O Código Civil de 2002 foi pensado e construído de modo a apresentar aspectos principiológicos oriundos da constitucionalização das relações privadas. Observa-se uma hermenêutica civilista contemporânea, amalgamada pelo princípio da sociabilidade das relações privadas; a mitigação da liberdade contratual e do direito à propriedade por matérias de ordem pública (função social do contrato e da propriedade); a judicialização da responsabilidade civil; o reconhecimento dos direitos da personalidade e a suas repercussões judiciais e, por fim, a eficácia horizontal dos direitos fundamentais (MARQUES, 2013).
Neste contexto, a legislação civilística trouxe em seu corpo o capítulo destinado aos direitos da personalidade, no qual objetiva a tutela do nome,
reforçando, por sua vez, o seu caráter personalíssimo, no artigo 16, que determina que “Toda pessoa tem direito ao nome, nele compreendidos o prenome e o sobrenome.”
O nome é um elemento institucional, efetivado pelo registro civil, o qual é instituição administrativa que tem como fim imediato a publicidade de fatos jurídicos de interesses públicos e privados. Tem como função, ainda, dar autenticidade, segurança e eficácia aos fatos cientificados.
Para além do aspecto formal, o nome possui excepcional carga social, vez que traz consigo uma imagem construída de vida pregressa, de feitos, excepcionalidades, erros, enfim, uma marca pessoal que determina diversos passos da vida do indivíduo. Traz também uma identidade de gênero, definida exclusivamente por fatos fisiológicos e biológico, com base na ideia socialmente aceita da heteronormatividade, do masculino versus feminino.
Aduz Pablo Stolze (2002, p. 205) que o nome da pessoa natural é o sinal exterior mais visível de sua individualidade, sendo através dele que a identificamos no seu âmbito familiar e no meio social. Acrescenta:
[...] a personalidade jurídica tem por base a personalidade psíquica, somente no sentido de que, sem essa última não se poderia o homem ter elevado até a concepção da primeira. Mas o conceito jurídico e o psicológico não se confundem. Certamente o indivíduo vê na sua personalidade jurídica a projeção de sua personalidade psíquica, ou antes um outro campo em que ela se afirma, dilatando-se ou adquirindo novas qualidades. Todavia, na personalidade jurídica intervém um elemento, a ordem jurídica, do qual ela depende essencialmente, do qual recebe a existência, a forma, a extensão e a força ativa. Assim, a personalidade jurídica é mais do que um processo superior da atividade psíquica: é uma criação social, exigida pela necessidade de pôr em movimento o aparelho jurídico, e que, portanto é modelada pela ordem jurídica.
O nome é um dos atributos da personalidade, pois faz reconhecer seu portador na esfera íntima e em suas relações sociais. Ele personifica, individualiza e identifica a pessoa de forma a poder impor-lhe direitos e obrigações. Desta feita, é reconhecidamente um direito da personalidade, porquanto é o signo individualizador da pessoa natural na sociedade.
O registro público da pessoa natural não é um fim em si mesmo, mas uma forma de proteger o direito à identificação da pessoa pelo nome e filiação, ou seja, o direito à identidade é causa do direito ao registro. O princípio da verdade real norteia o registro público e tem por finalidade a segurança jurídica, razão pela qual deve
espelhar a realidade presente, informando as alterações relevantes ocorridas desde a sua lavratura (RESP 1.072.402-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, DJO 4/12/2012).
Destarte, ele envolve tanto um direito individual, quanto um interesse social. Possui um aspecto privado, vez que direito da personalidade, bem como ligado diretamente ao princípio da dignidade humana, e um aspecto público, por ter como fim a formação de uma identidade perante a sociedade.
Adriano de Cupis (2008, p.179) assevera que o indivíduo, como unidade de vida social e jurídica, precisa afirmar a sua individualidade, de modo a distinguir- se dos demais:
O bem que satisfaz essa necessidade é o da identidade, o qual consiste, precisamente, no distinguir-se das outras pessoas nas relações sociais. Poderia ser colocada a questão de saber se tal bem deve proceder na hierarquia dos modos de ser morais da pessoa, os bens da honra e resguardo, mas não sofre dúvida a sua grande importância, pois o homem atribui grande valor, não somente ao afirmar-se como pessoa, mas como uma certa pessoa, evitando confusão com os outros.
Norberto Bobbio (1992) chamou a contemporaneidade de a “era das Constituições”, diante da institucionalização da proteção contra o arbítrio e a defesa dos direitos individuais. Cria-se uma linguagem de limitação do exercício do poder que confirma o reconhecimento do direito e da constituição como intimamente ligados ao modo concreto de atuação do poder político – visto este inicialmente como poder do estado confrontando os indivíduos.
Destarte, embora a legislação ainda se mantenha omissa no que diz respeito a determinadas demandas que urgem por respostas efetivas, nota-se um movimento no Judiciário de garantia da eficácia dos direitos fundamentais, relacionados aos direitos humanos e aos direitos da personalidade, com fito de ver a pessoa humana tutelada e respeitada sua individualidade e em suas escolhas existenciais.
Todavia, há de se ressaltar que, embora se visualizem avanços no que diz respeito à garantia de direitos individuais com repercussão coletiva, ante a observância dos princípios da igualdade e da liberdade – vide a democratização do conceito de família, o reconhecimento da união estável homoafetiva, a facilitação da sua conversão em casamento, a adoção por casais do mesmo sexo – têm-se ainda entraves jurídicos por omissão legislativa na tutela do grupo pertencente aos
trangêneros, travestis e transexuais e uma intensa luta travada contra a discriminação dessas pessoas ante as suas incompatibilidades com o sistema binário e heteronormativo vigente na sociedade.
3 PROJETO DE LEI Nº 5.002/2013 – LEI DA IDENTIDADE DE GÊNERO (OU LEI