No dicionário, o significado de escravo é descrito como a pessoa mantida sob laços de servidão, propriedade de outro243 e, como tal, parte do conjunto denominado bens, terras e dinheiro. Tendo o seu proprietário o direito de posse, de uso exclusivo, de usufruir e dispor de sua propriedade como queira, de modo que, como um animal, o escravo pode ser vendido, comprado, alugado, trocado, dado como presente, ou mesmo herdado244. Por outro lado, as transformações ocorridas no mundo e nas relações de trabalho contribuíram para intensificar a desigualdade, a exclusão social e exploração do trabalho em condições análogas à de escravo.
Em termos literais, conforme contido nos dicionários, escravo é o que ou quem está sob o poder absoluto de um senhor que o aprisionou ou o comprou. Que ou quem está na dependência de outro245.
A escravidão sempre foi assinalada pela dominação de uns pelos outros. O art. 1º da Convenção sobre a Escravatura define a escravidão como o estado ou condição de um indivíduo sobre o qual se exercem, total ou parcialmente, os atributos do direito de propriedade. O mesmo dispositivo ainda determina que:
242Relatório OIT 2011 p. 11, parte II.
243SARAIVA, F. R. dos Santos. Dicionário latino-português. Rio de Janeiro. Garnier, 1999. 244GAUDEMET, Jean. Esclavage et dépendance dans l’Antiquité. Napoli: Jovene, 1992. p. 257. 245DICIONÁRIO Priberam da Língua Portuguesa. Disponível em: <http://www.priberam.pt>.
2º O tráfico de escravos compreende todo ato de captura, aquisição ou sessão de um indivíduo com o propósito de escravizá-lo; todo ato de aquisição de um escravo com o propósito de vendê-lo ou trocá-lo; todo ato de cessão, por meio de venda ou troca, de um escravo adquirido para ser vendido ou trocado; assim como em geral todo ato de comércio ou de transportes de escravos246.
Para condições análogas às de escravo, vários autores que já se dedicaram ao assunto serviram-se de diversas designações, entre elas: trabalho escravo, escravidão contemporânea, super exploração do trabalho, trabalho forçado, trabalho em condições degradantes. De acordo com Brito Filho, De todas as formas de superexploração do trabalho, com certeza as duas vertentes do trabalho em condições análogas às de escravo: o trabalho forçado e o trabalho em condições degradantes são os mais graves; a primeira, mais ainda247.
Para o autor Brito Filho, trabalho escravo é uma variação do trabalho forçado, configurando outra realidade, mais específica. O autor denomina a prática, na atualidade, de trabalho escravo contemporâneo, e o conceitua, na zona rural, “como sendo aquele em que o empregador sujeita o empregado a condições de trabalho degradantes, inclusive quanto ao meio ambiente em que irá realizar sua atividade, que vai desde a deformação do seu consentimento ao celebrar o vínculo empregatício, passando pela proibição imposta ao obreiro de resilir o vínculo quando bem entender, tudo motivado pelo interesse mesquinho de ampliar os lucros à custa da exploração do trabalhador” 248.
A OIT conceitua o trabalho escravo como toda a forma de trabalho escravo é trabalho degradante, mas o recíproco nem sempre é verdadeiro. O que diferencia um conceito do outro é a liberdade 249.
246ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção sobre a Escravatura assinada em
Genebra, em 25 de setembro de 1926, e emendada pelo Protocolo Aberto à Assinatura ou à Aceitação na Sede da Organização das Nações Unidas, Nova York, em 7 de dezembro de 1953. Disponível em: <http://www.mp.pe.gov.br/>.
247BRITO FILHO, José Cláudio Monteiro de. Trabalho decente: análise jurídica da exploração do
trabalho – trabalho forçado e outras formas de trabalho indigno. São Paulo: LTr, 2004. p. 69.
248Id. Ibid., p. 70.
249ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Trabalho escravo no Brasil do século XXI.
Coordenação do estudo: Leonardo Sakamoto. OIT, 2006. p. 11. Disponível em: <http://www.oitbrasil.org.br/sites/default/files/topic/forced_labour/pub/trabalho_escravo_no_brasil _do_%20seculo_%20xxi_315.pdf>.
Nessa conceituação de trabalho escravo, a OIT quis tratar de homens, mulheres e crianças que não têm garantia da sua liberdade. Pessoas que ficam presas a fazendas durante períodos indeterminados, que podem chegar a meses ou anos, por três principais razões: acreditam que têm que pagar uma dívida ilegalmente atribuída a eles e, por vezes, instrumentos de trabalho, alimentação, transporte estão distantes da via de acesso mais próxima, o que faz com que seja impossível qualquer fuga, ou são constantemente ameaçados por guardas que, no limite, lhes tiram a vida na tentativa de uma fuga.
O trabalho escravo que ocorre atualmente possui como meio de existência dois fatos marcantes: o primeiro é a impunidade em casos de crimes em desfavor aos direitos humanos fundamentais; o segundo se dá por vezes da ganância dos empregadores, que, por intermédio de seus capangas, exploram a mão de obra daqueles que são hipossuficientes.
Para a OIT, em seu estudo, ficou demonstrado que o comum é que sejam escravizados pela servidão por dívida, facilitado pelo isolamento geográfico e pela ameaça às suas vidas. Todo esse conjunto de fatores foi denominado trabalho escravo, para a OIT.
De início, aborda-se a conceituação de trabalho escravo e degradante, pelo Ministério Público do Trabalho, Procuradoria Regional do Trabalho da 2ª Região, o qual exemplificou que jornadas exaustivas e condições insalubres de trabalho são variáveis apresentadas em ambos os conceitos. Estabelece a conceituação mencionada que:
O trabalho escravo é caracterizado pelo cerceamento da liberdade e pela coação (moral, econômica ou física), e é considerado crime pela nossa legislação penal. São verificadas nesse procedimento, normalmente, jornadas exaustivas de trabalho, em condições insalubres, como, por exemplo, alojamento inadequado, falta de fornecimento de boa alimentação e água potável, falta de fornecimento de equipamentos de segurança.
Já o trabalho degradante é destituído do cerceamento da liberdade, ou seja, o empregado não é proibido ou impedido de exercer o seu direito de ir e vir, mas presta serviços, geralmente, em local insalubre, em jornadas excessivas, sem o fornecimento
de uma boa alimentação ou mesmo de equipamentos de segurança250.
Não menos importante, é providencial esclarecer que alguns juristas buscam ampliar o objeto de definição do trabalho escravo, de tal modo a garantir que o cerceamento de liberdade física e psíquica constasse como elementos caracterizadores da prática escravagista.
Superando o conceito de que o trabalho escravo somente ocorreria com o cerceamento da liberdade de ir e vir, alguns autores, tal como Nelson Hungria, defendem que a liberdade pessoal deve encampar os elementos físico e psíquico, para permitir maior abrangência e proteção àqueles trabalhadores em situação de escravidão, justificando seu conceito nas situações de ameaça, constrangimento ilegal, sequestro e cárcere privado251.
Neste mesmo sentido, Bales acredita que são traços marcantes da escravidão o controle total dos escravos, bem como o intuito da exploração econômica em face destes. Não se pode esquecer-se da principal característica, segundo este mesmo autor, que é a existência da violência. Assim, pode-se perceber que há a restrição de liberdade dos escravos, por meio de violência em prol de maiores lucros ao empregador252.
4.10. Conceito de escravidão e escravo para a Organização das Nações