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Ulusun ―Yeniden Doğuş‖u, Şairin ―Yeniden Doğuş‖u

Depois da aparição de Natália, quando Onofre ainda pensa que a esposa – “a porqueira”, segundo ele – lhe fugiu, Sofia surge inesperadamente de trás de uma cerca. Vemos então a batalha final entre marido e mulher; um último diálogo de violências. Mesmo estando em desvantagem, armado de chicote contra uma espingarda, Onofre parece ter tanta fé nas leis sociais que sustentam a sujeição de sua mulher em relação ao seu jugo, que não hesita em atacá-la de frente; o homem parece não conceber a possibilidade de ser baleado por aquela arma, justamente por ela estar sendo manuseada por alguém que lhe deve submissão. No entanto, as leis sociais já haviam sido rompidas na lógica interna da narrativa, e a negação de Onofre em aceitar esse fato não mudou o rumo das ações. Desse modo, a espingarda então explode, num violento ato de defesa – talvez mais do que ataque – de Sofia. O narrador nos afirma que “era tiro de espingarda pica-pau e foi para assustar, mas acertou a barriga [...]”, confirmando-nos que as intenções de Sofia eram mais de autopreservação do que de destruição do outro – talvez por ainda estar, de alguma forma, ligada à estrutura matrimonial que sempre regeu sua vida. O homem, então baleado, ainda tenta se levantar, talvez para vingar aquela insolência, aquela insubordinação, mas não há mais forças no velho, que finalmente sucumbe e volta a cair. Ironicamente, nesse momento de vingança da sua eterna vítima

– e consequentemente de sua destruição –, é justamente a essa criatura torturada, Sofia, que Onofre pede socorro: “Velha, me acuda. Estou atirado”.

Sofia então vai ajudar o marido, e nesse momento o ritmo e o próprio tom do texto tem uma mudança brusca. A cadência da prosa trevisaniana passa de uma fórmula carregada de agilidade e violência para o seu completo oposto, uma descrição poética e visual da cena da morte de Onofre. Transcrevemos então essa última passagem do conto:

Olho branco, estirou-se no terreiro. Pediu um gole d’água. Sofia trouxe a caneca. Estava mudo, a garrafa na canhota, o chicote na destra. Bem quieto, assim escutasse o pio dos pardais que anunciavam chuva.

Não há indícios de violência ou brutalidade na descrição da cena ou nas ações das personagens. Finda-se então o embate devastador de agressões entre os indivíduos ali retratados, dando lugar a um contato bastante sereno entre esse casal antes tão arruinado. Indefeso, abatido, Onofre “pede” um último gole de água – não “manda” como normalmente o faria; Sofia, por sua vez, ampara o marido, traz-lhe a água pedida, agora talvez não mais por obediência, mas sim por vontade de confortar aquele homem que então se apequena e está a morrer diante dos seus olhos. As personagens desprendem-se das caracterizações a que estavam atreladas anteriormente. Note-se que nem mesmo os termos antes utilizados para definir Onofre – “velhinho sem moral”, “borracho”, “o velho” – aparecem nessa cena. A figura do homem passa a ser então referida de forma elíptica e metonímica – fala-se em seu olho sem vida e reforça-se o seu silêncio (“mudo”, “bem quieto”) –, amenizando assim a força visual e a violência que antes estavam associadas a sua negativa figura. Até mesmo a questão do assassinato, embora constitua uma situação naturalmente trágica, não está posta nesse momento do texto com a ênfase que se espera. Há, na passagem do conto em que essa ação é narrada, a inserção de uma informação que destoa e desvia o foco do leitor do violento ato: “Então a espingarda explodiu, levantando um bando de passarinhos no caquizeiro, o velho foi ao chão” (grifos nossos). Dessa forma, fica então contido, refreado, um possível clímax catártico do texto. Talvez esse movimento de contenção, de desvio do foco de um ato tão extremado como é o assassínio, só esteja nos mostrando que, dentro de uma realidade que se configura como um ciclo de violências, até mesmo

a mais radical das agressões tem seu impacto reduzido pela repetição – pela monotonia, pela anestesia da repetição. No entanto, alguns resquícios da imagem deteriorada que dominou o texto até então – mesmo que agora de forma mais suave – permanecem ainda na pintura dessa cena: a imagem do chicote em uma mão e a garrafa na outra simboliza os dois lados essenciais da personalidade de Onofre: sua violência e sua bebedeira. Talvez essa imagem surja nesse momento final para que não nos esqueçamos de que, mesmo estando agora mudada a caracterização das personagens, e apesar do trato suave que é dada a essa cena de “Dia de matar porco”, as marcas deixadas pela violenta existência ali retratada não se apagarão com tanta facilidade. As ideias de redenção, ou mesmo de perdão, parecem então minadas de qualquer possibilidade, como se não houvesse espaço para a reconstrução nesse ciclo de violências que sempre se mostrou eterno.

A última frase do conto, tão poética e destoante de todo o resto do texto – “Bem

quieto, assim escutasse o pio dos pardais que anunciavam chuva” –, enche a atmosfera da narrativa de um ar pacífico e leve, remetendo ao canto ameno dos pardais e a agradável iminência de chuva. Desconstrói-se assim o tom agressivo com que se narrou essa história, dando a “Dia de matar porco” um inesperado final comedido e lírico.

Essa última passagem do conto – toda a cena do assassinato de Onofre – nos suscita então um duplo impacto: primeiramente, temos o trágico desenrolar da trama, culminando na morte do marido pelas mãos da esposa, ou, dizendo de outra forma, no não esperado “dia da presa”; e, segundamente, temos a mudança brusca no tom da narração e nas ações das personagens, o abandono de uma representação violenta da realidade em detrimento de seu total oposto, culminando na figuração de uma cena final envolta em lirismo e passividade. No entanto, como já dissemos, a noção de assassinato tem seu impacto amenizado pela própria forma como o texto a apresenta. Desse modo, fica-nos então o segundo impacto – o desfecho, a poética morte de Onofre – como sendo, de certa forma, o clímax de “Dia de matar porco”.

Se pensarmos retrospectivamente nas representações construídas dentro dessa narrativa, poderemos entender melhor o que simboliza esse final lírico para uma história que foi sempre de agressões, tortura e tragédia. Vimos aqui que as personagens retratadas vivem uma vida desgraçada, marcada por desafetos e ofensas; vimos que as inquebrantáveis leis sociais e religiosas funcionam como amarras que subjugam e atrofiam as vontades dos sujeitos; vimos que nessa realidade em violência só é possível

um diálogo que seja ele também um diálogo de violências, um embate, uma luta bruta e visceral; vimos também que a ideia de redenção não tem lugar aqui, e mesmo que haja um relativo arrependimento e reconciliação por parte das personagens, as marcas dessa existência que foi sempre vilã jamais poderão ser apagadas. Desse modo, quando vemos então essa cena final sendo tratada com ares de lirismo, temos um genuíno choque, um estranhamento, pois não nos parecia antes que haveria espaço para subjetividades e poeticidade num mundo construído por leis tão duras e opressivas. Sendo assim, a ideia que nos surge é a de que a morte pode simbolizar, dentro da lógica das relações e das representações sociais dessa realidade ficcional, uma fagulha de positividade; a morte seria então a única e derradeira liberdade nesse universo. Ou seja, num mundo onde o amor está atrofiado, onde o matrimônio significa domínio, onde as relações familiares emulam as grades de uma perpétua prisão, e onde a imposição social subjuga e violenta a vontade individual, a morte surge como a única alternativa, como a única possibilidade de liberdade – enfim, os poéticos votos do “descanse em paz” tomam proporções radicalmente concretas nesse conto de Dalton Trevisan: somente na morte o descanso; somente nela a paz.

É interessante notar que ambas as personagens – tanto Onofre quanto Sofia – parecem perceber esse teor de verdadeira libertação que emana do ato de morrer. O casal, sempre rodeado por relações de opressão, dor e violência, finalmente fica em paz quando a certeza da morte se faz presente; é a iminência do fim que carrega consigo o conceito de libertação. Embora não haja a verdadeira redenção para essas personagens, como já comentamos, parece que lhes é suficientemente confortadora a paz trazida pelo fim de sua existência degradada – esse ciclo de violências. Sofia, ao assassinar Onofre, liberta-o da sua condição perpétua de torturador, e, ao mesmo tempo, liberta-se da sua própria condição – moral, religiosa, cultural, política – de ser uma criatura inferior e violentada, uma eterna vítima. Na morte, as amarras e as leis sociais perdem sua jurisdição, e os sujeitos estrangulados podem enfim respirar a relativa paz dos que deixam para trás somente marcas de destruição; a morte é, portanto, o signo da liberdade. É válido frisar que não é a ideia de um pós-morte, seja ele o céu ou – o presumível – inferno, que ameniza a existência das personagens, mas sim a própria noção de abandonar essa existência degradada; o sentimento de libertação não está no pós-vida, mas sim precisamente no momento da morte. Vemos então que até mesmo a liberdade, quando retratada nesse contexto, só é possível através do mais extremo ato de

violência: o assassinato. A vida degradada de “Dia de matar porco” não deixa brechas para um possível lado bom, suprimindo até mesmo a mais sensível necessidade humana sob uma grossa camada de miséria.

Vemos então que a violência funciona aí como uma via de mão dupla: num nível mais superficial, ela está presente nas ações e reações das personagens; e num nível mais essencial, ela fundamenta toda a lógica das relações sociais, culturais e políticas constituídas na realidade anteriormente descrita. Ou seja, se por um lado – e de maneira óbvia – conseguimos perceber a violência como um mecanismo fundamental na construção das relações interpessoais de “Dia de matar porco”, lendo-a, por exemplo, nas agressões e torturas infligidas por Onofre, na reação de defesa e consequente ataque de Sofia, na forma como as personagens falam, nos termos utilizados na descrição dessas personagens, e até mesmo na própria natureza das cenas que são descritas no conto; por outro, e de modo um tanto mais estrutural e essencial – e talvez por isso ainda mais intenso –, percebemos a violência como um elemento basilar na construção das próprias leis e valores morais, sociais e políticos que sustentam e constituem essa realidade ficcional. É violenta a mão de Onofre contra o corpo de Sofia, é brutal o seu chicote, mas quando analisamos a constituição opressiva da instituição do casamento ali descrita, também estamos falando de uma violência. É violência porque se quer opressiva, acrítica, inquestionável; sua perpétua imutabilidade configura também uma fórmula de agressão: uma agressão dos diretos, uma agressão à liberdade. A sujeição sofrida por essas personagens, e, consequentemente, a estrutura social que emana esse poder sujeitador, são, em sua essência, em sua base, um mecanismo de opressão, uma maquinaria de violências.

Portanto, quando falamos aqui em um “mundo em violência” é nesse sentido que estamos empregando o termo. Estamos nos referindo a essa realidade onde a violência age subcutaneamente, num nível infraestrutural da sociedade, configurando leis morais opressivas, agressivas e hostis, manifestando sua brutalidade num ciclo perpétuo e inquebrantável de sujeições. Mas, mais do que isso, falamos também de uma realidade em que as personagens, impelidas e diretamente contaminadas por essa estrutura devastadora de agressões, tornam-se também criaturas de violência, seres incapazes de alcançar a passividade e a suavidade em qualquer nível, monstros destituídos da sensibilidade necessária para uma existência que não seja em si somente um eco trágico, uma ruína de desgraças e relações falidas.