse capítulo são interrompidas, mas seguem o fluxo temporal, sequencial, dentro do espaço temporal proposto

postapocalipsis, a la que se ha referido Carlos Monsiváis. […] Nuestra mejor forma de combatir el drama consiste en replegarlo a un pasado en el que ya ocurrió. Este peculiar engaño colectivo permite pensar que estamos más allá del apocalipsis: somos el resultado y no la causa de los males. Los signos de peligro nos rodean pero no son para nosotros porque ya sobrevivimos de milagro. Imposible rastrear la radiación nuclear, el seísmo de diez grados o la epidemia que nos dejó así. Lo decisivo es que estamos del otro lado de la desgracia. Diferir la tragedia hacia un impreciso pasado es nuestra habitual terapia.‖ Portanto, infrapocalíptico significará, a partir das duas ideias apontadas, um mergulho, uma incursão profunda, uma subversão na/da realidade que já ultrapassou o horror, o caos, o colapso, a catástrofe cósmica, o fim dos tempos, não só no âmbito humano, mas também no social, político e econômico, onde não existe mais nenhuma possibilidade de utopia, deixando brotar novas sensações obscuras e alegóricas.

50

O que é apontado como ―intergenericidade‖ – também conhecida como ―intertextualidade intergêneros‖ ou somente ―intergênero‖ - é um diálogo entre gêneros diferentes, que trocam informações e características e provoca, a partir dessa conversa, uma hibridização, momento em que o texto passa a ter elementos variados pertencentes a vários gêneros, formando uma espécie de quebra-cabeças.

que começa em 1993 e termina em 1997. Bolaño começa o capitulo descrevendo a primeira mulher assassinada:

La muerta apareció en un pequeño descampado en La colonia Las Flores. Vestía camiseta blanca de manga larga y falda de color amarillo hasta las rodillas […] Eso ocurrió en 1993. En enero de 1993. A partir de esta muerta comenzaron a contarse los asesinatos de mujeres. Pero es probable que antes hubiera otras. (BOLAÑO, 2013, p. 443)

Depois de algumas páginas expondo, com todos os detalhes possíveis, o estado do corpo, das vestes e dos pertences das vítimas, além de apresentar os investigadores e os chefes de polícia que averiguarão os casos, Bolaño interrompe essas narrativas e começa a exposição de outra, que parece estar fora de contexto, como se fosse uma colagem.

Interrompe as cenas dos assassinatos e narra a história de um personagem peculiar, um homem que entra nas igrejas com a finalidade de profanar seus espaços. A imprensa batiza esse sujeito como o penitente endemoniado: ―En mayo ya no murió ninguna otra mujer [...] Pero a finales de mes empezó el caso del profanador de iglesias. […] Padre, hay un hombre que está haciendo sus necesidades en la iglesia, dijo la viejita‖ (BOLAÑO, 2013, p.453). Esse penitente, além de urinar e defecar dentro das igrejas e sofrer de uma doença denominada sacrofobia51, esfaqueou um sacristão e matou outros dois homens, o padre e o zelador de uma das igrejas profanadas. Este caso foi entregue a um investigador, Juan de Díos Martinez, que conhecerá a médica psiquiatra Elvira Campos, diretora do manicômio de Santa Teresa.

Após a cena do penitente, voltam os relatos dos feminicídios, que também são interrompidos para dar lugar à introdução do jornalista Sergio González Rodríguez, cuja missão é fazer uma reportagem sobre o penitente, mas acaba se inteirando da história das mulheres assassinadas. Agora é a vez do leitor conhecer o início do envolvimento sexual entre o investigador e a diretora do manicômio.

O registro e a estrutura usados pelo autor, para criar essas duas narrativas interrompidas, se aproximam com os dos textos jornalísticos e das

51 Na obra, há uma passagem que explica o que venha ser sacrofobia:

―es el miedo o la aversión a lo sagrado, a los objetos sagrados, particularmente a los de tu propia religión, dijo Elvira Campos‖.(BOLAÑO, 2013, p. 475)

crônicas policiais que aparecem nos tabloides. Bolaño utiliza a intertextualidade e a intergeneracidade, confundindo o leitor que, em muitos momentos, pensa que está lendo uma reportagem, uma notícia saída em um jornal popular, dadas as descrições precisas, além de usar uma linguagem simples, referencial, permitindo que todos entendam. O uso do recurso de intergêneros acontece quando Bolãnotoma como base para sua escrita op o livro do jornalista mexicano, Sergio González Rodríguez, Huesos en el desierto. Ao baserar-se nessa obra, Bolaño acercou-se às narrativas interrompidas, cujo registro e estrutura fazem parte do modo de escrita jornalística.

A trama continua e há mais interrupções. Depois de mostrar a história do penitente e voltar aos assassinatos das mulheres, é o momento de usar recursos de outros tipos de textos, a fotonovela e o programa televisivo. O narrador nos contará o envolvimento do investigador do caso do profanador das igrejas com a psiquiatra encarregada de traçar o perfil desse personagem. Nessa narrativa, que também sofrerá uma interrupção, o autor modifica e usa o registro e a estrutura que se assemelham às narrações das fotonovelas, dos

Benzer Belgeler