É possível que o culto ao corpo esteja tão socializado quanto a discussão dos conceitos de consciência e pensamento, entre outros. Garcia (2005), ao escrever sobre “Corpo, Mídia e Representação”, fala que “cultuar o corpo implica ressignificar o direito à vida”. Por isso, aqueles que o cultuam, tentam, lentamente, prolongá-lo como forma de apagar a ideia da morte.
Para pensar o corpo, é necessário “(re)velar um pouco mais de perto as nuanças materiais desse contexto, apontado de forma estereotipada como intermediação de um discurso sociocultural entre sujeitos”. (GARCIA, 2005, p. 26). Além disso, segundo o autor, a ideia do corpo aparece como meio fundamental na cultura contemporânea. “Isso implica a inscrição do corpo como primeiro meio de comunicação do homem em seu processo de (de)construção cultural, perpassando diferentes movimentos transicionais de tempo-espaço” (GARCIA, 2005, p. 31). Essa ideia é corroborada por Oliveira e Castilho (2008, p. 75):
O corpo é considerado o primeiro veículo de comunicação e expressão utilizado pelo ser humano para a produção, reflexão e análise do conhecimento. Ao longo da existência humana, as diferentes culturas entenderam e utilizaram o corpo como meio de produção de linguagem assumindo, ora a função de objeto representado, ora de signo em processo de representação.
Complementando esse pensamento, é possível acrescentar que o mundo contemporâneo permitiu que o corpo realizasse atividades relacionadas não só a sua capacidade de produção de saberes, mas também associadas à possibilidade de transmitir mensagens ao adotar diversas modalidades de comunicação. Consequentemente, o corpo é discutido nos diferentes veículos de comunicação de
massa, seja no aspecto da saúde, seja na estética, seja na arte em geral e, mais recentemente, na moda (OLIVEIRA e CASTILHO, 2008).
Com isso, surgiu a moda do corpo perfeito, que segue padrões estabelecidos previamente pela sociedade e difundidos pela mídia. Ainda, para Oliveira e Castilho (2008, p.80):
A supremacia dos veículos de comunicação de massa na criação de padrões ultrapassa os limites estéticos e envereda, muito sistematicamente, sobre o campo que inclui, inclusive, a saúde. É intrigante o modo de como se cria o padrão de beleza por meio de um determinado tipo de “corpo saudável” [...].
Esse “corpo saudável” apresentado pelos meios de comunicação de massa não é um corpo natural, nem precisamente cultural, ao expressar sua dimensão humana. É imagem que representa um ideal de beleza, construído na mídia para ressignificar relações midiáticas.
Segundo Garcia (2005, p.32):
[...] os possíveis artifícios enunciados nessa dimensão de corpo-mídia investem nos traços predominantemente universais, que simulam a idealização de corpo para a comunicação de massa. Um corpo ressaltado de plasticidade, mas comum, para todos!
Com sua influência em expansão, a mídia caracteriza-se por ser um dos principais meios de divulgação e investimento no culto ao corpo, como tendência do comportamento feminino. Os meios de comunicação de massa, em especial a televisão, mantêm-se presentes na vida cotidiana, comunicando as últimas novidades, como invenções e descobertas científicas e tecnológicas, que facilmente se tornam conhecidas e incorporadas ao universo das mulheres das diferentes classes sociais, as quais procuram seguir os novos padrões de beleza. Segundo Peruzzolo (1998, p.38), pode-se dizer que:
A mídia funciona como uma geografia fundamental para as codificações de diferentes corpos em múltiplos aspectos como demarcações significantes que investem densamente valores de percepção, uma espécie de esculpimento do sentido pela manipulação. É em torno dessas construções que se articulam e estabelecem as representações sociais.
Isso quer dizer que os meios de comunicação de massa criam a ilusão de que a visão do corpo, de sua beleza e de seu estado de prazer configura-se em refúgio de imediatidade e vida, no qual o culto ao corpo pode transformar-se num patamar
de prazer e liberdade. A partir dessa construção, é que surgem as compreensões e os processos de interação social em que a imagem do corpo individual é valorizada pela sociedade.
Dessa maneira, nas colunas de aconselhamento das mídias, existem propostas de uma espécie de ideário a ser praticado como seita religiosa, incluindo normas e regras como se fossem mandamentos a serem respeitados para adquirir ou manter a boa forma. No cenário público, os corpos devem ser exercitados a ponto de alcançar o ideal desejado, mesmo que, para isso, seja necessário vencer obstáculos e formas de imperfeição (SANTAELLA, 2004).
A mesma autora enfatiza que o corpo exorbitante é o que se reflete nas imagens das mídias, pois se prolifera na multiplicação desmedida de imagens e nos desdobramentos virtuais expostos pelas novas tecnologias.
Em função disso, nas imagens – em sua enorme maioria, imagens de mulheres, devido certamente ao maior rendimento erótico que dela se espera no mercado dos fetiches – os rostos e os corpos das atrizes e das modelos atingem o paroxismo da perfeição (SANTAELLA, 2004, p.129).
Essa perfeição é pretendida incessantemente, visto que, para alcançá-la, basta obedecer rigorosamente aos padrões de beleza divulgados nas imagens midiáticas. Nelas, todos os corpos são semelhantes, são homogeneizados como resultado da produção de signos, ou seja, “o mesmo olhar sob o mesmo tipo de maquiagem, os mesmos lábios enxertados como manda o ideal de sensualidade do momento”, o mesmo tipo de sorriso, as mesmas posturas e a presença da seminudez (Idem, ibidem).
Nesse contexto, a mídia organiza uma realidade corporal mais vasta do que aquelas das culturas locais e regionais, “de modo tal que em suas representações existe sempre algo de intruso naquilo que os grupos culturais organizam e significam. É isso que faz que a ação da mídia se torne uma influência sempre acumulativa e intrusiva na herança cultural dos aglomerados humanos” (PERUZZOLO, 1998, p.34).
De acordo com esses pressupostos, os meios de comunicação de massa intensificam o culto ao corpo e ao embelezamento feminino, na medida em que apresentam insistente e repetidamente imagens de corpos perfeitos, esculpidos em
academias ou em clínicas de cirurgias estéticas. Logo, seu papel é de estimular comportamentos padronizados, normas de beleza a serem seguidas e um ideal de boa forma e corpo saudável.