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Ao descreverem as dificuldades de montagem e o seu impacto no corpo, os montadores usualmente as descrevem em termos de contextos críticos de montagem. Os contextos críticos estão associados à presença de desconforto e possibilidade de erro, em situações de uso de força, manutenção de posturas, adoção de posturas extremas e dificuldade de alcance visual. Nas falas dos sujeitos os contextos críticos têm sentido análogo ao adotado Duquette, Lortie e Rossignol (1995) e Secchin (2007).

A capacidade dos trabalhadores em identificar os contextos críticos de montagem, a partir do ponto de vista da atividade, proporciona uma visão integrada das diversas dimensões que condicionam o trabalho real de montagem (Tabela 4.15).

Tabela 4.15 - Identificação dos contextos críticos Tarefa

Falas

Posicionamento

Põe o painel inferior, ele é desconfortável colocar... Porque a gente tem que passar as cintas por debaixo dele... quando a gente não colocasse um pedaço de toco. A gente abaixa, senta no chão, ergue e fica segurando ele. E ele é pesado, 2 pessoas... os ombros até adormecem, tem que parar depois... E 2 vai apertando as cintas... coloca as cintas nele, coloca na posição ideal, não posiciona nada é só pré montagem.

A alma é desconfortante posicionar ela, porque a gente fica muito tempo abaixado. A

Coluna.dói.

Daí a gente entra com os 2 laterais. Já tem que medir. É, já as bordas dele é bem justinha, tem que dividir ele bem legalzinho. Porque vai uma

digitalzinha por dentro que emenda os 2.

Furação Mas a alma é desgastante furar os furos de

baixo, ... A gente é mais alto, então temos que ficar abaixados. Só que toda hora tem que trocar de broca porque tem onde fixa a carenagem, é uns quadradinhos. E lá a broca não chega..tem uns furos atras dele. E pra furar ali tem que trocar a broca...

Digital e painel superior também, porque você fica com o pé aqui nessa base e furando aqui, então você fica envergado. E são muitos furos... Daí a gente faz toda a furacão da digital, toda. E na rib 1 também, e na

longarina. A gente fica quase o dia inteiro assim, do jeito que eles estão. 4

-Quase o dia inteiro. ó que o pé é mais embaixo, é nessa base aí. Base preta.

R- Aí dói tudo. A sorte é que a cada 15 dias...

Furação das ribs, porque muitas horas forçando as costas. R- Quando piora, com pouca gente, quando melhora, mais gente.

R-Do revestimento inteiro a mais difícil é a 2 e ½...

R- Nesse caso também a 2 e ½.

Na digital é ruim porque a gente já entra com a rib cravada, daí o pino quase encontra com o outro. Aí tem lugar que a gente coloca briston, é ruim de colocar.

Cravação da cinta superior é a mesma que digital, é a mesma que a emenda. Muitas horas forçando as costas e as pernas, Piora quando tem pouca gente.

- -A alma, a espessura dela é fina, só pra dividir porque na verdade são 2 tanques, né... direito e esquerdo. Vamos supor que aconteça um acidente e escapa o stub e fura a alma.. e daí? Vai ou fazer uma emenda com uma bolacha pra tapar aquilo ou vai matar o tanque...

- Nesse caso mataria o tanque, porque vai tirar a alma.... Não tem como...

Escareação Eu já fui em tanto médico aqui da fabrica

que eu não escareio mais não. Não agüento 4 furos - 4 furos o ombro já trava...

Eu mesmo não escareio muito não, só se for necessário. Dói o ombro... O ombro, punho, braço...

- Não chega uma hora...

- Eu escareio 15 minutos...- É muito furo. - Pra escarear em baixo... que você tem que

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(“do jeito que eles estão” é referente a procedimento de confrontação com fotografias dos contextos críticos

ficar deitado pra escarear.

É muito repetitivo...

As atividades de posicionamento têm início com a pré-montagem que significa colocar a peça no lugar. Uma vez na posição correta é passada a furação e em seguida os glecos. Na pré-montagem do painel inferior, foram passadas cintas para suspensão do mesmo, contudo o suporte das cintas não oferece a precisão e os ajustes do suporte manual. Deste modo, dois montadores passavam para a parte inferior dos tanques, por baixo do GM, sentavam no chão e com os membros superiores ajustavam a posição da peça até o ponto correto de furação e passagem dos glecos. Nesta atividade ocorria postura estática em flexão dos ombros acima de 90°. Na furação do painel inferior, os montadores sentavam em cadeiras com rodízios que ofereciam suporte ao tronco e diminuíam a flexão dos ombros.

Destaque-se, no posicionamento do painel inferior, a ocorrência de meta- operação de descanso que ocorria ante a percepção de desconforto ou sobrecarga. Pôde-se observar a adoção de duas estratégias de gestão da carga de trabalho: uma primeira era a pausa e uma segunda era a adoção de alguma tarefa mais leve como uma anotação ou registro.

Nas diversas operações de montagem da alma, descrita como contexto crítico, os montadores permaneciam em posturas extremas e assimétricas. Alguns ajoelhavam, outros se curvavam, outros sentavam em bancos, mas a adoção de desvios da posição neutra era recorrente. Na cravação da alma um erro grave pode “matar a peça”. Após a cravação de um rebite o operador verifica a altura da cabeça e a qualidade da deformação do rebite. A primeira verificação era visual e, na dúvida, era medida a altura da cabeça do rebite. Um rebite não conforme, não representa um grande problema de montagem, e, com relativa freqüência, erros de assentamento e deformação levavam os montadores a sacar o rebite, neste caso o rebite era perfurado por uma broca fina, sendo retirada a cabeça e em seguida o corpo do rebite.

Um problema grave na cravação, que não chegou a ser presenciado, é a marca de ferramenta, que ocorre no caso do martelete ou mesmo a barra encontradora

imprimir algum nível de dano à peça. Neste caso o setor de qualidade é chamado para avaliar.

Nas atividades de escareação que ocorriam nos revestimentos, pôde-se observar, que a extensa área e o número de furos tornam o trabalho repetitivo. No gesto motor de escarear o deslocamento da furadeira ocorria por flexão do ombro e a fixação da ferramenta por contração estática dos flexores e extensores de punhos e dedos e esforço de supinação. Os montadores se revezavam na tarefa de escarear e alguns não a realizavam pois sentiam dor rapidamente.

Os montadores adotavam estratégias de enfrentamento de contextos críticos. Pôde-se identificar estratégias de revezamento e esquiva de atividades desgastantes, manejo da fadiga e do estresse e especialização.