OPTİK TUZAKLAMA DÜZENEĞİ KURULUMUNUN GERÇEKLEŞTİRİLMESİ
4.2 Kurulumda Işın Yolu Ayarlamasının Önemi
4.2.1 Tuzaklama bileşenlerinin yerleşimi ve ışın yolu ayarı
Nasceu em Lisboa, na década de 80 da centúria de Trezentos, no seio de uma família pouco destacada, oriunda talvez das camadas burguesas ou da pequena nobreza urbana, da qual, para além do nome, pouco ou nada sabemos51. Vivendo na paróquia de São Julião52, foi num ambiente urbano, bem no coração da cidade, que decorreram os primeiros anos da sua vida. A paróquia, que se contava entre as mais ricas e populosas
48 Paulo de Portalegre, Novo Memorial, pp. 91-92. 49 Cfr. Statutos e constituyções, fl. 6.
50 Cfr. Jorge de S. Paulo, Epilogo e compendio, Primeira Parte, especialmente, cap. 33, 35 e 45 e Francisco
deSanta Maria, O Ceo Aberto na Terra, pp. 209-215.
51 Sobre os seus ascendentes, o Novo Memorial apenas refere terem sido “boas pessoas, mais famosas per
bondades que por geraçã” (Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 79); a crónica seiscentista completa esta informação sumária com alguns dados mais concretos: os pais de João Vicente chamavam-se Estêvão Rodrigues Maceira e Mécia Ponce, castelhana e parente chegada de D. Maria Ponce, mulher de D. Álvaro de Castro, conde de Arraiolos e primeiro condestável de Portugal, em cuja casa se criou D. Mécia desde nova (cfr. Francisco deSanta Maria, O Ceo Aberto na Terra, p. 551).
de Lisboa, ao lado das de S. Nicolau e da Madalena, não ficava longe do Hospital de Santo Elói – que será mais tarde a primeira casa dos lóios na capital – nem do convento da Graça, onde João Vicente terá recebido provavelmente a primeira instrução53. Quando começou a frequentar a universidade, também não se afastou muito deste centro urbano, já que o Studium Generale funcionava, por essa época, em Alfama, na freguesia de Santo Estêvão54.
Embora a família não fosse de linhagem elevada, soube, no entanto, criar-lhe condições para receber uma educação cuidada. Para isto aponta, por exemplo, o facto de ter sido criado em casa de D. João de Castro, seu irmão colaço, convivendo, assim, em ambiente nobre e preparando de algum modo a sua aproximação à corte55. Veio depois a sua formação escolar e académica. João Vicente terá frequentado a faculdade de Artes, cujas disciplinas se consideravam preparatórias para o estudo de outros ramos do saber, em concreto da Medicina e do Direito56. Depois de ter estudado lógica, filosofia e outras matérias similares, enveredou pelo curso de medicina na universidade de Lisboa, graduando-se como Doutor, o que lhe permitiu aí leccionar durante alguns anos57.
A sua introdução no ambiente palaciano veio, talvez, pela sua nomeação como médico da corte de D. João I, sendo o “infamte Duarte regemte jaa por seu padre”58, ou seja, depois de 1412. Não obstante o receio expresso pelo autor do Novo Memorial acerca das influências nocivas que o ambiente cortesão poderia exercer sobre ele – pois entretanto manifestara o desejo de seguir uma carreira religiosa – o certo é que isso lhe abriu a possibilidade de contactos que mais tarde seriam proveitosos para o
53 Cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 79.
54 Cfr. Pedro Dias, “Condições materiais de funcionamento. 1. Espaços escolares”, in História da
Universidade em Portugal, vol. I, tomo 1 (1290-1536), Coimbra, Universidade de Coimbra/Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, p. 34.
55 Cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 81. D. João de Castro era neto de D. Álvaro de Castro e
pertencia, portanto, à linhagem dos Castros galegos, uma das principais famílias da alta nobreza de Castela. Casou com D. Leonor da Cunha, filha de Martim Vaz da Cunha, e a única filha que tiveram, D. Joana de Castro, casou com D. Fernando, 2º Duque de Bragança (cfr. Mafalda Soares da Cunha, Linhagem, parentesco e poder. A Casa de Bragança (1384-1483), Lisboa, Fundação da Casa de Bragança, 1990, pp. 36-37).
56 Cfr. Maria Cândida Monteiro Pacheco, “O saber: dos aspectos aos resultados. 1. Trivium e
Quadrivium”, in História da Universidade em Portugal, vol. I, tomo 1 (1290-1536), Coimbra, Universidade de Coimbra/Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, p. 170.
57 As mais antigas referências documentais seguras que encontrámos relativas a João Vicente datam de
1418 e referem precisamente a sua condição de doutorado em artes e medicina (in artibus et medicina magister e qui artium et medicine doctor existit). Trata-se de três súplicas atendidas pelo papa entre 3 de Janeiro e 13 de Setembro de 1418 sobre a doação e posse da igreja de S. Tiago de Tremês na diocese de Lisboa (cfr. António Domingues de Sousa Costa, Bispos de Lamego e de Viseu, p. 191).
desenvolvimento da congregação59. Não é necessário reiterar as características da corte já enunciadas, nomeadamente no que se refere à presença e prestígio dos clérigos e ao ambiente de religiosidade activa que se cultivava à sua volta. Foi provavelmente aí que João Vicente conheceu o capelão Martim Lourenço que depois o acompanhou na fundação dos lóios60. Talvez tenha sido também por meio da corte que estabeleceu contactos com D. Vasco, bispo do Porto e com o arcebispo de Braga, D. Fernando da Guerra que, a seu tempo, contribuiriam para o impulso da congregação nas respectivas dioceses61.
Como médico ou físico régio, deve ter tido a ocasião de privar com os infantes; desde logo, com o infante D. Duarte que, segundo o Novo Memorial, tinha por ele “grande amor e singular afeiçã”62. A sua benevolência era partilhada pelos outros membros da casa real que, segundo a mesma fonte, o “amavam e desejavam singularmente e sobre todos a nobre princesa filha de el rei que despois foi duquesa de Borgonha”63. Não admira portanto que, mais tarde, em 1429, João Vicente viesse a integrar a comitiva que acompanhou a infanta D. Isabel à Flandres, para o casamento com D. Filipe, o Bom, Duque da Borgonha64. O Novo Memorial sugere até que a acção de João Vicente junto de D. Isabel não se restringia a assuntos médicos e que terá sido por sua influência que a infanta se interessou pelos conventos dos dominicanos, beneficiando-os generosamente65.
Talvez remonte também a esta época o relacionamento próximo de João Vicente com D. Afonso, conde de Barcelos e futuro Duque de Bragança. A partir de 1401, o conde D. Afonso teria passado a frequentar a corte com mais assiduidade e apesar de residir habitualmente no norte do país dispunha de vários palácios em Lisboa66. Este
59 Ibidem, p. 84.
60 Cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 86.
61 Cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 89. Também os Statutos e constituyções referem que João
Vicente conhecia D. Vasco e lhe “queria grande bem da corte onde se criarão” (Statutos e constituyções, fl. 6). José Marques aponta com precisão surpreendente o ano e o mês em que terá tido lugar o encontro entre João Vicente e D. Fernando da Guerra: Janeiro de 1423 (cfr. José Marques, A arquidiocese de Braga no século XV, p. 76).
62 Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 79. 63 Ibidem, p. 85.
64 Cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 98. Não há outras provas documentais, para além do Novo
Memorial, que atestem de forma inequívoca a participação de João Vicente nesta embaixada; o estudo cuidadoso das fontes disponíveis sobre João Vicente, realizado por António Domingues de Sousa Costa não contradiz esta informação (cfr. António Domingues de Sousa Costa, Bispos de Lamego e de Viseu, pp. 214-8).
65 Cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 85.
66 Cfr. J. T. Montalvão Machado, Dom Afonso, primeiro Duque de Bragança. Sua vida e sua obra, Lisboa,
conhecimento viria a ser extremamente útil ao desenvolvimento da congregação dos lóios, de forma especial quando se intensificaram os conflitos entre os cónegos e o arcebispo de Braga.
Recorde-se o que dissemos atrás acerca do ambiente religioso e cultural da corte de Avis. Foi aí, decerto, que João Vicente travou contacto com as ideias humanistas eivadas do espírito de regresso às origens, de autenticidade e de reforma que pairavam pela Europa. Com efeito, é bem conhecido, como já referimos, o relacionamento estreito entre os Infantes de Avis e os círculos religiosos reformistas e o apoio dado às várias iniciativas institucionais que foram surgindo neste contexto67. A historiografia tradicional comprovara a componente religiosa desta corrente, mas os estudos mais recentes acerca da cultura humanística e da religiosidade quatrocentista têm revelado as suas manifestações e a sua vitalidade não só a partir da corte régia mas um pouco por toda a parte. As visitações, a reforma das confrarias e dos hospitais, a publicação de catecismos mostram um movimento difuso e amplo. Também existia, certamente, o sector conservador e mundano que resistia à reforma, e, consequentemente, havia uma luta profunda entre os dois âmbitos.
João Vicente devia acompanhar de perto as medidas tomadas pelo rei e pelo infante D. Duarte, em relação à reforma do clero. A atenção a este tema parece relacionar-se com a sua decisão de enveredar pela vida eclesiástica. Manifestou, desde cedo, interesse por experiências religiosas de uma certa radicalidade, nomeadamente a reclusão urbana e a vida eremítica, que, sob diferentes formas, se multiplicavam por esta época, em meios urbanos e rurais do centro do País68. Os contactos mantidos durante a sua juventude com um emparedado de nome Vicente que se fixara junto ao convento da Graça em Lisboa e a orientação espiritual que dele recebeu parecem ter sido determinantes no rumo e na espiritualidade que haveria de seguir69. Pelo relato do Novo Memorial pode mesmo deduzir-se que foram as conversas com esse emparedado que o conduziram, mais tarde, ao convento de S. Domingos de Benfica, primeira fundação da reforma dominicana em Portugal (1399), para prosseguir aí a sua formação religiosa. A relação de João Vicente com este convento manteve-se durante toda a vida. Aí se dirigiu para ingressar na vida religiosa, apesar de dissuadido pelos superiores devido à forte
67 Maria de Lurdes Rosa, “As almas herdeiras”, pp. 113 e ss.
68 Cfr. síntese de João Luís Fontes, “Reclusão, eremitismo e espaço urbano: o exemplo de Lisboa na Idade
Média”, pp. 259-277.
oposição familiar70. Mais tarde, ao confrontar-se com algumas dificuldades na formação do novo instituto, voltou a considerar a possibilidade de professar no convento, ao qual tinha “muita afeiçãão e gramde inclinaçam”71.
Atracção semelhante o levou a contactos com o movimento eremítico, que conheceu em Portugal um desenvolvimento acentuado a partir de meados do século XIV72. Por isso manteve relações estreitas com os pobres da Serra de Ossa, tanto antes da fundação da sua ordem como depois da sua institucionalização. Foi aliás sob a orientação de Mendo Gomes de Seabra, um prestigiado “pobre” da Serra de Ossa, que João Vicente completou a sua formação de sacerdote e se preparou para a ordenação de presbítero73.
Em síntese, que elementos nos permitem caracterizar a figura de João Vicente até ao momento da fundação dos lóios? Natural de Lisboa, clérigo, letrado e físico da corte que frequentava com assiduidade, privando com os infantes e conhecendo gente socialmente bem situada; interessava-se por experiências religiosas que implicassem uma certa radicalidade, convivendo com emparedados e religiosos ligados ao convento observante de S. Domingos de Lisboa.