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Nota-se, pois, que foram significativos os avanços das garantias de direitos de pessoas transgêneras, transexuais e travestis, contudo, persistem os entraves jurídicos, burocráticos e, essencialmente, legislativos para a garantia plena dos direitos da personalidade assegurados e da efetiva dignidade.

Para enumerar algumas vitórias dos movimentos que lutam pela socialização e democratização das identidades de gênero, válido pontuar que a Universidade Federal do Ceará foi a primeira instituição de Ensino Superior do estado a permitir que transexuais e travestis utilizassem o nome social em documentos acadêmicos e registros funcionais, a partir de resolução aprovada por unanimidade em reunião do Conselho Universitário (CONSUNI) no dia 04 de outubro de 2013.14 Apenas em março de 2015, a Universidade Estadual do Ceará ratificou os direitos vindicados, autorizando a utilização do nome social.

Em 2014 o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) permitiu aos candidatos e às candidatas que se identificassem por seus nomes sociais. Em 23 universidades federais, o nome pelo qual o/a aluno/a se identifica também já está sendo utilizado.15

No dia 12 de março de 2015, foi publicada no Diário Oficial da União resolução elaborada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República mais abrangente, que permite que estudantes transexuais e travestis possam escolher se querem usar o banheiro masculino ou feminino e o tipo de uniforme escolar de acordo com a sua identidade de gênero. O aluno ou a aluna pode ainda ter o nome social com o qual se identifica inserido em todos os processos administrativos da vida escolar, como matrícula, boletins, registro de frequência, provas e até em concursos públicos.16

Por fim, em 1 de dezembro de 2014 foi noticiado que a próxima edição da Classificação Internacional de Doenças (CID), que vigerá no ano de 2015, excluirá vários transtornos comportamentais relacionados à identidade de gênero, dentre

14 Disponível em < http://www.ufc.br/noticias/noticias-de-2013/4213-transgeneros-ganham-o- direitode-usar-nome-social-em-documentos-academicos > Acesso em: 24 mai 2015.

15 Disponível em < http://g1.globo.com/educacao/enem/2014/noticia/2014/05/transexual-podera-usar- nome-social-no-enem-veja-dicas-sobre-inscricao.html > Acesso em: 29 mai 2015.

16 Disponível em < http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/03/aluno-transgenero-podera-escolher- o-banheiro-e-o-tipo-de-uniforme-escolar.html > Acesso em: 24 mai 2015.

eles a transexualidade.Trata-se de uma medida que visa despatologizar o sexo e a transidentidade.17 Contudo, deve ser tratada de forma cuidadosa, pelas ressalvas já feitas referentes à imprescindível cobertura do procedimento de redesignação sexual pelo Sistema Único de Saúde.

Assim, para além dos entraves políticos e judiciais, existe uma cultura de marginalização formada historicamente pela aceitação única da ambiguidade de gênero, firmada em conceitos dogmáticos e preconceituosos que anulam as possibilidades identitárias advindas da subjetividade. Neste contexto, as medidas de ressocialização destes sujeitos são imprescindíveis, vez que não pode o Estado apenas se omitir em proibir, sem proporcionar, contudo, as condições mínimas imprescindíveis à dignidade.

Embora expostas no decorrer do trabalho decisões judiciais positivas e bem contextualizadas acerca do tema, estas advém quase que exclusivamente das instâncias ordinárias, vez que o judiciário de primeira instância em muito reproduz os conceitos fechados e positivados da heteronormatividade e cisgeneridade.

Com isso, diversas pessoas transgêneras se veem impossibilitadas de exercer suas identidades sociais e usufruir do seu direito à liberdade e autodeterminação de gênero, tendo suas subjetividades feridas e restringidas. Ora, o direito à readequação do registro civil possui repercussões políticas e sociais, vez que conceitua, caracteriza e identifica a pessoa no cotidiano.

Neste contexto, as novas medidas legislativas corroboram com a tendência mundial de inclusão social e cultural destes sujeitos, tornando urgente que o Poder Legislativo sane a omissão que historicamente persiste no que concerne à regulamentação dos direitos de sujeitos que se encontram fora do conceito cisgênero e heteronormativo, assegurando, pois, a plena igualdade e liberdade e reafirmando a cláusula máxima do ordenamento jurídico da dignidade da pessoa humana.

Para além do aspecto formal, é imprescindível que se promovam estratégias capazes de permitir a inserção de grupos socialmente vulneráveis nos espaços sociais, desde o âmbito da família, aos espaços culturais, religiosos, escolares, universitários e laborais. Com efeito, a igualdade e a discriminação pairam sob o binômio inclusão-exclusão. Na medida que a igualdade pressupõe

17 Disponível em < http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/137/sumula/5617 >. Acesso em: 24 mai 2015.

formas de inclusão social, a discriminação implica a violenta exclusão e intolerância à diferença e à diversidade. O que se percebe é que a proibição da exclusão, em si mesma, não resulta automaticamente na inclusão. Logo, não é suficiente proibir a exclusão, quando o que se pretende é garantir a igualdade de fato, com a efetiva inclusão social de grupos que sofreram e sofrem um consistente padrão de violência e discriminação, permitindo-os usufruir da sua autonomia privada existencial de forma livre, plena e digna.

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Benzer Belgeler