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Vieira (2005, p. 71) traz à tona uma reflexão sobre a necessidade de motivar a escrita, pois essa prática permeia todas as nossas atividades cotidianas e é cada vez mais indispensável. Em sua análise, entende que os atos de escrita que acontecem na escola apresentam uma defasagem entre a realidade do mundo da palavra e a palavra do mundo escolar. Por vezes, os alunos escrevem textos sem instruções claras e sem um destinatário concreto além do professor, cujo papel consiste em corrigir os erros de gramática e ortografia. Uma crítica pertinente da autora é que nossas escolas ainda estão, em sua maioria, com um atraso pedagógico quanto ao trabalho com a escrita, seus usos sociais e os processos do redator. Apesar de muitas abordagens e contribuições pedagógicas que trabalham esses usos sociais e o ato de redigir em função de uma audiência para o texto ou de um propósito comunicativo terem despontado, essas ideias permanecem distantes da realidade do ensino. Em sua contribuição para o tema motivação, Vieira (2005, p. 70) afirma: “Se o impulso comunicativo para escrever é determinante de escolhas temáticas, estruturais, estilísticas e pragmáticas no texto em composição, de partida isso já deveria implicar num cuidado muito maior em relação ao quê e como são propostos os atos de escrita na escola”.

Essas proposições de que trata a autora atentam para que consideremos que estamos na era digital, em que a tecnologia absorve bastante a atenção dos alunos, o que atribui novas funções para a escrita. Para motivá-los, as atividades precisam, então levá-los a se sentirem

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capazes de se envolver e de completar a tarefa, isto é, de ter competência e controle sobre ela; controle sobre seus textos e sobre a situação de escrita. Essa autopercepção de competência e controle, cuja recompensa é a autogratificação, é conceituada como motivação intrínseca, concebida do ponto de vista cognitivista, em oposição ao conceito behaviorista de motivação, cujo foco está em recompensas externas, chamado de motivação extrínseca.

Para o ensino, segundo Vieira (2005), a percepção de competência é muito importante no que tange ao engajamento em tarefas. Se o aluno não se percebe competente numa área, maior sua necessidade de assistência externa para se desincumbir de uma tarefa. Desse modo, Vieira (2005, p. 73) diz que:

A ideia é que quando os estudantes se apropriam de sua escrita, seu nível de engajamento será mais alto. Assim, todo redator, do principiante ao profissional, deve ser encorajado a apropriar-se de seu texto, usando a escrita para expressar sua compreensão pessoal dos assuntos e para buscar seus próprios propósitos acadêmicos e sociais. (VIEIRA, 2005, p. 73).

Visando, então, propiciar uma maior motivação para redigir, Vieira (2005) lista, em um quadro, algumas atitudes de intervenção possíveis cujos princípios e práticas aceitamos como norte em nossa pesquisa, de acordo com as possibilidades e dificuldades verificadas na turma, considerando a SD que foi aplicada. Vejamos a seguir:

Quadro 2 – Motivação e envolvimento na produção escrita

ELEMENTOS BÁSICOS PRINCÍPIOS E PRÁTICAS EFEITOS GERADOS

a) Competência + assistência b) Controle (texto/situação de

escrita)

Encorajar a apropriação do texto;

Compartilhar e demonstrar atos de escrita ao aluno (o prazer e as dificuldades);

Oportunidades para

autorregulação.

Engajamento mais alto na leitura (a) e na escrita (b) > maior competência/ controle.

Tempo Concentrar escrever, instituindo períodos para a regularidade

Maior competência e controle

Propriedade (ownership)

Controlar a situação de escrita e a tarefa dentro do gênero e formato:

- variar temas/assuntos - focalizar uma audiência - encontrar a própria “voz” expressando significados e opiniões

- ler/redigir textos autênticos,

criando propósitos

Domínio sobre o texto e maior prazer na escrita.

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comunicativos e situações reais de escrita.

Resposta (retorno, réplica)

Ler/ouvir/compartilhar textos Trabalhar em pequenos grupos, antes de trabalhar de forma independente.

Oportunidades de trocar e comentar textos com os colegas, obtendo respostas específicas. Complexidade da tarefa – usar

habilidades e conhecimentos prévios; propor tarefas que possam ser executadas com êxito (Bereiter e Scardamalia, 1982).

Propor tarefas que dosem: - conteúdo (assunto) - forma (gênero, formato) - função (propósito do texto) Ex.: assunto novo + formato de texto conhecido + função conhecida.

Confiança reforçada pela possibilidade de sucesso, de dar conta da tarefa, estimulando a

percepção da

competência. Percepção abrangente do

processo de redigir (similar em língua materna e língua estrangeira – dominar o código linguístico não é o maior problema) Focalizar em separado processos de composição/transcrição (gerar/organizar ideias x ortografia e gramática). Reforço da experiência de sucesso > nível mais alto de competência

percebida >

engajamento com tarefas semelhantes

Fonte: Adaptado de VIEIRA (2005).

Além desses elementos, a autora aponta outros aspectos práticos que podem ampliar a motivação para escrever. São eles:

a) trabalhar a leitura e a escrita de forma complementar, explorando textos variados, observando padrões ortográficos e construções sintáticas, explorando o potencial da internet e os acervos disponíveis, pois a leitura contribui para a escrita mais que o próprio ato de redigir;

b) integrar a escrita à mão com a escrita digital, transitando do papel à tela do computador, exercitando em cada uma das modalidades de escrita os aspectos que melhor favorecem;

c) recriar situações comunicativas autênticas e propósitos para escrever, como anúncios, manchetes, orações, bilhetes, cartas, notícias, entre outros, indo dos mais simples aos mais complexos, e

d) buscar audiências verdadeiras para escrever e interlocutores para comentar os textos redigidos, criando situações de modo que os estudantes possam comentar e criticar o que foi produzido.

Diante do exposto, procuramos, ao longo das aulas dos módulos, contemplar nas atividades os aspectos que podem motivar o aluno a escrever, dominando pouco a pouco seu texto, propiciando-lhe a construção de experiências positivas, ainda mais porque está em jogo o despertar da consciência de que a escrita é um processo, como veremos na seção a seguir.

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