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2.4. TUTUM KAVRAMI

2.4.1. Tutumun Öğeleri

Diariamente o governo do Estado e o Departamento de Administração Municipal enviavam ao prefeito Militão de Lima telegramas e ofícios com as providências necessárias a serem tomadas. Dessa forma a prefeitura se tornou o centro articulador das iniciativas revolucionárias em São Carlos. A partir da prefeitura se desdobravam as demais associações de apoio à causa revolucionária, como as Comissões de Abastecimento e Alistamento. As associações que não provinham da prefeitura tinham, no entanto, que se reportar a ela.

Havia uma grande apreensão, expectativa e entusiasmo no ar. A edição de 12 de julho do Correio de São Carlos informa: "Nesta cidade reina grande entusiasmo pela nova arrancada paulista em favor da Constituinte. É que todos sentem as mesmas vibrações de alto civismo que enobrecem o povo de Piratininga". E ainda: "Na manhã de ontem, soube-se que algo anormal havia em São Paulo. Os trens só corriam até

95 Em 1922 a praça Coronel Salles é batizada com o nome de seu pai, coronel José Augusto de Oliveira

Jundiaí. Os telégrafos interrompidos para o público e os telefones para a Capital não funcionavam".

A cada dia, notícias tratando da movimentação revolucionária chegam a São Carlos. Os ânimos se acirram e os discursos cívicos de exaltação à causa paulista se avolumam nas ruas, nos jornais e no rádio. Do gabinete do prefeito municipal lê-se a 16 de julho a seguinte nota: “(...) Continua em todos os setores da nossa cidade e município, o alistamento de voluntários que desejam formar nas fileiras dos exércitos que se batem, nesta hora, gloriosa da terra de Piratininga, pela redenção do Brasil. O entusiasmo com que São Carlos recebeu o gesto altaneiro de São Paulo, abandonando a enxada, as suas fábricas, as suas escolas pelos fuzis, recrudesce, dia a dia, o Ideal sacrossanto da Liberdade, que somente a Constituição poderá dar ao Brasil depois do movimento vitorioso de 1930, vibra, intensamente, em todos os corações são-carlenses, o amor ao Brasil e a todas as coisas que lhe dizem respeito impulsiona o nosso povo, sem distinção de classes sociais”. (CSC, 16/07/32)

Representantes da Frente Única Paulista chegam à cidade com a finalidade de coordenar e intensificar o alistamento, constituindo-se assim a Comissão Central de Alistamento de Voluntários. Essa Comissão Central coordenava as seguintes juntas de alistamento:

- Posto de Concentração Militar localizado no Grupo Escolar Paulino Carlos - Junta de alistamento militar da M.M.D.C.

- Comissão Central de Alistamento - Comissão Central de Ibaté

Os primeiros contingentes de voluntários a partirem para as trincheiras foram alistados nessas juntas, partindo já com 54 rapazes o primeiro contingente em 11 de julho com destino à capital, onde se integrou a outros comandos, segundo Virgílio Palermo96 “... era tudo jovem de 16, 17 anos e se alistavam”. A marcha dos contingentes até a Estação Ferroviária de onde embarcavam para suas missões, normalmente tinha início na Praça Coronel Salles. Na praça as principais autoridades municipais discursavam para a multidão sendo seguidos freqüentemente por apresentação da Banda de Ambrósio dos Santos que “toda a tarde saía para arrebanhar mais gente”.

96 Os depoimentos de Virgílio Palermo, Ricardo Gonçalves, Ítalo Cesarini, Francisco Dias, Pedro

Monteleone, Mariano Ortega, Ruy Fernandes Nunes, Francisca Karan, Maria C. De Lima Prieto, Geovane Cardinalli, Justina Cardinalli foram transcritos a partir do documentário “São Carlos 1932 – Memórias de uma Revolução”. Direção: Eduardo Sá, 2002.

Após a cerimônia, os contingentes seguiam para a estação, sempre acompanhados pela multidão emocionada. As pessoas interrompiam seus afazeres e corriam para as janelas, para a rua acenar com rostos jubilosos de orgulho. Mães choravam, esposas e namoradas mandavam beijos e homens faziam de qualquer superfície elevada um palanque improvisado para discursos de exaltação à coragem dos voluntários, ou simplesmente gritavam palavras de ordem. As crianças subiam nos postes e muros ou corriam no meio das tropas. A marcha dos contingentes de voluntários era sempre um espetáculo que parava São Carlos em sua comoção.

Recorda-se Pedro Monteleone: “ (...) nós ficávamos na avenida São Carlos vendo a banda passar tocando aquelas marchas que parecia que ia sair o coração da gente, era muito sentimental (...) chegavam os contingentes com a banda e ficavam todos em frente à estação, já chorando antes de entrarem na estação”.

Muitos embarcavam em vagão de gado com destino à capital onde recebiam breve treinamento, seguindo, logo após, para Lorena, alguns para o quartel general em Bragança e os demais 20 km adiante, na Serra da Mantiqueira. Segundo Ítalo Cesarini: “(...) e lá (capital) recebemos uniforme, instrução e tudo o que deveria ser feito, cantava-se muito o hino nacional (...) quando as pessoas estavam no front é que se recebiam os capacetes”.

É possível ter uma idéia do processo de preparo ao qual os jovens de São Carlos eram submetidos antes de seguirem para o front, a partir da experiência de Nelson Lima.97

Voluntário de um dos primeiros contingentes a seguirem para a capital, Nelson Lima e mais sessenta companheiros foram enviados ao Instituto de Educação, na Praça da República, ficando aquartelados durante certo tempo. Após isto, foram enviados para Lorena – SP, onde mais de duzentos soldados estavam esperando o momento de serem enviados ao front. Nelson Lima conta que nem mesmo tinha freqüentado o tiro de guerra, pois como a maioria dos voluntários “estava lá por puro patriotismo, pois mesmo quem nunca tinha tido um treino militar, estava lá para defender os interesses do Estado de São Paulo”. A primeira leva de voluntários que partiu de São Carlos, formou o batalhão “Fernão Dias Paes Leme” com quase sessenta integrantes - médicos, advogados, estudantes e civis – todos, segundo Nelson, em busca de um mesmo objetivo, a liberdade do país.

As instruções e os treinamentos aconteciam em Lorena, local para onde era enviado grande número de voluntários, para treinamento e prontidão. Nelson Lima, por seu grau de instrução foi “agraciado” com a patente de cabo, passando a fazer parte do grupo de instrutores. Segundo seu relato as pessoas que lá chegavam eram divididas por turmas, aqueles que não tinham instrução, recebiam a patente de soldado, os de instrução média, a de cabo e os indivíduos de nível superior, recebiam a patente de tenente.

Lima relata que havia então o treinamento militar, que consistia em corrida no brejo, em volta da cidade, ginástica e simulação de tiro, pois não possuíam munição para isso. Andavam com o fuzil na mão, mas sem bala. Certa ocasião um dos oficiais convocou um combatente que soubesse atirar e todos do pelotão se ofereceram, mesmo aqueles que não sabiam sequer usar uma arma, em suas palavras “uma loucura total”, pois o “afã de participar do movimento era mais forte que qualquer dificuldade individual”.

Ao longo dos meses de julho e agosto, São Carlos enviou para a guerra um total de onze contingentes de voluntários perfazendo um número aproximado de 567 pessoas, entre jovens e adultos. Sobre o sétimo contingente o Correio de São Carlos de 11 de agosto informa: “(...) Novo contingente de voluntários. São Carlos mandou ontem, para o ‘front’, o seu 7° contingente de voluntários. São dezesseis jovens que seguem animados do sentimento de patriotismo que vem impulsionando a todos os que combatem pala volta do país ao regime da lei”. Tragicamente três rapazes desse contingente não retornam do front, são eles Alípio Benedito, Benedito Ferreira da Silva e Modesto Santana de 24 anos.

Os distritos de Ibaté e Santa Eudóxia (na época eram distrtos de paz de São Carlos) também contribuíram com voluntários para as fileiras que partiam rumo às frentes de combate.

Em meados de setembro, formou-se um Batalhão de Sapadores composto por 294 homens com o objetivo de oferecer apoio logístico, tendo entre suas funções a escavação de trincheiras e a abertura e manutenção de estradas. O Batalhão de Sapadores de São Carlos foi enviado para a Frente Norte. No mesmo mês, chegou à Comissão Central de Alistamento de Voluntários, ordem do alto comando militar da Revolução para que fossem abertas inscrições de voluntários, que formariam a reserva das tropas combatentes.

São comuns os discursos propalando a pretensa igualdade entre os voluntários em sua luta pela Constituição, todos irmãos em armas, sem distinção de classe social ou raça. Em 28 de agosto o Correio de São Carlos transcreve discurso da professora são- carlense Jacy Camargo: “(...) Senhores: Neste momento, em que todo paulista é soldado, neste momento, em que é soldado o velho, o moço, a criança, o branco, o preto, o índio, ninguém tem mais obrigação de sê-lo que o professor. É por isso que me encontro aqui. Não fora esse dever imperioso, essa obrigação que temos de nunca nos negarmos a trabalhar pelo civismo, e eu não teria coragem para abusar de vossa benevolência (...)”.

Entretanto, o discurso de igualdade não escondia o tratamento discriminatório ao qual os negros eram submetidos:

“(...) Apelo. Atendendo aos despachos telegráficos do Exmo. Sr.Dr. Chefe de Polícia, de 25 de julho e 1 de agosto, faço veemente apelo a todos os homens de cor são- carlenses, a fim de se incorporarem, inscrevendo-se imediatamente junto à Comissão de alistamento, em o edifício do Grupo Paulino Carlos, nesta cidade, para serem logo encaminhados ao terceiro Batalhão ‘Conselheiro Rebouças’ da Legião Negra em São Paulo, para com orgulho e bravura marcharem em obediência à Lei, tornando a Força Constitucionalista, a qual se reintegrará o Brasil no ritmo da sua União, Soberania e Cultura.

Alistai-vos sem perder tempo, irmãos homens de cor! Alistai- vos!”(CSC,14/08/32).

Certamente um dos mais desconhecidos, silenciados e menos estudados aspectos da guerra civil de 1932 é a participação da Legião Negra. Os soldados da Legião Negra também conhecidos como os “Pérolas Negras” receberam, ao que tudo indica, um tratamento discriminatório no interior das forças constitucionalistas. De acordo com Bezerra, este agrupamento militar “é bastante elogiado pelos autores, para demonstrar que não há diferença de raça quando se trata do entusiasmo pela ‘causa sagrada’. Mas não é muito ressaltado que a Legião Negra é enviada logo para a linha de frente, a sustentar os mais pesados dos combates”.98 Várias evidências apontam que os batalhões da Legião Negra eram, na maioria das vezes, tratados como “bucha de canhão” e lançados para assumir a linha de frente dos combates. Em suas memórias Affonso de

Carvalho acusa os paulistas de usarem os negros como escudos humanos99. Entretanto, é necessário mencionar que um dos principais comandantes das forças paulistas era o Coronel Palimércio de Rezende, gaúcho e negro. Esse fato denota, mais uma vez, a complexidade e as contradições do movimento de 1932.

Em São Carlos a convocação aos negros é freqüente e sempre dirigida separadamente: “(...) Hoje, na praça Coronel Salles, haverá um comício especialmente dedicado aos pretos, que para isto estão convidados (...)”.100

São Carlos contribuiu com centenas de voluntários. O voluntariado constituiu peça-chave do processo revolucionário em São Paulo. O forte voluntariado paulista é referência constante nas obras que se dedicam à revolução de 32, sendo os voluntários descritos como a verdadeira pedra angular do movimento. Diante deles, os políticos e os militares perdem em importância no desenrolar do processo revolucionário.

Ainda em relação ao alistamento em São Carlos, há fatos curiosos que ilustram bem o forte apelo do serviço voluntário. Logo no inicio da revolução, a maior parte dos médicos da cidade alistou-se e partiu para as regiões de conflito. Apenas dois médicos permaneceram por serem idosos, os doutores Serafim Vieira de Almeida e João Oliveira. Um terceiro, o Dr. João Sabino que já havia se alistado, permaneceu na cidade graças à solicitação do Prefeito Antônio Militão, pois de outro modo, a cidade ficaria sem médicos suficientes.

Benzer Belgeler