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Importante aspecto do saber-fazer, as estratégias de regulação em contextos críticos revelam os mecanismos individuais e coletivos de preservação da integridade corporal dos sujeitos do trabalho (Tabela 4.16).

Tabela 4.16 - Estratégias de regulação Tarefa

Falas

Rotação No nosso caso, são poucas

pessoas. Se pegar pra escarear o painel curvo, o cara tá escareando, o outro não vai parar lá, só se falar “eu já cheguei”, troca que eu não vou mais escarear que não dá, vamos trocar de serviço. Já falei pro médico da fábrica que eu não escareio mais não.

Deixar para outro fazer -É, daí na rib..., lá em um crime

cravar, é a pior parte que pode ser...Sobe todo mundo, a rib... fica solitária lá... O ultimo que sobrar, vai sobrar pra ele ali. Chega 6 da manha, a galera já vai subindo, já vai catando seus postos. O ultimo que subi, já olha e “puta..., sobrou pra mim...”.

Manejo de fadiga e estresse. O dia que eu fui cravar essa rib ..., teve q hora que eu parei e fui andar... Saí, andei,

....

R-Muita gente desiste.

Tinha um pino pra colocar, eu colocava ele caia, eu não conseguia colocar.. Aí quando é assim, tem que parar, tomar um ar, dar uma volta, tomar um café. Aí você volta e põe na primeira, né? Sabe quando você começa a por o negócio, e ele num dá certo num adianta continuar...

Põe o painel inferior, ele é desconfortável colocar... Porque a gente tem que passar as cintas por debaixo dele... quando a gente não colocasse um pedaço de toco. A gente abaixa, senta no chão, ergue e fica segurando ele. E ele é pesado, 2 pessoas... os ombros até adormecem, tem que parar depois.

Especialização O suporte da bomba é o Maciel

que faz mais isso... é dentro do tanque, e sempre a gente vê ele reclamando, porque é muito ruim fazer isso... Pra cravar isso aí...é ruim, porque você não enxerga o rebite,, vamos supor que é um vaozinho desse aqui. Você estica o braço, mira o rebite... Mesma coisa o cara que vai bater. Ele coloca lá, seja o que Deus quiser... Ele bate...e vê por uma frestinha assim, ó... E bate. Eu acho que o cara que encontra sofre mais que o cara que bate porque a barra, né... Não dá pra segurar, não tem apoio. Ele passa por debaixo, entra.. ele ta aqui olhando pelo buraquinho por cima, e segura. Tem lugar que não enxerga o rebite, você encontra na sorte mesmo.

- É no “feeling”.

“Batelada”

Digital e painel superior, Isso aí 4 pessoas ainda, o dia inteiro... e eu já cheguei a ficar umas 4 horas sem parar. Das 6 ate as 10. Eu já não paro porque se eu esfriar...até pegar o pique de novo...

- Aí dói tudo. A sorte é que a cada 15 dias...

Uma das estratégias de proteção é o revezamento de tarefas pesadas. O revezamento é acordado internamente dentro do grupo de produção, sem a intervenção dos gestores. Este revezamento parece ocorrer segundo a resistência de cada um, não seguindo uma regra temporal pré-estabelecida.

A cooperação ante as situações difíceis e o sentido de grupo parece conviver em moderado nível de conflito com o sentido de auto-preservação e de esquiva das atividades desgastantes.

De particular significado é a presença de estratégias de manejo da fadiga e do estresse. Diante do sofrimento corporal e da dificuldade de montagem, autonomamente, os montadores adotam estratégias de pausa para restabelecimento das capacidades física e cognitiva desgastadas pela dificuldade da tarefa. Uma outra estratégia identificada quanto ao manejo da fadiga e do estresse é a de realizar o serviço desgastante de uma só vez para que o corpo não “esfrie”. Esse modo operatório é potencialmente lesivo e contraria os princípios fisiológicos de proteção do aparelho músculo-esquelético, a referência de sofrimento por dor é clara e disseminada. O longo ciclo de montagem do produto faz com que cada tarefa de montagem seja intercalada com aproximadamente duas semanas de intervalo, podendo favorecer uma condição favorável à proteção da integridade músculo- esquelética.

O aspecto que conduz à distinção entre a adoção da estratégia de “batelada” e a da inclusão de alguma atividade meta-operatória é a dificuldade técnica da atividade, algumas atividades os operadores não conseguem fazer com dor ou com a “cabeça cheia”.

Ocorre ainda a estratégia da especialização em quedeterminadas tarefas são tão difíceis de serem realizadas que é sempre o mesmo operador que a realiza. A capacidade associada é o “feeling”, ou seja, além das habilidades e competências técnicas é exercido um savoir faire intuitivo.

Foi presenciada a realização de tarefas sem os óculos de proteção. Indagados sobre o motivo da retirada do equipamento de proteção, foi informado que a dificuldade de acesso faz com que os óculos atrapalhem. Além disso, os montadores justificaram que os óculos caem conforme os movimentos e que isso irrita o sujeito que finda por retirar o equipamento de proteção individual.

4.3.2.5 Indicativos de Superação

Ao serem indagados sobre as perspectivas de melhoria das condições de produção e lições para situações futuras, os montadores ressaltam o papel da participação dos mesmos nas decisões de projeto do produto e da produção. Apontam ainda a forma de gestão mais participativa da atual gestão como elemento responsável pelas melhorias em andamento (Tabela 4.17).

Tabela 4.17 – Superação segundo montadores

Idéia Central Falas

- Acho que a maioria das melhorias começou quando viemos pra cá. Quando viemos pra área do ..., que começamos a ver as coisas mudarem. Aqui participa mais.

O Supervisor deu liberdade, nos chamou, cobrou sugestão da gente, tal, deu liberdade pra gente reclamar o que tava errado, dar idéias e na outra área era mais correria, tava atrasado, e tal, e vamos correr, entendeu? Aqui tem bastante reunião, deu liberdade pra gente dar idéias!

Da gente expor nossos problemas...

R- As vezes a gente dava idéia e ficava aí, ninguém dava bola...

R- Eu trabalhei 4 anos aqui na ..., a primeira vez que eu pego um supervisor que faz isso, chama o pessoal na sala... pra gente expor problemas do serviço. Você vem aqui e “vamos melhorar nesse serviço, vamos cada um dar sua idéia no que é ruim, pra melhorar”.

E acho que ele deu liberdade pra gente expor as idéias, e foi isso que foi melhorando bastante.

Participação no projeto do produto e da produção

ferramental e operador. E projeto. Sentar todo mundo junto e cada um vai expondo como vai ser montado, daí o operador vai dar a opinião dele...

- Além de passar pela

aprovação da qualidade e ferramental., passar pela aprovação de quem vai usar. Pra gente usar o gabarito, antes dele vir pra gente, temos que aprovar, se tá legal ou não. Se não tiver tem que arrumar.

- Problema do .... O ... teve

muito gabarito que foi jogado fora. Dois Gabaritos enormes, acho que do tamanho dessa mesa que não serviu pra nada. Você vê... por que isso...Porque o operador não participou.

Maior número de montadores

Acho que a gente tá com pouca pessoa, nem 5. Acho muito pouca gente.

R- É, porque a gente, por exemplo...estamos em 5 ali. Quando começa a montar o tanque, tem que deslocar 2 pro outro gabarito. Já cai, fica 3 no outro. Aí a gente tem que chamar outras pessoas que não estão aptas ainda a trabalhar lá e foram treinadas... É a hora que começa a aparecer problemas...

Por falta de espaço ñ pode alocar muitas pessoas, só que em dado momento a demanda permite e são alocadas pessoas de outras áreas acarretando problemas.

Fragmentação da montagem

R- Bem melhor...

R- Não tem nem comparação...tudo que dá pra fazer fora, que depende da gente a gente faz.

Aliás tem vários projetos Boa Idéia pra gente fazer fora...Longarina central, digitais, a idéia é essa, tudo

que dá pra montar fora, montar.

É plausível a perspectiva de que o conhecimento necessário para a montagem vai além da prescrição e do saber-fazer histórico dos montadores. Trata-se da construção de um savoir faire próprio daquele contexto situado e por este motivo é que não há treinamento.

Por meio da adoção de um modo operatório de conferência, os montadores configuram mentalmente uma situação futura, e a analisam quanto ao critério de eficácia. No jargão adotado é dito se vai “dar montagem” ou se “não vai dar montagem” (Figura 4.14).

Quando é identificada uma situação em que “não vai dar montagem”, há um novo julgamento a ser feito. Se a situação é passível de correção para dentro de um padrão de conformidade ou não. Usualmente os ajustes são realizados autonomamente, contudo, em algumas situações o monitor é consultado.