Assim como no inquérito policial e no processo judicial, o registro das falas no interrogatório preliminar submete-se a certas “fórmulas legais tradicionais”.406 As declarações prestadas são, desse modo, “traduzidas” em jargão próprio da polícia ou, em outros termos, são adaptadas ao gênero de discurso no qual os interrogatórios se incluem. Por conseguinte, no ato de transcrição, a escuta da fala do depoente é atravessada pela percepção dos interrogadores. As diversas operações envolvidas na produção do depoimento revelam indícios de como o órgão constrói uma visão dos fatos narrados pelo interrogado. Essa versão,
405
COELHO, Marco Antônio Tavares. Herança de um sonho, p. 382. (O horário corresponde, grosso modo, ao turno da equipe de interrogatório preliminar.) O autor afirma que o chefe da Subseção de análise participou várias vezes das sessões de interrogatório, torturando-o pessoalmente.
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por sua vez, está intimamente relacionada à função que o interrogatório preliminar assumia na engrenagem repressiva. O interrogatório preliminar não visava, evidentemente, estabelecer um diálogo com o depoente. A intenção desse procedimento sustentava-se em dois eixos: angariar informações para chegar a novas prisões e assim sucessivamente – até destruir as organizações de esquerda –; e transmitir ao DOPS material suficiente para que o declarante fosse indiciado. A fala desse último, portanto, não é fim; é meio dessa comunicação que se estabelece entre pares – agentes dos órgãos repressivos. O papel de enunciador era desempenhado pelo interrogador, e seus interlocutores, em última instância, eram os agentes do DOPS – assim como outros integrantes da comunidade de informações, aos quais trechos desses depoimentos eram difundidos sob diversas formas.
Cabia ao interrogador e aos agentes da Subseção de Análise a definição do que seria dito, como a fala seria reproduzida e para quem – informações difundidas a vários órgãos, outras exclusivas para o DOPS, algumas reproduzidas em relatórios ou em palestras. Muitos anos depois, fragmentos desses depoimentos seriam, ainda, utilizados para reforçar algumas das asserções do próprio comandante do DOI, o coronel Carlos Brilhante Ustra, em outro contexto, o de exposição, para o grande público, de sua versão sobre os fatos por ele protagonizados.407 Entretanto, ainda que não fosse o interlocutor último do ato de enunciação, o depoente desempenhava um papel central na constituição desse discurso, uma vez que o interrogatório configurava-se como um espaço de disputa (desigual) pela palavra e pelo silêncio. O sentido “essencialmente negativo”408 das práticas da polícia política acaba por fazer com que a fala do outro seja reapropriada em outro contexto, mas que se parta dela, o que provoca uma mescla curiosa de universos lingüísticos das duas partes. No que se refere ao preso político, sua interferência se dá na contramão, mediante o emprego de vocabulário próprio, pela sua lógica de pensamento e de ação, pelos temas que traz à tona, em função do modo de funcionamento de sua organização de militância, externos ao universo repressivo. A despeito disso, o quadro discursivo é regulado pela repressão. Assim, nos depoimentos, temos o registro sobreposto de duas situações de comunicação: a primeira entre os interrogadores e o depoente, na forma de pergunta/resposta; a segunda entre o interrogador/registrador e os agentes repressivos, aos quais será dado ler a integralidade ou trechos desses depoimentos. Cada uma dessas situações contribui, a sua maneira, para modelar o depoimento tal qual o
407
Refiro-me às obras Rompendo o silêncio, publicada em 1987, e A verdade sufocada, publicada em 2006.
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lemos na sua versão final, pois, como defende Bakhtin, todo enunciado é endereçado a alguém, e essa presença do interlocutor é denunciada nas formas concretas assumidas pelo discurso.409
Nesse sentido, o discurso do interrogado, no ato da transcrição do depoimento, passa por um processo de reconstrução, no qual a fala – como aponta Michel Foucault a propósito da produção do discurso em toda a sociedade – é “ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade”.410 A anotação do interrogatório preliminar, apoiando-se em determinado suporte de valores, obedece a um sistema de exclusão de dados, acréscimo de outros, num movimento de apropriação e recondução da fala do outro, que situa o todo dentro de um cerrado controle e delimitação do discurso. O aleatório da fala do outro, assim como sua ordem própria de discurso, é neutralizado, enquadrado dentro de uma outra ordem, que fixa os repertórios possíveis. Alguns desses procedimentos são nitidamente perceptíveis na constituição do depoimento e são descritos a seguir: a padronização da fala através do emprego de fórmulas lingüísticas típicas, a transcrição das respostas a partir da formulação das perguntas, a edição na escolha do que deve ou não ser transcrito, a sobreposição de um vocabulário próprio ao universo das organizações da esquerda por termos oriundos do jargão dos agentes repressivos, a conformação da fala do depoente a determinada ordem do discurso, a justaposição da fala dos interrogadores no discurso do depoente.
A caracterização da forma pela qual a transcrição do interrogatório apresenta a fala do depoente deve levar em conta que algumas das operações que serão aqui descritas fazem parte de um processo mais amplo – não restrito ao DOI – de constituição de determinado gênero discursivo.411 Algumas formas típicas, por exemplo, são muito presentes nos depoimentos, fossem eles de militantes, dirigentes, simpatizantes, suspeitos ou meras testemunhas. Entre as comemorações do 1° de Maio de 1970, houve uma festa, patrocinada por vários sindicatos de São Paulo, no Estádio Maria Zélia. Houve distribuição de panfletos e jornais, sendo 18 indivíduos presos pela Força Pública e encaminhados à Operação Bandeirante por “estarem
409
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal, p. 38.
410
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso, 1996, p. 9.
411
Fazer o inventário de quais dessas operações eram generalizadas em outros órgãos repressivos – incluindo aqueles voltados ao crime comum – e quais eram exclusivas ao DOI de São Paulo requereria um complexo trabalho de comparação que foge aos objetivos desta pesquisa.
distribuindo panfletos subversivos” – muitos deles estavam apenas portando os tais panfletos.412 Alguns dos depoimentos desses detidos apresentam a mesma fórmula com pouquíssimas – ou nenhuma – alterações: “podendo ser efetuado um estudo de sua vida pregressa nada tendo a temer”.413 Há outras variações dessa fórmula que também são encontradas com muita freqüência, nas situações mais distintas, como: “Que nunca foi prêso e nem processado e nunca se envolveu em política de qualquer espécie”.414 Ou, ainda: “Declara que nunca foi preso nem processado por crimes de quaisquer natureza”.415
A existência dessas expressões típicas aponta para dois fenômenos. O primeiro é uma tendência a cercar e padronizar a fala do depoente, formatá-la a partir de um contingente de frases feitas. O segundo é a anotação das respostas a partir das perguntas. Em grande medida, essas fórmulas reproduzem mais a estrutura da pergunta do que a resposta propriamente dita. Nas quatro frases a seguir, repetidas amiúde nos depoimentos, com pequenas variações, pode- se detectar claramente parte dos focos de preocupação dos interrogadores. Uma delas se refere à omissão de detalhes importantes: “Que não possui mais nenhum dado, que possa conduzir esta OB à novas investigações”416 ou “que já prestou tôdas informações possíveis, durante os interrogatórios a que foi submetido nesta OB, nada mais tendo a acresentar; que confirma as declarações prestadas anteriormente”;417 assim como com a possível filiação em organizações de esquerda: “Não conhece nem tem ligações com Organizações Subversivo-Terrorista ou que saiba de pessoas filiadas às mesmas. Não responde a nenhum processo crime ou de contravenção”;418 igualmente com o (re)conhecimento de indivíduos procurados pelo órgão:
412
Ofício n° 510-OB. 02/05/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 114, 22299.
413
Interrogatório preliminar. 01/05/1970. 114, 22291, 22289, 22288, 22280.
414
Interrogatório preliminar. 18/08/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 79, 14403.
415
Interrogatório preliminar. 16/01/1975. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 194, 39365.
416
Interrogatório preliminar. 01/04/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 70, 12483.
417
Interrogatório preliminar. 05/02/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 150, 31309.
418
Interrogatório preliminar. 18/10/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 85, 16009.
“Que folheando o album fotográfico e nominal dos terroristas não reconheceu nenhum dos catalogados”.419
A prática de reproduzir a pergunta do interrogador como parte da fala do depoente evidencia-se em trechos nos quais abundam as negativas, como nas respostas deste depoente, que afirma não ser ligado a nenhuma organização política:
nunca pertenceu a organização subversiva ou terrorista; que nunca tomou parte, promoveu ou aliciou qualquer elemento à assistir reuniões de cunho subversivo; [...] que desconhece o que venha ser Partidão, pois ouviu falar nêsse nome através dos jornais; que examinando o álbum dos elementos subversivos dêste DOI, não reconheceu nenhum dos individuos alí catalogados.420
O mesmo ocorre no depoimento de um militante da APML que, de início, negou toda e qualquer participação política:
Declara que nunca foi preso ou processado. Não conhece nenhuma organização subversiva. Não é e nunca foi militante de nenhuma organização subversiva. Não conhece nenhuma pessoa que milite em organização subversiva. [...] Declara que o material apreendido em seu armário [...] não lhe pertence, não sabe de sua procedência e considera ter sido ali colocado, com o intuito de prejudicá-lo. [...] Nada mais tem a declarar.421
Há aquelas em que se percebe que a informação ali contida não provém do depoente, mas do próprio interrogador, interessado em demonstrar que executou seu trabalho corretamente. No depoimento de um coordenador de imprensa da VAR Palmares, lê-se a seguinte passagem:
quanto ao informe recebido nesta data do QG II Ex, com relação a prisão efetuada em Brasilia, em que referido elemento, informou da vinda de componentes da VAR-PALMARES de Brasilia e da COLINA de Minas Gerais, para São Paulo, e cujo Coordenador seria “LOYOLA”, nada poderia esclarecer.422
Nesse fragmento, a resposta negativa, que poderia até ser suprimida do depoimento, por não acrescentar nada de novo, tem por função explicitar a questão formulada. A parte
419
Interrogatório preliminar. 10/11/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 95, 17423.
420
Interrogatório preliminar. 07/01/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 88, 16520.
421
Interrogatório preliminar. 10/09/1974. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 187, 38086.
422
Interrogatório preliminar. 26/01/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 67, 11612.
reservada à resposta resume-se ao “nada poderia esclarecer”. Na realidade, importava também saber que tipo de informações o depoente detinha ou não detinha e mostrar que a pergunta fora devidamente formulada.
Diante disso, não é surpreendente encontrar duas sessões de interrogatório preliminar, ocorridas num intervalo de poucas horas, de dois militantes do PC do B, praticamente idênticas. Segue a transcrição na íntegra da sessão da primeira:
Declarou que confirma suas declarações anteriores, esclarecendo que não se recorda de mais nenhuma particularidade que possibilite melhores esclarecimentos quanto a sua participação com a organização denominada PC do B. Que, da mesma forma, o declarante não se recorda de nenhuma pessoa com quem tivesse mantido qualquer contacto político, além das que mencionara em suas declarações anteriores.423
E da segunda:
Declarou que confirma as suas declarações anteriores, esclarecendo que não se recorda de nenhum pormenor que possibilite melhores esclarecimentos quanto a sua militância junto ao PC do B; que da mesma forma, não vê possibilidade alguma de ter deixado de mencionar alguma pessoa com quem tivesse tido qualquer contacto político; que tem absoluta certeza que não deixou de mencionar qualquer pormenor relacionado com o PC do B que seja de seu conhecimento.424
A razão da semelhança não se encontra no fato de serem os dois inquiridos membros do PC do B, mas de terem sido, os dois, interrogados pela mesma equipe. Portanto, ocorre repetidamente que a transcrição da resposta na realidade abarque a reprodução da pergunta, sendo a fala do depoente incluída no aspecto afirmativo ou negativo da resposta. Tomando de empréstimo a última frase do segundo trecho citado, a transcrição que poderia ser registrada nos seguintes termos, “perguntado se tem absoluta certeza que não deixou de mencionar qualquer pormenor relacionado com o PC do B que seja do seu conhecimento, respondeu que sim”, assume a forma reproduzida mais acima. Essa escolha, por assim dizer lingüística, de apresentação do discurso do outro faz com que lhe seja atribuída uma fala que não lhe pertence, o que se pode ver nesta acareação entre um militante e um apoio da ALN: “Acareado o depoente e RAFAEL DE FALCO NETO este explica que houve falha de
423
Interrogatório preliminar. 27/05/1972. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 145, 30300.
424
Interrogatório preliminar. 27/05/1972. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 149, 31037.
interpretação por parte dele quando lhe formularam a pergunta pois se encontrava em descontrole emocional e apenas confirmou o que lhe perguntaram”.425
Além do cabeçalho, há uma fórmula típica que inicia praticamente todas as sessões, à exceção do primeiro interrogatório de cada indivíduo: “Declara que confirma as declarações, acrescentando que”. Mera formalidade, ocorre de a sentença ser contradita logo sem seguida, como se pode observar na fala de um militante da ALN.
Que confirma suas declarações anteriores, esclarecendo que o “ponto” que dizia que existia no quarteirão da Faculdade Paulista de Medicina é “frio” e tudo mais que disse com referência a esse “ponto”, como seja: ter visto PERCIVAL MENON MARICATO num volkswagen branco, rodando em sentido contrário é mentira. Que não há ponto para hoje às 2400 horas no Quarteirão da Faculdade Paulista de Medicina e nem “ponto” para vinte e quatro horas após nêsse local como alternativa.426
Como estaria o depoente confirmando suas declarações se, na realidade, afirma ter mentido a respeito do tema em questão? A frase que inicia grande parte dos depoimentos também leva a crer que o depoente tinha a oportunidade de ler suas declarações anteriores, uma vez que a confirmava. As inserções muito precisas de retificações a depoimentos anteriores também induzem nessa direção, como no exemplo abaixo:
Retificando a fôlha 2 de 09/10/FEV/72 das 1000 às 1200 horas, o declarante diz que na 10ª (décima) linha deve-se ler “militava no PC do B” e não PCB. Que na fôlha de 12/13/FEV/72 das 1100 às 1200 horas na última linha do 1° (primeiro) parágrafo deve-se ler “no ano de 1965” e não 1960.427
Todavia, os relatos de ex-militantes que estiveram no DOI, ao comentar da dificuldade em manter uma versão não apenas crível, mas coerente de uma história criada que satisfizesse os interrogadores, mostravam a preocupação e a dificuldade em guardar na memória os detalhes inventados. A ex-dirigente da VAR Palmares, Dilma Rousseff, presa na Operação Bandeirante em janeiro de 1970, reforça a importância de conservar a versão: “A gente tinha que fazer uma moldura e só se lembrar da moldura, da história que se inventava, e não saía disso. Tinha que ter uma história”.428 O mesmo sustenta o ex-dirigente do PCB, Marco
425
Interrogatório preliminar. 26/08/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 95, 18043.
426
Interrogatório preliminar. 17/02/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 165, 34416
427
Interrogatório preliminar. 17/02/1972. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 153, 3188.
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Dilma diz ter orgulho de ideais da guerrilha. entrevista concedida a Luiz Maklouf Carvalho. Folha de S.
Antônio Tavares Coelho: “O pior das mentiras é que a gente se esquece delas, quando são muitas e quando passam diversos dias. As mentiras vão se misturando com o transcurso do tempo e depois tudo vira um cipoal, que a gente paga um preço alto”.429 Tal dificuldade não faria sentido se, a cada sessão, o depoente tivesse uma possibilidade de acesso ao que já havia dito. As retificações eram anotadas, portanto, nas ocasiões em que as respostas contradiziam afirmações anteriormente feitas. Seria razoável pensar que as perguntas formuladas em um depoimento eram propositalmente reeditadas nas sessões seguintes e a resposta registrada como uma confirmação ou retificação do que se havia dito, o que difere muito do que seria a correção a partir da leitura, para os depoentes, da transcrição de sessões anteriores. Numa etapa posterior, antes que o depoimento fosse datilografado, procedia-se à comparação entre este e o que já fora dito, inserindo-se a referência precisa dos documentos em que constava uma informação discordante, com o intuito de acompanhar a coerência geral da fala do depoente.