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Para compreender melhor as duas faces – a extra-oficial e a formal – da fase policial, assim como a natureza da relação entre o DOI e o DOPS, é importante conhecer as modalidades de difusão dos documentos produzidos no DOI a partir dos interrogatórios preliminares. Da CE/OB ao DOI, não houve mudança substancial nessa parceria, mas um acréscimo de documentos enviados. Numa primeira fase – anterior à criação do DOI – ao encaminharem um preso político ao DOPS, a fim de formalizar o inquérito policial-militar, os agentes da CE/OB enviavam o conjunto de seus interrogatórios preliminares acompanhado da “declaração de próprio punho”,329 que serviriam de base para orientar os agentes do DOPS em seu interrogatório oficial, denominado “auto de qualificação e de interrogatório”. As declarações de próprio punho eram manuscritas e assinadas pelo depoente. Consistiam em um apanhado das informações obtidas no decorrer dos interrogatórios, assim como um resumo da trajetória pessoal e política do militante.330 A declaração era cotejada com as transcrições dos interrogatórios e, caso fosse considerada satisfatória, era datilografada, conforme consta no depoimento de um militante da VPR: “Confirma as declarações anteriores. Quanto a declaração manuscrita, foi a mesma analisada com o declarante e sanadas as dúvidas existentes, a qual já pode ser datilografada”.331 Essa documentação, por ser um registro da fala do depoente, servia como prova de suas afirmações, podendo ser a qualquer momento comparada com o depoimento posteriormente colhido no DOPS.

Visto que as declarações prestadas nos interrogatórios da CE/OB eram muitas vezes contraditórias e confusas, a essa documentação era anexado um ofício de apresentação do

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SILVA, Tadeu Antonio Dix. Ala Vermelha, p. 244-245.

329

Documento redigido à mão pelo detido descrevendo seus contatos e sua atuação política.

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JORDÃO, Fernando Pacheco. Dossiê Herzog, p. 174. O jornalista Paulo Markun, que esteve preso no DOI, descreve o documento da seguinte maneira: “Éramos obrigados a produzir, de próprio punho, detalhadas descrições de nossa militância e das confissões arrancadas sob tortura”. MARKUN, Paulo. Meu querido Vlado, p. 9.

331

Interrogatório preliminar.10/12/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 168, 34819.

detido,332 no qual suas principais características, atividades e contatos políticos eram explicitados. Essas informações sumárias continham o roteiro das informações que deveriam constar no auto de interrogatório realizado no DOPS. Anexava-se, a esse conjunto, uma lista do material apreendido na residência, no “aparelho” ou no veículo do preso político.

Paralelamente a esse esquema de envio de documentação, endereçada exclusivamente ao DOPS, foi criado outro, em agosto de 1970.333 Uma “informação”, difundida junto à comunidade de informações,334 anunciava a emissão de “resumos de declarações” prestadas na CE/OB, nos dias 18 e 19 de agosto de 1970,335 e listava o nome de 25 depoentes, seguidos da grade de presos do mesmo período. Em seguida, vinham as páginas contendo a transcrição das sessões de interrogatório preliminar ocorridas nos dias indicados. Essa nova modalidade de divulgação das informações extraídas dos depoentes mostra a urgência em transmitir, para os outros órgãos de repressão e de informação, os dados colhidos, ainda que não tivessem sido verificados. Havia, portanto, essa prática de comunicar à comunidade de informações tudo quanto pudesse servir de pista ao combate das organizações de esquerda, mesmo que se averiguasse, posteriormente, não passar de boato ou de engano era freqüente. Diferente da maneira coordenada com que os depoimentos eram enviados ao DOPS, essa outra forma evoca uma “manufatura” de depoimentos. Temos, portanto, duas faces do funcionamento do órgão: a de produção em série e ininterrupta de depoimentos de presos políticos, divulgados em seu estado bruto, ao lado de uma engrenagem de extração, averiguação e depuração dos depoimentos – por meio de investigações, análises de documentos e, principalmente, de estratégias variadas de inquirição dos presos políticos.

Além da documentação eram encaminhados ao DOPS os próprios presos políticos e o material recolhido. No caso de o depoente ter sido capturado pelo DOPS, podia ocorrer um

332

Esse ofício era provavelmente confeccionado por agentes da Turma de Análise de Informações, cujas atribuições incluíam “Elaborar as Informações encaminhadas à 2ª Seção do Exército” ou pelos agentes da Assessoria Jurídica e Policial, responsáveis pela assessoria em assuntos de polícia judiciária. Sistema de Apostila

Segurança Interna. SISSEGIN. [1974?], cap. 2, p. 32, 34.

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Não se pode ser muito rigoroso com a definição das datas, uma vez que esse acervo não contém a totalidade de documentos produzidos pela Operação Bandeirante e pelo DOI. As datas indicadas referem-se às constantes nos primeiros exemplares encontrados dentro do Dossiê Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9. No caso, trata-se da Informação n° 1673/70. 28/08/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 79, 14420.

334

Composta de: Centro de Informações do Exército, 6° Distrito Naval, 4a Zona Aérea, Serviço Nacional de Informações/Agência de São Paulo, Centro de Informações e Operações da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo.

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Normalmente de um dia para o outro, correspondendo ao turno de uma das equipes de interrogatório preliminar.

interrogatório preliminar no próprio órgão. Mas em seguida aquele era conduzido ao DOI – assim como o depoimento preliminar –, cujos agentes, por sua vez, o reconduziam ao DOPS, ao final do processo. Ocorria também de o preso político ser solicitado novamente, para esclarecer algum ponto, conforme se pode observar neste ofício endereçado ao DOPS:

O Exmo Sr Gen Chefe do Estado-Maior do II Exército, Chefe do Centro de Operações de Defesa Interna (Operação Bandeirante), incumbiu-me de restituir-vos os presos UBIRATAN DE SOUZA (“GREGORIO”) e VALNERI NEVES ANTUNES (“ÁTILA”), após terem sido reinterrogados no DOI.336

Poderia ainda acontecer uma acareação do preso com outro militante: “O Exmo Sr Gen Cmt da 2ª DI incumbiu-me de restituir-vos MARLENE DE SOUZA SOCAS (“EUNICE”), após ter sido acareada na OB, com MARCOS PENNA SATTAMINI DE ARRUDA (“ZÉ”), ambos da AP”.337 Por vezes, ainda, o preso político era conduzido ao DOPS para prestar declarações, mas deveria logo em seguida retornar ao DOI: “Informo-vos ainda, que o preso ora apresentado, após ouvido deverá retornar ao DOI/CODI/II Ex. Para tanto, a escolta que o conduz aguardará nesse Departamento”.338

O vai-e-vem dos depoentes entre os dois órgãos obedecia à lógica da obtenção de informações, da observância aos prazos legais para a formação dos inquéritos e da correspondência entre as informações prestadas no DOI e o depoimento oficial do DOPS. Havia casos em que, a partir de outros depoimentos, sentia-se a necessidade de complementar informações de um indivíduo já sob a tutela do DOPS. Podia acontecer de o preso político ser encaminhado às pressas ao DOPS para evitar que o prazo dos trâmites judiciais fosse desrespeitado, como mostra este ofício: “Solicito-vos seja o referido indivíduo requalificado por êsse Departamento e os respectivos Autos encaminhados à 1ª Auditoria da 2ª CJM, com a máxima urgência, a fim de que sejam os mesmos incluídos no processo a que o mesmo está respondendo”.339 O depoimento oficial do DOPS devia conter os elementos considerados mais relevantes das múltiplas sessões de interrogatório realizadas pelos agentes do DOI. Em relatório do DOPS, endereçado ao delegado adjunto do setor de Ordem Social, consta, por

336

Ofício n° 228-E/2-DOI. 07/12/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 83, 15328.

337

Ofício n° 72 3-OB. 11/07/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 80, 14569.

338

Ofício n° 631/74-E/2-DOI. 18/10/1974. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 192, 39050.

339

Ofício n° 725- E/2-DOI. ?/09/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 161, 33447.

exemplo, que “Conforme determinação de V. Sa., e protocolado n° 1725, datado de 14/4/70, do Cartório desta especializada, ouvimos MARCO ANTONIO MORO, tendo o mesmo confirmado ‘in Toctum’, o declarado na Operação Bandeirantes”.340 Se as declarações prestadas no DOPS não coincidiam com o depoimento efetuado no DOI, o preso político era novamente interrogado pelo segundo órgão. Foi o caso de um “apoio” da Ala Vermelha do PC do B, que, restituído ao DOI, limitou-se a afirmar: “Confirma suas declarações anteriores, prestadas neste DOI, nada mais tendo a acrescentar”, ao que se segue uma análise dos interrogadores:

OBSERVAÇÃO DA EQUIPE DE INTERROGATÓRIO PRELIMINAR As declarações do depoente feitas neste DOI, não confrontam [sic] com as declarações prestadas pelo próprio no DEOPS nos seguintes tópicos: [...] Tendo em vista as declarações de JORGE KURBAN ABRAHÃO (“BRAZ”) neste DOI, chega-se a conclusão de que “BRAZ” era elemento de apôio do MRT, e participava de reuniões e “cobria pontos” com PLÍNIO PETERSON PEREIRA (“GAÚCHO” ou “MARCOS”).

Em suas declarações no DEOPS, JORGE KURBAN ABRAHÃO (“BRAZ”)

faltou com a verdade em quase todos os tópicos de suas declarações.341

Algumas denúncias consignadas nos interrogatórios realizados na Auditoria expressam o clima no qual os depoimentos eram realizados nas dependências do DOPS, como o desta socióloga, relatando que,

alertada de que deveria responder afirmativamente ao encarregado do inquérito, a todas as perguntas e haveria comparação entre aquilo que disse no DOI e se, houvesse divergência ela seria conduzida ao DOI passando por outros tormentos sendo usada uma expressão que ela bem guardou, ou seja, haveria “repique” e então, ela confessaria mesmo tudo o que já constava das declarações anteriores; que disseram à interrogada que tomaria choques, inclusive, na língua, o que impediria qualquer outro pronunciamento ainda que quisesse; que ela não poderia falar e apenas ficaria “babando” [...]342

Mais uma vez a tortura aparece não como mero instrumento de obtenção de informações, mas como uma ferramenta de submissão da vontade do preso político. Nesse caso, a ameaça proferida segue no sentido contrário, o de impedir que a interrogada dissesse

340

Relatório – DOPS. 15/04/1970. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z-9, 70, 12425.

341

Interrogatório preliminar. 10/03/1971. Arquivo do Estado de São Paulo, Fundo DOPS, Série Dossiês, 50-Z- 9, 111-A, 21510-21509.

342

Auto de qualificação e interrogatório – Auditoria. Projeto Brasil: nunca mais. Tomo V, v. 3, As torturas, (1972), p. 932.

mais alguma coisa, contradizendo o que afirmara anteriormente. Situação igualmente dramática é apresentada por um coronel da Polícia Militar, acusado de pertencer ao PCB:

No DOPS, vi-me na contingência de ter que assinar depoimento feito nos mesmos termos do que fora feito no DOI, pois havia o perigo de retorno a esse Órgão policial, caso negasse qualquer dos termos de meu depoimento feito no DOI. Aliás, nada menos de duas vezes, retornei àquele órgão depois de me encontrar no DOPS. E as torturas se repetiam. Minha sobrevivência estava em jogo, ou confirmava e assinava tudo o que me fosse apresentado ou eu teria deixado de viver, possivelmente.343

Outros relatos feitos na Auditoria ressaltam, principalmente, o fato de o depoimento do DOPS ser baseado nos interrogatórios preliminares do DOI, como a de um comerciário afirmando que, “No DEOPS, o escrivão limitou-se a copiar o meu ‘depoimento’ prestado no DOI-CODI e deixou claro que caso eu não o assinasse, voltaria para o DOI-CODI”.344 O mesmo aconteceu com um militante do PC do B, em cujo relato consta que “foi chamado [no DOPS] para o que denominam ‘fazer o cartório’; que, quando esperava ser interrogado, viu o que ocorria, na realidade, era quase cópia do denominado relatório de próprio punho elaborado no CODI/DOI-II”.345