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Ainda dentro do espírito cívico de colaboração material, é fundamental considerar o impacto que a campanha do ouro teve sobre o Movimento de 1932, pois em torno dela houve grande mobilização ideológica. Muitos autores ressaltam a “dedicação á causa sagrada”, através de donativos.

Sendo lançada em 9 de agosto de 1932, a campanha “Ouro para São Paulo” superou todas as expectativas. Nas palavras de um autor memorialista “... é preciso enaltecer, uma vez mais, o desprendimento da mulher paulista, que perdeu a mais feminina e resistente das vaidades: o amor pelas jóias”.

Até mesmo as alianças, símbolo do casamento, foram doadas com as bençãos do clero, assim como jóias de família e era comum presenciar mulheres que tiravam as jóias de seu próprio corpo e as doavam espontaneamente. Essas imagens geravam expressões de espanto: “... mas garimpava-o a generosidade inédita de um povo. A campanha do ouro paulista para a vitória é uma pagina inédita na história do mundo”. É

comum também encontrar referências comovidas diante da generosidade das pessoas humildes, para quem o pouco que doam representa tudo que possuem.

Pode-se ver nesse aspecto, a exploração consentida dos mais pobres, que através de um discurso de solidariedade propalado pela burguesia, se vêem sutilmente espoliados de seus poucos bens materiais.

O discurso ideológico da época provocou um processo de inversão, em que o ouro aparece desprovido de seu valor e significado material, sendo transformado em valor moral. O ouro passa a ser símbolo de unidade social e não mais de separação das classes. Ricos e até mesmo os pobres doam o pouco que têm. Alianças matrimoniais são em grande número. Em São Paulo, 87120 alianças haviam sido doadas até o dia 29 de setembro de 1932.

Nos primeiros dias da campanha do ouro em São Carlos, em 16 de agosto de 1932, cerca de 90 pessoas tinham feito doações em ouro. O Correio de São Carlos ao comentar a participação das mulheres diz: “Paulista acima de tudo, prefere despojar-se de tudo, tudo oferecendo, num sorriso entusiasta, seguro da vitória”.

Em 28 de agosto Dona Jacy Penteado, professora da Escola Normal, discursa convocando as mulheres a participarem , pois “cada qual dará o que lhe for pedido para a liberdade de São Paulo: as mulheres o ouro, para a construção do archote, e os homens o sangue, para a formação da chama, que iluminará todo o Brasil e deslumbrará o mundo!”. (CSC, 29/08/1032)

O arcebispo de São Carlos, Dom José Marcondes Homem de Mello, doou a sua cruz peitoral, uma jóia de grande valor composta por 5 turmalinas, 5 pérolas e 13 diamantes.

Fazendo a divulgação da campanha, o Correio de São Carlos escreve: “Qualquer objeto de ouro, platina, etc,... servirá. São os pequeninos grãos, carregados pelas numerosas formigas do Estado, que reunidos irão constituir o tesouro sobre o qual se alicerçará melhor a confiança e a idoneidade financeiras. Para lastro das emissões, para as despesas destinadas a qualquer fim que seja, servirá esse metal à causa constitucionalista”.

Essas doações eram feitas normalmente à agência do Banco do Comércio e Indústria de São Paulo, que contabilizava e tornava pública, dia após dia, a quantidade doada.

Essa contabilidade era publicada na imprensa e nos dá uma idéia do nível de envolvimento da comunidade. Em 15 dias desde o início da campanha, ou seja, no dia

31 de agosto, já se tinham registrado 1198 doações em São Carlos. Obviamente, as doações computadas não eram apenas jóias, mas dinheiro também. Em 18 de agosto os funcionários municipais doaram quantias correspondentes a um dia de trabalho, cujas importâncias destinavam-se à aquisição de capacetes de aço para as tropas. Os caixeiros viajantes também se solidarizam: “Nós, Caixeiros viajantes moradores nesta cidade, gratos pela acolhida que temos sido honrados pela distinta sociedade são-carlense, desejamos neste momento de exaltação cívica de que São Paulo se acha empolgado e para o qual os filhos de São Carlos tanto têm cooperado, contribuir com as importâncias abaixo, por nós subscrita, mensalmente, durante o tempo que for preciso e nos for possível, para auxílio às famílias pobres dos são-carlenses tombados ou feridos no campo de luta”.

Essas doações não eram feitas apenas pelos cidadãos comuns, mas também contavam com a colaboração de diversas instituições. A Igreja Católica além de ter sido representada na figura do bispo Dom José Marcondes que doou valiosa jóia, também contribuiu com a doação de outros objetos de valor, como um grande escudo de ouro.

A Prefeitura, através do prefeito Antônio Militão de Lima, doou um tinteiro de prata acompanhado de uma caneta de ouro pertencente à Câmara Municipal.

A Diretoria da Paulista Esporte Clube doou a quantia de 500$000.

As colônias de imigrantes radicadas em São Carlos deram forte apoio à Campanha de 32, as diversas colônias contribuíram com grandes somas em dinheiro além de diversos artigos necessários à guerra.

No jornal A Tarde foi publicada nota escrita pelos líderes da colônia síria Sabah Sallum e Farjala Labaki, convocando os sírios residentes em São Carlos a doarem brim kaki para a confecção do fardamento dos soldados. Em sua convocação lembravam que havia muitos filhos de sírios integrando o 2 º Regimento de Infantaria de Rio Preto.

Em 1932 as colônias de imigrantes em São Carlos ainda eram bem delimitadas devido à imigração relativamente recente, e em seu apoio ao movimento constitucionalista eram representadas por comissões. Dessa forma, a colônia portuguesa se fazia representar por comissão formada por Bernardino Fernandes Nunes, João Ferreira e Josué Martins. A colônia italiana era representada por Giuseppe de Molfeto, Mário Constanzo, Gildo Bucolato, Francisco Schiavone e Geraldo Schettini. A colônia japonesa tinha como principal líder Iraziro Toyama e também era representada por Genki Toma, Yokikama Kuba e Taru Tokata. Os judeus em São Carlos eram

representados por comissão formada por Aron Schens, Samuel Averbeurg, Leiba Levin e Isaias Carandah.

Certamente, a forte participação das colônias de imigrantes deve-se ao fato de esses grupos aproveitarem o ensejo proporcionado pela convocação à participação cívica para mais facilmente se integrarem à vida social e política de seu novo país.

“Bendita cidade de São Carlos, cujos estrangeiros que aqui comungam com o nosso trabalho e progresso, prontificaram-se imediatamente e já trabalham, cada qual nas suas valiosas atribuições, dando assim um requinte de valor à nossa causa e quanto vale a nossa sincera hospitalidade” (CSC, 24/07/1932).

Geralmente organizadas em clubes e associações, as diversas colônias estrangeiras radicadas no Estado de São Paulo chegaram a ponto de criar uma espécie de competição onde a vencedora seria aquela que oferecesse mais contribuições à causa constitucionalista. Nisso ocorreu um episódio curioso: a colônia alemã se mobilizou rapidamente ao saber que os italianos haviam doado três caminhões - ambulâncias e, num esforço germânico, doaram em poucos dias outros cinco para a Cruz Vermelha.

Benzer Belgeler