Diante de tantas inquietações já apresentadas pelas pesquisas aqui mencionadas, encontramos a tese de Francisca Gorete Bezerra Sepúlveda (2009), Educação de Jovens e
Adultos: análise da política e da prática de formação de educadores no Programa Brasil Alfabetizado, que nos revela as práticas das políticas públicas de formação inicial e
continuada dos educadores de jovens e adultos. Essa pesquisa, apresentada na Universidade Católica de São Paulo, teve como objetivo investigar os avanços e as dificuldades na formação dos educadores de jovens e adultos, no período de 2000 a 2006, tendo como foco o PBA (2003 e 2006) e o MOVA/Guarulhos.
Para demonstrar a fragilidade ainda existente na AJA, a pesquisa traz à tona a insistência dos programas em professores leigos no processo de formação e deixa uma lacuna em relação à formação e à qualificação dos professores na alfabetização de pessoas jovens e adultas. Ao mesmo tempo, apresenta a falta de compromisso do PBA, como política pública, em capacitar seus alfabetizadores, quando coloca o programa nas mãos de instituições alfabetizadoras, por meio de convênios, e a responsabilidade da gestão da alfabetização, dando-lhes autonomia para promover a formação inicial dos alfabetizadores e escolher uma metodologia. Sepúlveda (2009) deixa clara a distância entre quem pensa e quem faz a educação de jovens e adultos, o que torna a gestão e o educador sujeitos do processo, e os educandos, meros objetos (MARMOZ, 2003).
Sepúlveda (2009) apresenta o PBA como uma política pública que foi criada para atender às pessoas jovens e adultas que não tiveram acesso à escolarização na infância, e cujo objetivo específico era de abolir o analfabetismo no país até o ano de 2006. Lembra também que o Ministro Cristovam Buarque anunciava o PBA como meta prioritária para resolver o problema da alfabetização de pessoas adultas até o final do mandato do presidente Lula e usava o slogan “O Analfabetismo Zero”, como objetivo central do PBA. Todavia, recorda que, para o ministro, o público de professores para o Programa seriam educadores das escolas públicas que trabalhariam em turno inverso ao da escola. Nesse sentindo, vislumbrava diminuir os índices de analfabetismo no Brasil. No entanto, a proposta não chegou a se
concretizar, visto que o Ministro Cristovam Buarque deixou o cargo, que foi assumido pelo Ministro Tarso Genro.
Com esse contexto, os alfabetizadores do PBA tinham a realidade de pessoas voluntárias, muitas vezes, apenas com o ensino médio e sem nenhuma formação específica para a metodologia da alfabetização. Assim, a pesquisadora resolve investigar os avanços e as dificuldades na formação dos educadores de Jovens e Adultos, tendo como foco o PBA (período 2003 e 2006) e o MOVA/Guarulhos.
A política de formação dos educadores do MOVA/Brasil Alfabetizado contava com uma equipe composta de seis coordenadores e uma assessoria pedagógica, responsáveis por todo o planejamento e pela execução das formações iniciais e continuadas dos alfabetizadores. Também promoviam realizações de fóruns, encontros regionais, nacionais e preparavam o material didático para as formações. Com todo esse aparato, a pesquisadora resolve averiguar a política de formação dos alfabetizadores, tendo-a como universo de pesquisa.
Ainda escutando os alfabetizadores, cuja maioria não tinha formação específica na área de educação, a pesquisa também mostra as fortes reivindicações deles em expressar o desejo de ser tratados como profissionais, apesar de serem conscientes dos limites, e apontam a necessidade de qualificação e de condições para trabalharem como educadores da EJA.
Mesmo não sendo o processo de continuidade o foco da referida pesquisa, a autora também resolveu conhecer um pouco dos alfabetizandos do Programa. Nesse ponto, ela (2009) anuncia elementos que demonstram alguns motivos pelos quais os alunos ainda continuam estudando, como podemos perceber em seu relato:
Em geral, o que esses alfabetizandos têm mais em comum é o desejo de aprender a ler, escrever e contar, e com isso eles acreditam conseguir um futuro melhor para si, e, principalmente para seus filhos. Atribuem ao fato de aprenderem a ler, escrever e contar uma perspectiva melhor de empregos e de melhores salários, além de outros benefícios, tais como: facilidade de se comunicar, de ensinar as lições escolares aos seus filhos, entender uma bula de remédio, ler a bíblia e outros livros, assumir uma liderança política em sua comunidade, entender as contas domésticas e os serviços bancários e outras aspirações pessoais (SEPÚLVEDA, 2009, pp.187-188).
Os indícios mostram que as aspirações pessoais estão fortemente presentes nas falas dos alunos. Mesmo com a presença de motivos que envolvem dimensões maiores, como ser líderes políticos e ter a possibilidade de conseguir um emprego e salário bons, seriam as
aspirações mais práticas do seu cotidiano motivos fundamentais para a linha da continuidade nos estudos? Acreditamos que não apenas isso, mas também a possibilidade de conquistar a equidade, a justiça e aigualdade de condições para o desenvolvimento humano, independentemente de credo, raça, classe social etc. Quando falam dos desejos, revelam o quanto gostariam de ler para ajudar aos filhose aos netos ou assumir condições de vida mais dignas para eles também! O estudo apresenta, nesse sentido, características que dão a certeza de que o nosso estudo é necessário.
É nesse sentido que sentimos a necessidade de apresentar, na análise da pesquisa de Sepúlveda (2009), os resultados do Programa, no que se refere à continuidade dos estudos dos alunos participantes do MOVA/ Brasil Alfabetizado – Guarulhos/SP:
Quadro 7: Resultados do Programa, no que se refere à continuidade dos estudos dos alunos participantes do MOVA
Alunos que frequentaram as aulas do MOVA/Brasil Alfabetizado
3.508
Alunos evadidos do Programa 962 (27,50%)
Alunos que cursaram até o fim do Programa 2.546 (72, 50%) Alunos que manifestam intenção de continuar seus
estudos
1.799 Alunos que deram continuidade aos estudos no Ensino
Supletivo 470 (13,50%)
Alunos que deram continuidade aos estudos nas salas de EJA
127 (0,3%)
Fonte: Tese de Francisca Gorete Bezerra Sepúlveda - Educação de Jovens e Adultos: análise da política e da prática de formação de educadores no Programa Brasil Alfabetizado – 2009.
Segundo os dados da pesquisa supracitada, dos 127 alunos que foram estudar nas salas da EJA, 48% voltaram para as salas do MOVA/Brasil Alfabetizado. É curioso e necessário pensar nesse retorno. Quais seriam os motivos? É preciso lembrar que esses alunos não deixaram de estudar, porém deram continuidade aos estudos sem prosseguir na escolarização, ou seja, permanecendo nas salas de alfabetização. Um número baixo de alunos continuou a estudar. Portanto, é preciso investigar por queuma população de tantos alunos participantes de Programas de Alfabetização e do segmento da EJA deixa os estudos, e outra parcela continua percorrendo a difícil tarefa de conciliar a vida cotidiana (casa, família, religião, emprego, etc...) com a escola.
Em meio a tantas inquietações, a referida pesquisa considerou, no final, que há uma exigência mínima na política pública de EJA a respeito da qualificação e habilitação para o exercício da docência. Afirma também que as propostas atendem às principais necessidades de um currículo para a EJA, porém as metodologias estão distantes da realidade da maioria dos alfabetizadores, que não têm uma formação pedagógica com competências e habilidades necessárias para a prática pedagógica do processo de alfabetização de jovens e adultos. Quanto à política de formação dos educadores para a EJA, a autora considera alguns avanços nas temáticas e nas propostas, no entanto, entende que ainda há muitas fragilidades a serem sanadas,com políticas públicas mais eficazes para todos os sujeitos envolvidos no processo.
3.11 ASPECTOS CONTRIBUTIVOS DO MANUAL DO PNLA/2008 NA FORMAÇÃO DO