DÖRDÜNCÜ BÖLÜM
4. KÜRESELLEŞMENİN ULUS DEVLET ÜZERİNDEKİ ETKİLERİ
4.2. Ulusal Yönetimden Küresel Yönetişime 1 Ulus Devletten Küresel Sivil Topluma
Por influência de um movimento de renovação do pensamento e das elaborações
teóricas por parte das elites intelectuais latino-americanas, entre as décadas de 1930 e
1950, Darcy Ribeiro se propõe à elaboração de uma interpretação baseada em pesquisas
genuinamente latino-americanas capazes de “reinventar” o modo como a sua própria
sociedade - acostumada a ser subjugada e ser colocada numa situação colonial e a
reproduzir os modelos interpretativos vindos dos países “centrais” ou “dominantes” - ,
pudesse se pensar e se refazer. Recebe, assim, influência de cepalinos e isebianos para
pensar a América Latina em suas contradições fundamentais e propor um projeto político
com capacidade de intervenção e mobilização dos povos latino-americanos visando à
superação de sua condição de subdesenvolvimento e dependência.
Mas, para além das análises estruturais, para Darcy Ribeiro, somente uma
revolução de pensamento, com a formação de uma ideologia consistente, direcionada
politicamente para a execução de um projeto para levar os trabalhadores dos países latino-
americanos a formarem elites políticas que não mais correspondessem aos anseios das
elites econômicas, poderia diminuir as desigualdades sociais e promover um
desenvolvimento latino-americano autônomo e independente.
Assim, um aspecto completamente desconsiderado por toda a comunidade
acadêmica brasileira poderia ser retirado da obra de Darcy Ribeiro com relação à América
Latina, a contribuição para a construção de um projeto utópico e ideológico de uma nova
América Latina unida, em uma só Pátria. Idéias completamente desconsideradas pela
cultura política brasileira, mas não pela resistente cultura política hispano-americana.
Darcy Ribeiro seria incluído e debatido por correntes intelectuais militantes e engajadas
57 DEVÉS VALDÉS, Eduardo. El pensamiento latinoamericano en el siglo XX: entre la modernización y la
identidad, tomo 1: Del Ariel de Rodó a la CEPAL (1900-1950). Buenos Aires: Biblos, Centro de investigaciones Diego Barros Arana, 2000.
58 Ibidem, tomo 2: desde la CEPAL al Neoliberalismo (1950-1990). Buenos Aires: Biblos, 2003.
com o desafio de realizar a tão cedo anunciada, por muito tempo suprimida, mas ainda
esperada, revolução latino-americana. Em outras palavras, uma corrente intelectual que
encontra, ainda hoje, ecos em quase toda a hispano-américa, e que passa quase que
completamente despercebida pelo Brasil. A corrente que tentaríamos justificar como a
vinculada a uma Cultura Política de “Nuestra América”.
Darcy Ribeiro desempenharia assim mais um de seus múltiplos papéis intelectuais
junto a uma corrente de intelectuais latino-americanos que trabalhariam para a construção
de uma identidade comum no sentido de conseguir realizar uma velha “utopia latino-
americana”. Para Darcy Ribeiro, em seus diferentes momentos, a melhor alternativa aos
países latino-americanos consistiria em sua união. Uma união que representaria a única
possibilidade efetiva de congregação de forças no sentido da superação também da
situação “neocolonial”. Ainda na visão do autor, a América Latina, enquanto uma “pátria
grande”, ainda não existia, mas tinha plenas condições para existir, pelos seguintes
fatores: (1) Por uma origem comum; uma maça mestiça de ibéricos, negros e índios; (2)
Por uma condição comum: povos colonizados e neocolonizados; (3) Por um problema
comum: o subdesenvolvimento e a dependência; e (4) Por uma necessidade comum:
tornarem-se povos para si
60.
Como professor de Antropologia da Faculdade de Humanidades e Ciências da
Universidade da República Oriental do Uruguai
61, em Montevidéu, Darcy Ribeiro elaborou e
preparou para publicação os primeiros volumes de sua série de Estudos de Antropologia da
Civilização, que constitui sua principal obra intelectual. Obras que Darcy Ribeiro concebeu
no exílio, entre projetos de Reformas Universitárias e participação em projetos de revoluções
latino-americanas. Nas palavras do autor, assim ele teria se descoberto latino-americano, e
portanto não seria mais um provinciano brasileiro “de costas à América Latina”.
Com o passar do tempo, também, percebe-se claramente que com a continuidade da
realização das obras de caráter acadêmico, como O Processo Civilizatório e As Américas e a
Civilização, em determinado momento, quando da elaboração de O Dilema da América
Latina, Darcy Ribeiro mescla partes do livro construídas com base em critérios
eminentemente acadêmicos, e outras completamente distanciadas de tais critérios. Estas
construções chegariam a se comparar a ensaios ideológicos livres de quaisquer
comprometimentos, normas, regras e padrões acadêmicos. O que mais chama a atenção é que
60 RIBEIRO, Darcy. América Latina: A Pátria Grande. Rio de Janeiro: Guanabara Dois, 1986. 61 BRANT, Vera. Darcy. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
esta seria a tônica de todas as produções posteriores de Darcy Ribeiro. Ensaios, militantes e
engajados.
Se seus primeiros livros sobre a América Latina, de caráter acadêmico, tiveram
pouca repercussão no Brasil, seus ensaios passariam a ser completamente ignorados e para
não dizer que tiveram pouca repercussão, pode-se dizer claramente que não tiveram
nenhuma.
O que acreditamos ter acontecido é uma adesão a um tipo específico de
manifestação intelectual por parte dos hispano-americanos, não compartilhada por
intelectuais da abntiga América Portuguesa, que criaram gerações intelectuais em torno de
diálogos estabelecidos com base em ensaios. Nas palavras de Alfonso Reyes o “ensayo”
seria: “el centauro de los géneros, donde hay de todo y cabe todo, propio hijo caprichoso
de una cultura que no puede ya responder al orbe circular y cerrado de los antiguos, sino a
la curva abierta, al proceso en marcha, al ‘Etcétera’ ”
62. O ensaio para John Skirius seria
uma espécie de literatura, metade lírica, metade científica que, no caso da América
Hispânica, se definiria em torno de motivações recorrentes, de modo a identificaras
gerações intelectuais engajadas em uma mesma proposta ao longo do século XX:
Tópicos de época, problemas contemporáneos, cuestiones de interés humano general, llenan las columnas de periódicos y revistas. El ensayista hispanoamericano del siglo XX tiende a describir y enunciar problemas, no a resolverlos. La solución se deja a los científicos, los sociólogos, los economistas y los políticos. En el siglo XX muchos ensayistas han tratado de ser cronistas de suas sociedades más que redentores. Al contrario, los ensayistas hispanoamericanos en el siglo XIX se sentían más seguros de sí mismos al proponer programas de reforma. Sarmiento, Echeverría, Alberdi, Bello, Hostos, Lastarria, Montalvo, Martí y otros tuvieron que cumplir papeles dobles como líderes políticos y como ensayistas. González Prada y Vasconcelos llenaron el perfil de esos buscadores decimónicos de la utopía mejor que la mayoría de sus contemporáneos en el siglo XX. No obstante, los ensayistas del siglo XX actúan también como estadistas, políticos, conferencistas, educadores, académicos, editores, directores de publicaciones y periodistas. Quieren producir un impacto en la sociedad, pero eluden hacer los diseños de la utopía en la que era de los especialistas y los tecnócratas63.
Para John Skirius, em torno dos ensaios latino-americanos teriam se unido,
debatido e dialogado, ensaístas como: os peruanos Manuel Gonzáles Prada, José Carlos
Mariátegui, Luís Alberto Sánchez, Sebastián Salanzar Bondy, José Miguel Oviedo e
62 REYES, Alfonso. Apud: SKIRIUS, John (comp.). El ensayo hispanoamericano del siglo XX. México: FCE,
2004, p.11.
Mario Vargas Llosa; o nicaraguense Rúben Darío; o uruguaio José Enrique Rodó; os
cubanos Fernando Ortiz, Alejo Carpentier e Guillermo Cabrera Infante; os mexicanos José
Vasconcelos, Alfonso Reyes, Octavio Paz, Elena Poniatowska, Gabriel Zaid, Carlos
Monsiváis e Enrique Krauze; o guatemalteco Miguel Ángel Asturias; os venezuelanos
Mariano Picón-Salas e Arturo Uslar Pietri; os colombianos Germán Arciniegas, Eduardi
Caballero Calderón e Gabriel García Márquez; os chilenos Pablo Neruda e Gabriela
Mistral; o guatemalteco Luis Cardoza y Aragón; o porto riquenho Rosario Ferré, e, por
fim, os argentinos Ezequiel Martínez Estrada, Jorge Luis Borges, Enrique Anderson
Imbert, Ernesto Sábato, Julio Cortázar, Néstor García Canclini, Beatriz Sarlo e Héctor
Libertella; entre outros
64.
Alguns desses autores são novamente mencionados quando da montagem de um
curso cujo tema era “Pensamiento de Nuestra América: autorreflexiones y propuestas”
ministrado por Roberto Fernández Retamar, para o CLACSO, Consejo Latinoamericano
de Ciencias Sociales, com a proposta de que fosse um curso sobre a importância das idéias
na construção de alternativas para a realidade latino-americana: “Pues, lo que se aborda en
este curso es el pensamiento, antes que las realidades sobre las que se piensa”
65.
Ao considerar os principais ensaístas que comporiam a trajetória do pensamento
sobre “Nuestra América”, Roberto Fernández Retamar dá destaque, em âmbito latino-
americano, aos seguintes autores, sempre em diálogo com a idéia de Utopía forjada por
Thomas Morus: Garcilaso de la Vega, Gastón García Cantú, Félix Weinberg, Alfonso
Reyes, Pedro Henríquez Ureña, Rafael Gutiérrez Girardot, Ezequiel Martinez Estrada,
José Lezana Lima, Darcy Ribeiro e Luis Britto Garcia. Esses acompanhariam e manteriam
viva a memória dos autores clássicos do pensamento utópico revolucionário latino-
americano - Hidalgo, Morelos, Bolívar, Símon Rodríguez, Bilbao, Juárez, Martí, Manuel
Gonzales Prada, Mariátegui
66- e portanto fariam parte também da identidade intelectual
militante por “Nuestra América”.
Retamar chega a dizer que, para além da contribuição para a formação de
identidade latinoamericana em torno da “Utopía de Nuestra América”, alguns autores
eram também muito importantes porque, por meio de seus escritos, teriam conseguido, a
partir da América Latina, alçá-la e equipará-la ao nível de qualquer outra importante
64 SKIRIUS, John (comp.). El ensayo hispanoamericano del siglo XX. México: FCE, 2004, p.883-8, passim. 65 FERNÁNDEZ RETAMAR, Roberto. Pensamiento de Nuestra América: autorreflexiones y propuestas.
Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales-CLACSO, 2006.
região o mundo, por repensar a sua condição, a partir da América Latina – Cap.8:
“América en la história, América piensa al mundo”. Entre eles estariam Eric Willians,
Aimé Cesáire, Leopoldo Zea, Edmundo O’Gorman, Frantz Fanon, Walter Rodney, Atilio
Boron, e novamente Darcy Ribeiro
67.
Adolfo colombres elabora um ensaio, dedicado a contribuir para o reforço da
“Utopía de Nustra América”, entitulado América Como Civilización Emergente
68, em qu
ele diz na primeira frase do livro: “Este libro se origina en la consciencia de que Nuestra
América ha comenzado el tercer milenio casi sin proyectos colectivos capaces de
afirmarnos ante al mundo como una civilización emergente, esa provincia humana nueva
a la que se refería Darcy Ribeiro”
69. Um pouco mais a frente diria Comlombres:
En un plano más próximo, quiero honrar aquí, con un sentido acto de memoria, a Guilhermo Bonfil Batalla y Darcy Ribeiro, quienes fueron mis amigos y maestros, y murieron en la ultima década del siglo anterior. Ambos dejaron planteado el problema civilizatório, tras avizorar las cuestiones que más pesan en el despunte de este nuevo milénio70.
Todo este trabalho de Colombres não somente cita as obras e as idéias de Darcy
Ribeiro, e chega mesmo a se utilizar do mesmo aparato conceitual elaborado por Darcy
Ribeiro para propor, no terceiro milênio, a América Latina como uma Civilização
Emergente.
Apropriação conceitual de Darcy Ribeiro poderia ser encontrada facilmente, ainda,
no livro La Nación Sudamericana: del imperativo histórico-cultural a la realización
económico-política, de Carlos Piñeiro Iñiguez
71.
O autor Ernesto Jorje Tenembaum, ao elencar alguns autores que, de acordo com a
sua visão, teriam contribuído para o pensamento utópico de Nuestra América, inclui
também Darcy Ribeiro. Em verdade, chega a dar destaque a Darcy Ribeiro, não somente
por ter repensado a América Latina, ou por ter participado de projetos de governo, junto a
líderes latino-americanos os mais importantes, mas principalmente por servir de referência
67 Ibidem. Cf. Cap.8: América en la história, América piensa al mundo, p.79-82.
68 COLOMBRES, Adolfo. América como Civilización Emergente. Buenos Aires: Sudamericana, 2004. 69 Ibidem, p.7.
70 Ibidem, p.9-10
71 PIÑEIRO IÑIGUEZ, Carlos. La Nación Sudamericana: del imperativo histórico-cultural a la realización
económico-política. Buenos Aires: Instituto del Servicio de la Nación – ISEN; Grupo Editorial Latinoamericano Nuevohacer, 2004.