DÖRDÜNCÜ BÖLÜM
4. KÜRESELLEŞMENİN ULUS DEVLET ÜZERİNDEKİ ETKİLERİ
4.1. Küreselleşme Sürecinde Ulus Devletin Dönüşümü 1 Küreselleşme ve Ulus Devletin Çatışması
Na hipótese de futuramente perseguirmos os itinerários intelectuais de Darcy
Ribeiro sobre relacionados com a sua produção sobre a América Latina, procuraríamos
relacionar sua trajetória intelectual, bem como as suas principais idéias, com o debate
intelectual sobre o tema do desenvolvimento latino-americano entre as décadas de 1950 e
1990. E em nossa opinião esse debate intelectual não poderia se desvincular das idéias
propugnadas pelo conjunto de autores reunidos em torno da CEPAL.
Como principais referência dos pensadores que mativeram diálogo entre as idéias
do subdesenvolvimento da Cepal e do ISEB, teríamos alguns trabalhos de Celso
Furtado
40, e pontos de diálogo exemplificados por Gunnar Myrdal
41, além de uma breve
análise dos mesmos, realizada por Reginaldo Moraes
42.
Mas sem dúvida nenhuma os trabalhos de maior impacto sobre as construções
teóricas de Darcy Ribeiro sobre a idéia de desenvolvimento e subdesenvolvimento
estariam vinculadas à idéia de centro-periferia do maior dos autores cepalinos, Raúl
Prebish
43.
Seria possível estabelecer uma trajetória que partiria da década de 1950, com so
surgimento do tema do subdesenvolvimento na Cepal, passando por uma reflexão em
torno do impacto de tais idéias na elaboração dos trabalhos nacionalistas e
desenvolvimentistas do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB, para chegar a
como Darcy Ribeiro incorporou à sua interpretação da América Latina elementos tanto do
ISEB quanto da CEPAL, diferenciando ou o quê proviria do ISEB e o quê proviria da
CEPAL, para vincula o próprio Darcy Ribeiro a um diálogo com autores cepalinos que se
estenderia até a década de 1990, desde os trabalhos de Darcy Ribeiro publicados na
década de 1970, tais como, As Américas e a Civilização e O Dilema da América Latina,
até a crítica cepalina do neoliberalismo elaborada pelo mesmo autor na década de 1990.
Em outras palavras, seria pertinente buscar os fundamentos teórico-metodológicos
das obras de Darcy Ribeiro, principalmente nas influências que sofreu de correntes de
40 FURTADO, Celso. Desenvolvimento e Subdesenvolvimento Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961. Idem.
Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968a. Idem. Perspectivas da economia brasileira. Rio de Janeiro: ISEB, 1958.
41 MYRDAL, Gunnar. Teoria Econômica e regiões subdesenvolvidas. Rio de Janeiro: ISEB, 1960.
42 MORAES, Reginaldo. Celso Furtado: o subdesenvolvimento e as idéias da Cepal. São Paulo: Ática, 1995. 43 PREBISCH, Raúl. Dinâmica do desenvolvimento latino-americano. São Paulo: Fundo de Cultura do Brasil,
pensamento com que entrou em contato nas décadas de 1950 e 1960, as acima
mencionadas ISEB e CEPAL, para posteriormente, compreender o intenso diálogo que,
nas décadas de 1970, 1980 e 1990, Darcy Ribeiro estabeleceu com as diferentes correntes
da Teoria da Dependência sobre o caráter do desenvolvimento latino-americano.
Para a compreensão dos trabalhos desenvolvidos pela Cepal, tomaríamos como
referência a obra de Octávio Rodriguez
44, que delineia alguns dos principais conceitos
articuladores da teoria da dependência em questão: a concepção do sistema centro-
periferia, a teoria da deterioração dos termos de intercâmbio e o tema da industrialização
periférica
45etc. Estes conceitos teriam importante fundamentação nos trabalhos de Raúl
Prebish
46, junto de outros intelectuais da própria Cepal
47, no sentido de aproximar suas
análises econômicas à elaboração da tese do subdesenvolvimento.
Apesar de não compor oficialmente os quadros do ISEB nem da Cepal, Darcy
Ribeiro se colocou como um dos principais porta-vozes desses grupos políticos, não
somente no Brasil, mas também, como já visto, em outros países latino-americanos. E
uma de nossas preocupações é conseguir comprovar a existência de relações entre
conceitos elaborados por pensadores destas instituições e os conceitos elaborados pelo
próprio Darcy Ribeiro no tocante aos problemas e perspectivas de superação dos mesmos
pelos países latino-americanos.
Como estas idéias deram origem ao pensamento imperialista sobre a dependência,
ou a “a teoria da superexploração”, muito próxima das correntes mais radicais da esquerda
latino-americana, pois tomava os golpes militares como ponto de legitimação do
imperialismo estadunidense sobre o continente, ou pior, como um instrumento dessa
dominação, contaríamos com os trabalhos de André Gunder Frank
48, Ruy Mauro Marini
49e Theotônio dos Santos
50.
44 RODRIGUEZ, Octavio. Teoria do subdesenvolvimento da cepal. Rio de Janeiro: Ed. Forense-Universitária,
1981.
45 Há, com o passar dos anos, o surgimento de novos temas tratados pela Cepal, como o da industrialização
substitutiva, a preocupação com a inflação, a análise dos obstáculos estruturais do desenvolvimento, enfim, mas que não nos interessa aprofundar, em função do período temporal que selecionamos, décadas de 1950 e 1960, e o problema que perseguimos, a análise do subdesenvolvimento dos países latino-americanos no mesmo período.
46 GURRIERI, Adolfo (org.). La obra de Prebish em la Cepal. México: Fondo de Cultura Econômica, 1982. 47 CEPAL. Cinqüenta años de pensamiento en la Cepal: textos seleccionados.Chile: Fondo de Cultura
Econômica, 1998.
48 FRANK, André Gunder. “Desenvolvimento do Subdesenvolvimento”. In: PEREIRA, Luiz (org). Urbanização
e Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1973. FRANK, André Gunder. Capitalismo y Subdesarrollo en América Latina. México: Siglo XXI, 1971.
49 MARINI, Ruy Mauro. Dialética da Dependência. Petrópolis: Vozes, 2000.
Seguindo o raciocínio de que, dada a impossibilidade de estabelecimento de um
pacto nacionalista de desenvolvimento, decorrente das alianças entre elites econômicas,
extratos militares e empresas multinacionais estrangeiras, não restariam alternativas aos
países latino-americanos senão trabalhar pela revolução socialista, a “teoria da
superexplçoração” emergiria no cenário do continente e influenciaria claramente Darcy
Ribeiro até o final da década de 1970 e início da de 1980, momento em que participa
ativamente da política latino-americana. Essa teoria seria a base essencial para Darcy
Ribeiro, na interpretação da América Latina, e demais países subdesenvolvidos, nos livros
As Américas e a Civilização e O Dilema da América Latina.
Após as experiências revolucionárias de esquerda que não lograram sucesso entre
os países latino-americanos, uma nova perspectiva de análise passaria a se colocar e traria
uma nova possibilidade de integração entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos
dentro da dinâmica cepalina de centro-periferia: estaria aqui o nascimento da Teoria da
Dependência Associada. Para a sua compreensão tomaríamos como principal referência a
obra de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto
51. Mas que foi perseguida e debatida,
pelos próprios autores, e por alguns outros intelectuais
52.
A teoria da dependência associada ganha importância no final da década de 1960 e
início da década de 1970, encontrando repercussão nos Estados Unidos, na Europa e no
Brasil. Partia da idéia de que, já que existiria uma impossibilidade estrutural de
estabelecimento de um pacto entre trabalhadores e burguesia nacional no sentido do
desenvolvimento autônomo, apenas restaria aos países latino-americanos a alternativa de
se associarem ao sistema dominante, como a melhor das possibilidades para o seu
desenvolvimento, mesmo que dentro do subdesenvolvimento. Na visão de Darcy Ribeiro
essa teoria representava a conivência das elites latino-americanas em transformarem os
trabalhadores do continente em um proletariado externo para os países centrais. Na
medida em que os latino-americanos produziam grandes riquezas exportáveis para as
“metrópoles”, somente recebiam em contrapartida o suficiente para a manutenção de suas
elites, às custas de uma intensa concentração de renda, para uma pequena parcela da
51 CARDOSO, Fernando Henrique; FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento na América latina:
ensaio de interpretação sociológica. Rio de janeiro: LTC Ed., 1970.
52 Alguns exemplos são: CARDOSO, Fernando Henrique. O Modelo Político Brasileiro. São Paulo: Difusão
Européia do Livro, 1973. Idem. Política e desenvolvimento em sociedades dependentes. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1971. GOLDENSTEIN, Lídia. Repensando a Dependência. Rio de janeiro: paz e Terra, 1994. TRASPADINI, Roberta. A Teoria da (Inter)dependência: de Fernando Henrique Cardoso. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999; entre outros.
sociedade, e penúria social, para a parcela restante e grande maioria da população de cada
um dos países.
O contraponto à “teoria da dependência associada”, dentro da conjuntura de
fracasso das propostas da esquerda latino-americana nas décadas de 1960 e 1970, e da
intensificação do processo de globalização em que não restaria escolha, aos latino-
americanos, senão a de aderir e se desenvolver pela democracia
53, seria a perspectiva da
teoria nacional dependente, do final da década de 1970 em diante, cujo principal
representante é Luiz Carlos Bresser Pereira
54.
Mesmo que em um primeiro momento tenha servido para justificar as reformas
neoliberais da América Latina nas décadas de 1980 e 1990, serviram também como
contraponto posterior aos resultados, distante dos esperados inicialmente, das mesmas. A
teoria Nacional-dependente ganha corpo, assim, como uma possibilidade de nova reforma
do Estado, no sentido de condicionar a formação de um pacto entre burguesia nacional e
trabalhadores para a integração dos países latino-americanos no sentido de
desenvolvimento autônomo que, só não ocorreria por falta de vontade das próprias classes
dominantes latino-americanas. De certa forma retoma alguns pontos do ISEB e da Cepal,
mas, ao mesmo tempo, reafirma novas necessidades diante da nova conjuntura
internacional das décadas de 1980 e 1990.
Levaríamos com esta discussão ao encaminhamento de uma análise do papel da
perspectiva do desenvolvimento pela dependência no momento das reformas neoliberais
por que passariam os latino-americanos frente a situação atual de crise das mesmas. Em
outras palavras, seria possível relacionar algumas críticas de Darcy Ribeiro com relação
ao Neoliberalismo para reafirmar alguns debates atuais sobre a falsa lógica nacional-
dependente das políticas econômicas latino-americanas ao longo de toda a década de
1990. As análises de Darcy Ribeiro sobre o neoliberalismo das décadas de 1980 e 1990, e
as críticas à lógica nacional-dependente se encontram em algumas de suas obras
selecionadas
55.
53 RIBEIRO, Darcy. América Latina: A Pátria Grande. Rio de Janeiro: Guanabara Dois, 1986.
54 BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Crise econômica e reforma do Estado no Brasil: para uma nova
interpretação da América Latina. São Paulo: Ed.34, 1996. ___________. Reforma do Estado para a cidadania: a reforma gerencial brasileira na perspectiva internacional. São Paulo: Ed.34, 1998. ___________; WILHEIM, Jorge; SOLA, Jorge (orgs.) Sociedade e Estado em transformação. São Paulo: Ed. UNESP; Brasília: ENAP, 1999.
55 RIBEIRO, Darcy. O Brasil como problema. Rio de janeiro: Francisco Alves, 1995a. E: RIBEIRO, Darcy.
Para além da maneira de como se relacionou com cada uma das tendências mais
significativas – as correntes desenvolvimentistas, nacional-progressistas, anti-
imperialistas, dependentistas, integracionistas e neoliberais – , pretendemos compreender
de que forma Darcy Ribeiro se pronunciou a favor de projetos políticos vinculados a um
pensamento das esquerdas latino-americanas das décadas de 1950 e 1960, principalmente
as esquerdas que constituíram seus projetos antes dos golpes militares que acometeram a
América Latina, durantes os anos 1960 e 1970, e interromperam drasticamente os projetos
de democratização social em favor de projetos de “democracia política”
56.
Diante dessa impossibilidade de viabilização dos projetos de esquerda, Darcy
Ribeiro passaria a dialogar com as propostas das próprias esquerdas latino-americanas,
assim como com os projetos políticos de fato implementados pelos governos de diferentes
países latino-americanos, entre as décadas de 1960 e 1990.
Dificilmente conseguimos identificar integralmente Darcy Ribeiro com uma ou
outra das correntes em diálogo. O que nos leva a considerar que ele desenvolve uma
interpretação bastante peculiar da América Latina que, apesar de contar com influências
dos mais diferentes matizes do pensamento latino-americano, possui uma originalidade
que repercute, apenas, de forma restrita, mas nem por isto menos importante, já que, a
compreensão desta originalidade não se baseia na busca de uma exaltação simplista do
objeto de estudo, no sentido de justificá-lo, mas na busca pela compreensão de uma
temática essencial aos latino-americanos quanto à sua história política e social, a quebra
do paradigma nacionalista de desenvolvimento e a drástica instauração e lenta evolução
do paradigma da dependência, partindo-se da perspectiva de um intelectual, Darcy
Ribeiro, que o vivenciou, de um lado a outro, enquanto participante ativo de órgãos de
poder de diferentes países latino-americanos – diretamente, Brasil, Uruguai,
Chile,Venezuela, Peru; e indiretamente, México, Bolívia e Cuba.
Para apreender este percurso intelectual do pensamento latino-americano no século
XX, contamos, como uma referência significativa, com os trabalhos de Eduardo Devés
Valdés, que abarca de forma bastante abrangente o diálogo entre modernização e
56 Sobre a divisão entre democracia social e democracia política, cf: BRESSER PEREIRA, Luis Carlos.
Macunaíma e Emília na terra do amanhã. Folha de São Paulo, São Paulo, 22 de agosto de 2004, Caderno Mais, p.12.