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Embora esta tese esteja voltada para a discussão do trabalho análogo ao escravo ou forçado no meio urbano, a questão do termo “trabalho escravo” tem sido de uso mais frequente no meio rural e na agricultura em geral. Nesse sentido, esta seção traz uma contribuição adicional ao texto, com um resumo de opiniões mostrando que há um conflito conceitual entre o que seja trabalho escravo stricto sensu e trabalho informal, decorrente a existência de altos custos impostos pela legislação trabalhista e pela própria dificuldade de transportar e alojar os trabalhadores agrícolas, especialmente em áreas remotas269.

269Esta seção se fundamenta nos artigos de GERMANI, Luis Augusto. Trabalho informal ou

escravo. Revista de Agronegócios da FVG, São Paulo, p. 50, mar. 2004; REZENDE, Gervásio Castro de. Políticas trabalhista, fundiária e de crédito agricola no Brasil: uma avaliação crítica.

Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília, DF, v. 4, n. 1, p. 47-78, jna/mar. 2006;

REZENDE, Gervásio Castro de; KRETER, Ana Cecília. Existe realmente trabalho escravo na agricultura brasileira? Revista de Política Agrícola, ano 18, n. 2, p. 98-106, abr./jun. 2009; BARRETTO, N. R. Trabalho escravo: nova arma contra a propriedade privada. São Paulo: Artpress, 2004 e BALSADI, O. E. Qualidade do emprego na agricultura brasileira e suas diferenciações regionais. Agricultura em São Paulo, São Paulo, v.53, n.2, p. 49-67, jul/dez. 2006).

Na percepção destes autores há uma confusão entre o que é trabalho escravo (ou forçado no conceito da OIT), onde se tolhe o direito de ir e vir do trabalhador (sua liberdade, enfim), e o trabalho exercido pela maioria dos empregados agrícolas, caracterizado pela informalidade decorrente do não cumprimento de uma legislação trabalhista inflexível, que penaliza mais o trabalhador do campo do que aqueles atuando nas áreas urbanas.

A existência de um vasto volume de encargos faz com que o salário finalmente recebido pelo trabalhador (seu salário líquido) seja muito menor do que aquele contratado, tanto no meio urbano como nas áreas rurais. A agravante no caso agrícola é que essa cunha fiscal é maior ainda em decorrência da atividade do empreiteiro, ou do chamado “gato”, que impõem penalidades aos contratados, cuja responsabilidade última passa a ser do empregador, implicando em menores ganhos do trabalhador rural, além da ocorrência de ilícitos e infrações conforme se sabe.

No entendimento de Kreter e Rezende:

Certamente a cunha..., que separa o custo da mão de obra e o salário recebido pelo trabalhador, é muito maior no mercado de trabalho temporário agrícola do que no mercado de trabalho urbano, uma vez que vários de seus componentes – como os que decorrem da ilegalidade do empreiteiro – são específicos do mercado de trabalho agrícola... Esses impostos, que aumentam tremendamente o custo da mão de obra para o empregador, podem não ter o mínimo significado para o trabalhador agrícola, mesmo no futuro. Isso leva o trabalhador agrícola a perceber menos esses “direitos” de uma maneira totalmente diversa da forma como é entendida pelo trabalhador urbano, tornando-o mais disposto a abrir mão deles em troca de um salário maior, hoje270.

Em outros termos, como o mercado de trabalhador no mercado sazonal agrícola tem atividade intermitente, e muita incerteza com relação à sua volta, os encargos cobrados do empregador são menos apropriados por eles (trabalhadores) no futuro, tornando-os mais vulneráveis em aceitar as promessas do gato ou do empreiteiro, que disso se aproveitam. Como a atividade de empreiteiro é ilegal, mas que dela não pode fugir o proprietário rural, este, para compensar os riscos, aumenta a taxa de retorno requerida por esta atividade, que

270REZENDE, Gervásio Castro de; KRETER, Ana Cecília. Existe realmente trabalho escravo na

é conseguida pelo aumento do preço da empreitada ao fazendeiro mais a redução do salário pago à mão de obra, uma prática mais usual.

Acontece que este ajuste no salário ocorre pelo controle da provisão de alimentos e alojamento, tanto menos custoso quanto mais precário, o que transparece aos olhos da imprensa e determinados órgãos de governo como a presença de trabalho escravo na agricultura brasileira. Esta informalidade beirando a existência, de fato, do trabalho escravo, ocorre pela existência de uma realidade perversa, onde existe uma legislação trabalhista muito onerosa, associada ao fato de que a complexidade deste mercado, é encarecida mais ainda pela presença do empreiteiro, que não tem motivação para cumprir as Leis, pois, afinal, sabe que cabe ao produtor responder pelo não cumprimento das obrigações trabalhistas.

É importante, contudo, diferenciar o que é informalidade do trabalho na atividade sazonal agrícola, daquilo que é efetivamente trabalho escravo (ou forçado nos moldes da OIT). A informalidade é o não cumprimento puro e simples de direitos previstos em Lei, não importando se ela é adequada ou não para promover mais emprego e/ou melhorar as condições de trabalho dos empregados. No caso do trabalho escravo, que realmente ocorre em determinas regiões rurais brasileiras, este se encontra previsto no Código Penal Brasileiro, configurando um crime, uma questão penal, e assim deve ser tratado. Se o direito de ir e vir do trabalhado for completamente cerceado, seja pelo empreiteiro ou pelo fazendeiro, aí sim temos a ocorrência de trabalho escravo, devendo seus promotores se sujeitarem a todas as penas das Leis.

Ou seja, o cerceamento da liberdade implica, neste caso, a assemelhar o empregado rural ao conceito de escravo como um bem de capital, cabendo a alguém sua posse material. Isto, porém, não deve ser confundido com informalidade no trabalho, e, portanto, penalizada como crime. Significa, em resumo, que, seja no caso da informalidade seja no caso do trabalho escravo, temos irregularidades legais, em conflito com o arcabouço jurídico brasileiro, mas devem ser tratadas e julgadas separadamente, pois são fenômenos de natureza distinta.

A falta de lucidez nesta distinção de conceitos acaba acarretando consequências indesejadas. Um exemplo é utilizar expropriação de terras como forma de resolução desse problema quando o agente fiscalizador conclui pela existência de trabalho escravo, ou análogo ao escravo, ou forçado, conforme previsão da OIT. Nesse caso, é como dar um tiro de canhão para se matar um passarinho. Se for trabalho escravo strictu sensu, a questão é penal, e é assim que deve ser tratada. Se for trabalho informal, então fica caracterizado uma injustiça na forma de tratamento da questão.

Ademais, este tipo de solução – expropriação de terras −abrange gerações, em decorrência de se envolver questões referentes ao direito de propriedade. Outro aspecto é que, ao destinar terras expropriadas para a reforma agrária, não há garantia nenhuma do melhor uso dela, seja porque os programas de reforma agrária brasileiros são baseados em argumentos ideológicos, levando-os à ineficiência, seja porque não há garantias que propriedades rurais oriundas da reforma não venham a padecer do mesmo mal. Quem não ouviu falar que os maiores exploradores dos trabalhadores bolivianos são os próprios bolivianos? Quem garante que os beneficiários da reforma agrária não irão promover novas formas de trabalho escravo, ou utilizar as já existentes?

Outra consequência indesejada decorrente da confusão entre informalidade e trabalho escravo está na própria extensão do uso do direito de propriedade como política para coibir o trabalho forçado no meio urbano. Por analogia, e levado ao extremo, apareceriam situações esdrúxulas. Por exemplo, uma empregada doméstica urbana, ganhando o salário mínimo, morando com os patrões, trabalhando jornada de 7 dias, se desejar voltar para sua terra natal e não puder pagar a passagem de volta, seja de ônibus ou avião, deveria ser caracterizada como escrava? Os patrões deveriam perder a posse da casa? O servente de pedreiro morando na obra, em condições precárias e insalubres, ganhando pouco, mas podendo ir e vir, deve ser rotulado de escravo e seu patrão deve perder a propriedade? Tais questões não pretendem ignorar que em muitos casos e em muitos locais, rurais ou urbanos, ocorra, de fato, trabalho escravo ou forçado, mas, sim, que não se pode generalizar propostas de soluções que tratem o problema como semelhante e se tudo fosse considerado roupagem de “tamanho único”.

Por fim, voltando ao caso rural, Rezende e Kreter criticam a banalização do combate ao escravo, sua excessiva exposição à mídia, sua interferência crescente de organismos internacionais, e a falta de lucidez de sua separação com relação à informalidade:

O principal objetivo deste trabalho, foi, contudo, apresentar uma crítica à crença generalizada de existência de trabalho escravo, ou trabalho forçado na agricultura. Essa crença e o aumento do risco de contratação de mão de obra agrícola que ela implica têm induzido a um aumento da mecanização na agricultura, com o que se reduz o emprego da mão de obra pela agricultura, especialmente a menos qualificada, resultando, em consequência, no aumento do êxodo rural e no recrudescimento da pobreza no meio urbano.271

271REZENDE, Gervásio Castro de; KRETER, Ana Cecília. Existe realmente trabalho escravo na

5. TRABALHO FORÇADO E TRABALHO ESCRAVO À LUZ DOS

Benzer Belgeler