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3.1 Bölgesel Jeoloji

3.1.2 Ulukışla havzası

Os Appunti narram a Resistência italiana. Têm início no dia 2 de novembro de 1944, quando Beppe, depois da retomada da cidade de Alba pelos fascistas republicanos da RSI113, volta para as montanhas das Langhe. Contam seu percurso até a chegada na sua base, na Chácara da Langa, onde reencontra os amigos Piccàrd e Cervellino – nomes de batalha de dois irmãos. Acompanhamos literariamente o dia a dia dos partigiani, as pequenas batalhas sobre as montanhas, a prisão de alguns companheiros partigiani por fascistas, a prisão e o fuzilamento de fascistas por partigiani, a relação da população civil com os partigiani, a traição cometida por civis contra os partigiani, os excessos cometidos por partigiani contra civis.

A narrativa tem como centro temporal o período em que os partigiani sofreram as duas piores perseguições de toda a guerra civil, os rastrellamenti– as caçadas114– dos meses

de novembro e dezembro de 1944. A última página inacabada dos Appunti narra o desaparecimento dos companheiros de batalha Piccàrd e Cervellino. Beppe fica só nas montanhas das Langhe.

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Num ato de excessiva confiança, os partigiani tomaram dos fascistas da RSI a cidade de Alba, capital das Langhe e cidade de Fenoglio, em outubro de 1944. Mantiveram a cidade sob suas armas por vinte e três dias e, depois, novamente ela voltou às mãos dos republicanos. O feito da tomada de Alba e a narrativa dos vinte e três dias é narrada por Fenoglio em seu livro de estreia I 23 giorni della città di Alba.

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O termo em italiano rastrellamento vem do objeto utilizado para retirar folhas e frutos de um terreno

rastrello, que em português chama-se rastelo. Obviamente, a tentativa de tradução do termo italiano

rastrellamento evocando rastrello não faria sentido algum. Por isso, optei aqui por priorizar o sentido persecutório e violento do termo optando por ―caçada‖.

Toda a inovação formal que caracterizaria a escrita fenogliana já estava ali antecipada: a secura, a rapidez, as inversões e neologismos, apenas o perfume do dialeto, a ironia. Uma Resistência violenta e não sacralizada, cujos motivos profundos da escolha pela guerrilha continuam a mover o protagonista Beppe.

A escolha dos Appunti como objeto desta pesquisa está ligado ao fato de ser ele o texto de Fenoglio que se remete mais diretamente à experiência vivida pelo autor na Resistência, um texto menos mediado por um projeto estético-literário complexificado posteriormente: o narrador ainda é em primeira pessoa, o protagonista ainda é o

partigiano Beppe, que depois daria lugar ao alter ego Johnny/Milton. Além disso, esse é um texto ainda não perpassado pelas versões anteriores em língua inglesa, que, num crescente, passam a ser a etapa inicial do processo criativo do autor, num projeto literário mais amplo, acrescido de intenso pessimismo dos anos de pós-guerra.

Se ao longo do amadurecimento do Fenoglio escritor seu projeto literário foi se tornando mais complexo e elaborado, por outro lado foi também se afastando da tentativa de narrar uma experiência subjetiva. Embora permanecessem de fundo autobiográfico ao longo de toda a sua produção, os textos da maturidade ganham inúmeros outros pontos de acesso, todos eles muito frutíferos e de extremo rigor formal, o narrador, a língua inglesa, o pessimismo e tantos outros. Mas a questão que interessa a esta pesquisa se localiza no limiar entre experiência e literatura, analisada numa primeira tentativa de organização literária de certa experiência, perguntando-se, à luz das problemáticas benjaminianas sobre experiência e literatura, o que a torna literatura e que relação um texto literário pode continuar alimentando com a experiência de que ele é fruto.

Para isso parto agora, na última etapa desta pesquisa, à luz das questões teóricas, sociais, históricas e literárias anteriormente levantadas, para a análise do texto contido nos

Appunti partigiani, de Beppe Fenoglio115.

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O texto dos Appunti foi na íntegra por mim traduzido. O esforço tradutório do apêndice desta pesquisa foi realizado no sentido de aprofundar a relação com o texto e permitir a citação em língua portuguesa dos trechos utilizados na análise contida no próximo capítulo. Recomendo a leitura do apêndice (que consta também do original) antes da leitura do terceiro capítulo, por acreditar que algo da genialidade e da concisão do texto de Fenoglio (que não se pretende totalmente recuperável na tradução proposta no apêndice) certamente se perde na necessidade de descontextualização operada numa análise.

Capítulo III

1 Os Appunti em sua materialidade

O livro Appunti partigiani é composto de pouco mais de 80 páginas, numa edição de capa branca, com formato ainda menor do que uma folha A5. Inacabado, o livro se divide em oito capítulos, escritos em algarismos romanos no começo de cada nova parte. O Cap. VIII, a última parte que chegou até nós, é composto de apenas uma página, cuja última frase, ―Cervellino fuzilam um dia desses, e Piccàrd vão enfiar em alguma brigata nera‖, acaba, abrindo vereda para o infinito, num indescritível ―e vão levar pra ca- [...]‖116, fragmento que encerra também a quarta caderneta utilizada por Fenoglio para a escrita de suas anotações. Da possível, quase certa, quinta caderneta e da continuação daquela narrativa nunca tivemos notícia, o que deixa a história que carrega esse pequeno livro de capa branca, que pode ser lido em pouco mais de uma hora, ainda mais sutil, despretensiosa e bela.

A narrativa se desenrola num estilo rápido, que oscila principalmente entre o trágico e o irônico, chegando, em momentos de especial concisão, num humor explícito. O enredo, difícil de ser resumido, trata de um sem número de acontecimentos-peripécias, encontros com muitos personagens mais ou menos relevantes e reincidentes, além de transitar por pequenos povoados, cujos nomes pouco se repetem, em passos rápidos que fazem jus ao ambiente perigoso e instável descrito pelo autor.

Numa tentativa tanto didática quando dialética, proponho, num terceiro momento desta dissertação, uma análise mais detalhada do livro Appunti partigiani, de Beppe Fenoglio. A metodologia empreendida é devedora de duas fontes: a primeira consiste do arsenal metodológico oriundo da análise realizada pela teórica Maria Corti de outros textos neorrealistas117, a segunda consiste no próprio texto contido nos Appunti partigiani – a

divisão em temas recorrentes e as questões linguísticas abordadas foram exigidas pelo

116―Cervellino lo fucilano uno di questi giorni, e Piccàrd lo ficcheranno in qualche brigata nera e lo

porteranno a ca-‖ (FENOGLIO, 1994, p. 84).

117

texto e seus componentes; à metodologia de análise imposta pelo texto de Fenoglio se somam os procedimentos de Maria Corti na tentativa de uma análise de maior amplitude e precisão teórico-crítica. A estratégia de análise visa ainda não aniquilar a experiência de leitura do livro, mas ajudar na compreensão de seus temas e problemáticas à luz das questões históricas e teóricas levantadas nos dois capítulos precedentes.

2 Os Appunti em suas constantes neorrealistas

Maria Corti, em seu estudo de alguns textos neorrealistas, busca elaborar uma sistemática de funcionamento desses textos (exemplo desse esforço são as ―Constantes‖, abordadas no segundo capítulo). Para isso identifica mecanismos recorrentes em muitos textos neorrealistas que, como tentarei aqui mostrar, ocorrem também nos Appunti de Fenoglio. Segundo Corti, é no ponto de encontro entre o nível temático e o formal que se cria uma lei constitutiva de textos literários, também para os neorrealistas. Por isso, não basta se ater aos fatos narrados, num nível apenas temático, para se perceber as características que justifiquem uma etiqueta para um movimento, no caso a de ―neorrealista‖, embora, ressalva feita novamente também pela teórica, o Neorrealismo não tenha conseguido constituir uma ―poética codificante‖ comum a muitos textos.

Premissa feita, a autora segue na tentativa de categorização, dividindo o problema do conteúdo em dois: campos temáticos e estruturas semióticas e ideológicas.

O campo temático ou metafórico, para Corti, é por vezes amplo e geral, a ponto de estar presente em todo texto neorrealista – a coletividade, as classes sociais, o regionalismo enquanto emblema da realidade – e outras vezes podem ser mais limitados, com frequência em oposição a outro – resistentes x fascistas, homens íntegros x animalescos, agricultor x burguês, campo x cidade, inteligentes x obtusos, fascistas x garibaldinos.

Já as estruturas semióticas e ideológicas pertencem a um campo metafórico de uma ―região do espírito‖, são ―orgânicos e coerentemente articulados e exprimem um conjunto de valores para uso cotidiano de uma classe de intelectuais‖, são eles os conceitos de Natureza, Homem, Solidariedade dos Humildes e Oprimidos, Esperança no

Futuro, Fé no Renascimento, que funcionam como um ―universo de moralidade, utópico e atemporal‖.

Nas estruturas semióticas e ideológicas reside, segundo Corti, uma chave para a compreensão da chamada ―falência dos textos neorrealistas‖. Estes eram textos que pretendiam incidir sobre a realidade social, e se colocavam num novo lugar, tanto temática quanto linguisticamente, em relação à produção literária anterior a eles. No entanto, ―psicológica e ideologicamente se apoiava[m] em modelos culturais do passado‖: ―Por isso os livros neorrealistas são tão datados e os seus autores (...) tão pouco intrépidos para brincarem com os séculos‖118.

Entre as mudanças formais, Corti identifica um primeiro grupo de inovações ligado ao uso dos italianos regionais em consonância com a língua literária. A autora chama atenção para o fato de que os novos conteúdos exigiam uma nova forma. Em reação a essa exigência, os neorrealistas optaram por uma aparente ―não atenção‖ com a língua, a partir de diálogos que faziam uso de uma língua falada regional ou dialetal, sendo essa uma escolha comum a todos os textos, uma ―invariante‖. A escolha pela língua falada tentava acompanhar a escolha pela objetividade temática: ―Em outras palavras, se aspira a unificar a língua literária com o nível baixo, com os estratos lingüísticos das massas. (...) Parecia desse modo aos escritores ser possível entrar na história, também em nível lingüístico‖119.

Em seguida, Corti anota ainda outras duas importantes observações, a primeira ligada ao fato de que as novidades linguísticas vindas da tradição popular e modificadas pela experiência da resistência, já existentes na imprensa clandestina da Resistência, foram absorvidas e transferidas pelos escritores neorrealistas a um plano de consciência literária; a segunda trata da forte separação ocorrida naquele momento entre prosa e poesia.

Como consequência, o novo registro linguístico dos escritos neorrealistas abunda de exemplos em que estão misturadas as influências populares com as estruturas literárias.

118

CORTI, (1978, p 70).

119

A mesma mistura acontecia em nível vocabular e fonético, apesar de, para a literatura, a importância das variações fonéticas dos italianos regionais, bem como a da gestualidade da língua falada, terem sido, por motivos óbvios, menor do que no cinema: ―No meio do caminho colocaríamos os três pontinhos, que (...) são muito freqüentes e servem para tantas coisas, a gestualidade anexa ao diálogo, o nível interior, psicológico‖120.

Um segundo grupo de inovações é analisado por Maria Corti em âmbito sintático, composto por três elementos fundamentais: a prosa documental, com os usos de parataxe121, a reprodução mimética do diálogo, com suas redundâncias, formas exclamativas e interrogativas, e a frequente conversa com o leitor.

O terceiro e último grupo de inovações identificado por Maria Corti nos textos neorrealistas diz respeito à ―criolização122 do léxico e mistura do código, em nível lexical e fraseológico‖ e trata da mistura de italianos regionais e dialetos, já presente na imprensa clandestina. Sobre este último grupo, Corti avisa da dificuldade em se proceder a uma análise atenta dessas inovações, dada sua sutileza e a diferente função que desempenham nos textos e nos personagens a que são atribuídas, gerando um efeito descrito por Italo Calvino como uma presença de ―frases italianas de quem pensa em dialeto‖123.

O texto de Beppe Fenoglio dialoga com todas as questões levantadas até aqui por Maria Corti, mas impõe modificações e ajustes e acrescenta problemáticas temáticas, ideológicas e linguísticas. Por isso, a análise que aqui se segue é fruto da junção das duas coisas: a necessidade do texto com o aparato crítico a posteriori.

120

CORTI (1978, p. 78).

121

Coordenação, ou parataxe, é a construção em que os termos se ordenam numa seqüência e não ficam conjugados num sintagma. Na coordenação, cada termo vale por si e a sua soma dá a significação global em que as significações dos termos constituintes entram ordenadamente lado a lado (CAMARA JR., 2000, p. 86).

122

Creolizzazione, no original, indica, em sentido amplo, mistura, não pureza de uma língua. Oriundo de

creolo (crioulo, em português), adj. m. 1. Se diz de pessoa de raça branca nascida na América centro- meridional de colonos europeus ou de pai europeu e mãe indígena. 2. Se diz de fala híbrida surgida do contato de uma língua europeia com línguas indígenas dos países centro-americanos (Dizionario Garzanti della Lingua Italiana, 1998).

123

3 Os Appunti para fins analíticos

A análise dos Appunti foi então dividida em três momentos, todos eles acompanhados de partes do livro: o primeiro visa conceituar o livro Appunti partigiani em relação à questão experiência-literatura levantada no capítulo anterior; a segunda trata das questões de conteúdo, com divisões e subdivisões sugeridas pelo texto e acrescidas das categorias sugeridas por Maria Corti para outros textos e aqui aplicadas aos Appunti; a terceira chega ao nível linguístico e às inovações operadas por Fenoglio, sempre com o auxílio do que Corti postulou para outros textos.

Benzer Belgeler