1. BİRİNCİ BÖLÜM: İÇ DENETİM VE GELİŞİMİ
1.8. Uluslararası Düzenlemelerde İç Denetim
1.8.1. Uluslararası Hukuki Düzenlemeler
As ações de organizações religiosas na esfera pública são um tabu estabelecido pelo processo de modernização, que separa o Estado das práticas religiosas em geral, sobretudo a partir de um processo de secularização, que tem na reforma protestante um marco referencial
importante, que estabeleceu uma forma subjetivada de religiosidade centrada no indivíduo e em certa privatização da esfera religiosa em geral16.
No entanto, no Brasil, o processo de diferenciação entre o Estado e a Igreja Católica foi marcado pela institucionalização pública de manifestações culturais de matriz não-cristã,
na forma jurídico-organizacional de ‘religião’17, tendo-se como ‘modelo eclesiástico’ a
religião cristã católica no país18.
Tal normatização visaria a garantir certa liberdade de culto aos grupos não-católicos, como forma de não serem discriminados, mas também como mais uma via para se estabelecer uma separação entre Estado e religião no Brasil, favorecendo, na prática, o desenvolvimento de organizações religiosas submetidas a uma ‘forma organizacional imposta’ pelos poderes
republicanos no país, sobretudo identificando-as com os espaços públicos urbanos19,
estruturados a partir das transformações políticas, econômicas e demográficas em curso desde o fim do século XIX.
Os agentes principais na formação de uma mentalidade política ‘jurídico-sanitária’ da religião e da cidade foram os representantes das elites médicas e jurídicas, sobretudo nos
primeiros anos da República brasileira, visando a uma diferenciação entre magia e religião20,
mas que tem conformado a ‘experiência religiosa’ no país até os dias atuais.
A religião é uma construção mental da modernidade, tal como a ciência21, e essas formas de apreensão da realidade e de normatização do pensamento têm um modo particular de desenvolvimento conforme cada caso analisado, tomando-se determinada nação e, no interior desta, suas múltiplipas diferenciações, com implicações para as formas de governo da sociedade, particularmente através dos espaços que esta cria.
Para o caso brasileiro, tem-se que as construções jurídico-sanitárias, desde o advento da República, tiveram por resultado influenciar fortemente a criação de um ‘conceito normativo de religião’, passando a abrigar parte das manifestações culturais de cunho popular22 (desde então, oficialmente religiosas) sob essa forma de representação coletiva, contribuindo para a formação de um determinado pluralismo religioso no país, mas que teve por principal motivação um formalismo jurídico-sanitário, não sendo um projeto das religiões em si.
Ou seja, uma pluralidade religiosa brasileira, e sua tolerância, são, ‘de fato’, no papel, ou na formalidade da lei, e nem mesmo em seu ‘espírito’, desde que na exegese e hermenêutica da lei e do Direito, por parte das instituições religiosas, não haveria uma intencionalidade em se firmar a tolerância de múltiplas religiosidades no país, mas, sim, em evitar conflitos desnecessários a uma dada ordem hegemônica do Estado, do mercado e de parte das ‘religiões oficiais’.
Importante observar, também, que alguns dos marcos norteadores da construção do ‘conceito republicano de religião no Brasil’, quais sejam, as técnicas sanitárias e jurídicas, também, foram os parâmetros utilizados para a (re)estruturação urbana a partir da modernização brasileira ao longo do século XX, indicando certa preocupação em alinhavar
religião, cidade e cidadania nos termos da legislação, do espaço e das crenças religiosas23.
Isso apontaria, para o caso brasileiro, que a construção das religiões no país, assim como a edificação de suas cidades e seus cidadãos, ganharam uma nova dinâmica a partir de um determinado marco legal, típico da República brasileira desde suas origens.
Como serão oportunamente abordados, em termos empíricos, no capítulo 3, a partir do município de São José dos Campos (SP), os nexos teóricos entre religião, espaço e cidadania, esta cidade, em seu processo de urbanização24, tem se norteado por tais ‘eixos jurídico- sanitários estruturadores’, típicos das intervenções públicas no espaço urbano da modernidade republicana no Brasil, e que também têm marcado as formas como se têm constituído as manifestações religiosas nesta cidade e país, com suas correlatas implicações para a constituição e exercício de uma cidadania local e nacional.
Tomando-se tais considerações relativas à formação política, material e cultural da
‘religião’, da ‘cidade’ e da ‘cidadania’ no Brasil25, vê-se, portanto, que ‘uma forma
eclesiástica’ de organização social do poder tem sido uma das vias de acesso e legitimação de determinados movimentos culturais, junto aos poderes constituídos na República brasileira.
De modo que, ao ‘tornar-se religião’26, um determinado arranjo sociocultural passaria
quase que imediatamente a contribuir na conformação dos indivíduos/sujeitos e dos espaços, em consonância com os interesses hegemônicos que aí se representam pelo Estado, pelo mercado e pelas religiões organizadas, criando em todos esses níveis de governo das pessoas uma ‘sutileza teológica’, esvaziada em si, desde que incapaz de se firmar como projeto de
vida, em um mundo cada vez mais globalizado, ainda que reencantado, mas sustentado por uma ‘religião secularizada’ do Estado e do mercado, exaltados em ‘formas organizacionais eclesiásticas’, denominadas oficialmente de ‘religião’ e que ‘coroariam tal estado das coisas’27.
As religiões, oficialmente assim reconhecidas pelo Estado e pela sociedade, seriam suportes para certo exercício do poder, que, em termos socioespaciais, dependeriam da institucionalização da segregação, alienando e massificando os grupos no espaço da religião e da cidade, como se pretende expor a seguir.