3. Kısmi Yerdeğiştirme Yöntem
2.2.2.8 Uçucu Külün Bulunduğu Ortam Koşullarına Dayanıklılık Özellikleri Kılcal Geçirimlilik
Sabemos que o momento atual da nossa pesquisa preocupa-se com os sujeitos “esquecidos” (VAINFAZ, 2002, p.23-24). Nesse sentido, procuramos os “sujeitos religiosos” ou seja:
Escrever a história da experiência religiosa a partir dos sujeitos desta experiência, (...) implicaria, então, em captar o significado da religião a partir do cotidiano das pessoas, da luta pela sobrevivência, etc. E implicaria em perceber a subjetividade que perpassa esta experiência como um dado historicamente relevante (WIRTH, 2001, p.30).
O fiel ganhou dinâmica diferente da estudada pela posição ocupada na luta de classes. Já não é mais simples proletariado, mas sim portador de representações que relativizam sistematizações antes feitassomente pelo critério econômico. Assim, os sujeitos religiosos são rearranjados conforme outros critérios fora do exclusivo materialismo dialético:
A história em seus últimos avanços mostrou, conjuntamente, que é impossível qualificar os motivos, os objetos ou as práticas culturais em termos imediatamente sociológicos e que sua distribuição e seus usos em uma sociedade dada não se organizam necessariamente de acordo com divisões sociais prévias, identificadas a partir das diferenças de estado e de fortuna. As novas perspectivas abertas para pensar outros modos de articulação entre as obras ou as práticas e o mundo social são, pois sensíveis ao mesmo tempo à pluralidade das clivagens que atravessam uma sociedade e à diversidade dos empregos de materiais ou de códigos partilhados (CHARTIER, 2002, p.67).
Dessa forma, o conceito da História construída a partir do “pobre” da CEHILA tornou- se uma problemática posta pela contemporaneidade. Esgotado ou não, os questionamentos atuais sobre osfiéis, suas práticas cotidianas, as representações, no campo religioso brasileiro, não encontram respostas analisando esse fiel apenas pela posição ocupada na luta de classes. A captura de outras dimensões dos sujeitos religiosos é o grande desafio dos historiadores atuais.
Assim as diferentes historiografias não seriam ingênuas. O que para Paulo Suess se expressa na existência de quatro tipos de historiografias. Apologética, evolucionista, historicista e o que ele denomina historiografia advocatória ou anti-sistêmica. Isto aponta para o que se chamou, dentro da Igreja na América Latina, de historiografia a partir do pobre, dado fundamental na proposta dos historiadores da CEHILA. O pobre, descoberto primeiramente no índio, depois no negro, no mestiço, no camponês, no operário, na mulher, aparece como o horizonte hermenêutico que estaria definindo todo o trabalho. Representar os interesses dos pobres, das vítimas, das maiorias silenciosas, seria estar mais próximo da verdade. Para Henrique Dussel, esta história da Igreja deveria ser escrita como uma expressão da militância.(LONDOÑO, 1995, p.205)
A historiografia institucional orgânica de forma geral, não se preocupou com as representações plurais, difusas, que pudessem surgir em meio às comunidades presbiterianas. Essas eram atribuídas ao catolicismo, em especial à população católica pobre.Como apontou Wirth, movimento não só historiográfico protestante mas tradicional da teologia cristã- ocidental:
A emoção, a subjetividade, a percepção do sagrado como uma força, uma energia, quando não censuradas e combatidas, são toleradas como um aspecto da religião a ser domesticado, direcionado e integrado segundo a lógica dos dogmas normativos ou pela normatividade dos textos sagrados. Assim se desqualifica a percepção popular, sincrética e difusa do sagrado. Os argumentos populares das experiências religiosas, suas atribuições de valor, suas redes de significados, seus códigos de sentido e a forma como tudo isto incide sobre o cotidiano das pessoas são aspectos, reações, apropriações precárias, momento segundo de uma relação com o sagrado, cuja essência é apreendida no saber sistematizado e está fundado em verdades supostamente perenes e universais (WIRTH, 2001, p.26).
A principal construção em relação ao fiel foi da CEHILA a partir dos anos 70. A proposta de organizar uma história geral da América Latina a partir da sobrevalorização da
relação Estado- Igreja mostra-nos a visão dos fiéis. Não podemos generalizar, mas existiu certo consenso, no qual eram uma massa anômala caracterizada para ser conscientizada do seu papel da luta de classes. A CEHILA compôs uma história sobretudo católica, falando pouco do protestantismo. Contudo, os principais escritores do protestantismo já citados (Araújo, Alves, César, Shaull) estavam diretamente engajados na mesma proposta de Igreja.
Entendido como pobre ou alienado, os sujeitos pertencentes a essas denominações protestantes, sobretudo os pentecostais, de modo geral, foram mostrados como sujeitos passivos, ilustrados pela visão cristã do pastor: ovelhas - lobo. As ovelhas eram os fiéis, incapazes de adotar rumos próprios, dada a ignorância e posição na estrutura eclesiástica, que necessitavam da condução de seus líderes e eram naturalmente passivos. Os pastores, principalmente os controladores da instituição, devido a sabedoria e posição eclesiástica, eram os responsáveis pela grande massa de ovelhas. Ao mesmo tempo, possuíam uma grande responsabilidade e um privilégio: deveriam conduzir o rebanho para o rumo certo, cabendo unicamente a eles a decisão sobre o caminhoa ser seguido. Em troca, as ovelhas seguem-no, sem qualquer questionamento ou revolta. Todavia, O lobo é outro, aquele que se veste de cordeiro, o que é inimigo da ovelha e do pastor, e que quer o fim das ovelhas. Ele é o mau e o inimigo político. O enfoque da historiografia, portanto, priorizou quais caminhos foram postos diante do pastor e onde se encontrou o lobo. Evidentemente que a historiografia institucional e militante dividiu-se, atribuindo ao discurso do outro aquele condutor da morte do rebanho.
Freqüentemente a teologia exprime o pensamento das elites, nada tendo a ver com as categorias da religiosidade dos fiéis. A atitude para com a Bíblia, entretanto, é uma exceção significativa. Talvez que não haja nenhum outro ponto em que o pensamento dos fiéis reduplique com tanta exatidão o pensamento da teologia oficial.(ALVES, 1979, p.96)
A analogia que fizemos mostrou o quão eclesiástica foi a historiografia do período; algo para vermos além de fontes secundárias, mas também primárias, pois relataram a disputa
pela memória na instituição.Tratou-se de uma relação que diminui o papel do fiel frente à instituição e valoriza a disputa eclesiástica. Analisou-se apenas a lógica da produção do discurso e pouco a sua recepção:
A presença e a circulação de uma representação (ensinada como o código da promoção sócio-econômica por pregadores, por educadores ou por vulgarizadores) não indicam de modo algum o que ela é para seus usuários. É ainda necessário analisar a sua manipulação pelos praticantes que não a fabricam. Só então é que se pode apreciar a diferença ou a semelhança entre a produção da imagem e a produção secundária que se esconde nos processos de sua utilização”.(CERTEAU,1994,p.40)
Esse obscurecimento do fiel foi uma prática excludente e também permissiva. A não redução do olhar sobre a suas representações reelaboradas não permite a visualização de suas manobras cotidianas num campo religioso, como o brasileiro, essencialmente poroso, agremiador de valores extra-institucionais e condenados. Como afirmou Romano, enquanto foi passivo ele era inocente, isento das responsabilidades, livre de um posterior julgamento de condutas hoje condenáveis, como por exemplo a aliança feita entre IPB e governo militar e as conseqüências em sujeitos vitimados pela repressão governamental.
Este movimento, que tende a esvaziar a consciência do dominado, inocentando-o no interior da luta política e ideológica, ao mesmo tempo possibilita a reprodução das representações dominantes. Isto é, a própria análise da alienação entra como material instituinte do processo de submissão: tenta-se desarmar o dominado apresentando-lhe sua própria imagem como passividade completa. Junta-se aí, silenciosamente, a idéia cristã de comiseração e piedade por séculos movimentada nas relações de dominação.(ROMANO, 1979, p.36)
Essa representação do fiel fazia parte dum cenário prático concreto. Os trabalhos desses estudiosos da CEHILA foram pensados para uma prática eclesiástica. A análise de dados, e aplicações teóricas objetivavam propostas concretas para a Igreja. O exercício acadêmico não estava desvinculado de uma prática concreta à política eclesiástica. A prática acadêmica explicava e poderia ser aplicada como política eclesiástica.
Se a proposta deles era discutível, foi inegável a força do evangelho social para a academia e a perseguição aos que optaram por tal engajamento. Em Araújo, o relato dum
universo mental de perseguição não pode ser negligenciado por parte dos historiadores atuais. Suas entrevistas privilegiaram memórias e representações dos expulsos da Igreja, daqueles que foram perseguidos pelo governo ou ditadura, surgindo então uma vertente justa e plausível, que deixou rastros não explicados sobre aqueles que continuaram na Igreja mesmo depois das mudanças institucionais e políticas. Outros problemas surgiram quando categorias, como perseguidores e perseguidos, foram relativizadas pelo momento atual da historiografia.