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2. KURAMSAL ÇERÇEVE

2.4. Tutum

A história do jornalismo, que tem o seu primeiro exemplar diário em 1650106, passa por sucessivas etapas de sobressaltos que aproximam a morte do jornal impresso em função da expansão de outras. Atualmente, a discussão gira

103 O

site de relacionamentos Orkut faz parte da empresa norte-americana Google. Disponível em:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u20710.shtml. Acesso em: 26 de abril de 2006.

104 “formulário coletivo de coleta de notícias”.

105 “Este convite para ser a mídia, e assim desafiar as definições tradicionais que eram

consideradas como notícia, bem como quem era qualificado como jornalista, era muito consistente com ethos animating da Internet. Centenas de websites renovados começaram a aparecer a partir

do acontecimento de 11 de setembro, disponibilizando testemunhas oculares, fotografias pessoais, e em alguns casos com cenas de vídeo mostrando o desastre”.

106 A primeira publicação diária foi

em torno das novas mídias, que surgem da convergência dos computadores com as telecomunicações. Vale lembrar que a queda na venda de jornais se dá desde 1930. Patten lembra a ocasião em que Ted Turner proclama a tragédia anunciada dos jornais:

Em 1981, durante a convenção anual da American Newspapers Publishers Association, Ted Turner (empresário de televisão a cabo) disse para o público que a sua mídia tinha mais efeito que o deles. Para ele, cortar árvores para publicar jornais era um negócio ineficiente. Os jornais estavam com os dias contados (1986, p. 3).

Mesmo que a opinião de Turner possa parecer um ponto de vista radical, não se pode negar que a década de 80 traria significativas mudanças para a indústria da comunicação. De certo modo, isso já estava previsto dentro das próprias redações, com a entrada do videotexto, assunto que será tratado no quarto capítulo, e principalmente quando a web torna-se popular nos lares norte- americanos por volta de novembro de 1993. De 1993 a 1997, o número de websites passa de 150 para 2.45 milhões.

Na luta pela sobrevivência, a mídia impressa vende-se muito pela possibilidade de dar a notícia em profundidade. Para isso, foi criada a reportagem, que conta com recursos como pesquisa, que visa a ampliação e a problematização dos assuntos tratados em outras mídias, como o rádio e a TV. “Dessa forma surgiu o chamado jornalismo interpretativo, também conhecido como jornalismo em profundidade, jornalismo explicativo ou jornalismo motivacional” (ERBOLATO, 1991, p. 31).

O jornalismo na Internet seria mais uma possibilidade de agregar conteúdo à matéria vista na TV, ou escutada na rádio e também lida no jornal. Devido ao (ciber)espaço ser ilimitado, há condições de se apresentar muito mais texto, fotos, infográficos e até vídeo e áudio para o usuário, além da atualização ser constante, em tempo real, ou “fluxo contínuo” (ADGHIRNI, 2002, p. 305).

A mídia tradicional sofre limitações de tempo e espaço, que implicam em desfavorecimento do jornalismo contextualizado (PAVLICK, 2001). Já o jornalismo online, que tem como uma das suas principais características a contextualização,

pode favorecer a cidadania e a democracia porque à matéria podem ser linkadas distintos pontos de vista disponíveis na rede. Essa noção não é nova, mas de fato nunca foi aproveitada pela maioria dos meios de comunicação, “only in an interactive, broadband online medium can context be provided for complex, multidimensional news events where perspective and point of view are centrally important in understanding the complete truth behind the news“107 (PAVLICK, 2001, p. 23).

A rede representa a coletividade de idéias. Pode-se ler as notícias nos portais de conteúdo, acessar a versão online do jornal preferido e ainda ampliar a leitura com a navegação pela blogosfera.

O jornalismo online está em busca de uma linguagem própria. Mesmo que exista há mais de dez anos, o jornalismo online explora lentamente as potencialidades do meio (web). Muitos são os motivos para essa constatação: desde o inicial medo dos grupos de comunicação em diminuir os lucros a partir da disponibilidade do material virtual em concorrência com o impresso (período de simples transposição para o novo meio), passando pela pouca adesão de usuários na rede, sobretudo nos países subdesenvolvidos como o Brasil e, ainda, as limitações técnicas do próprio meio, por exemplo, a largura de banda, fundamental para que a linguagem do jornalismo (que agrega hipertextualidade, multimidialidade e a interatividade) seja aprimorada.

Esse tempo de experiências é necessário. Sempre foi assim. Além de se desenvolver uma narrativa específica, é preciso que a tecnologia esteja disponível para a população e ainda assim que as pessoas saibam receber/participar da mensagem.

O surgimento de um novo medium impõe aos demais uma

reformulação qualitativa de métodos de elaboração, codificação e morfologia, a fim de que mantenha sua popularidade – o atributo que compreende a satisfação consciente da necessidade de informação da massa. Impõem, igualmente, uma reformulação no campo da educação do receptor que deverá ser alfabetizado na linguagem dos novos media, pois só assim o jornalismo alcançará a sua finalidade primordial (BELTRÃO, 1980, p. 14).

107 “Somente em uma mídia interativa e banda-larga pode o conteúdo ser fornecido para os

eventos complexos e multidimensionais da notícia nos quais a perspectiva e o ponto da vista são centralmente importantes em compreender a verdade completa atrás da notícia”.

Foi impulsionado pelo advento de Gutenberg e, sobretudo, pela Revolução Industrial, que o jornalismo, que passa de artesanal a profissional, inicia o processo de construção de sua linguagem. Como indústria, o seu público amplia e constitui a massa. “Anonimato, dispersão, heterogeneidade e falta de organização são as características” (BELTRÃO, 1980, p. 13). É necessário, então, criar uma linguagem padrão, a fim de que sua mensagem seja decodificada.

Uma linguagem que, numa inversão do desenvolvimento histórico da comunicação humana, primeiro é idiomática escrita (grafojornalismo); em seguida, retoma, imprimindo-lhes cinesia e nova sintaxe, os signos icônicos das cavernas, dos vitrais e dos retábulos (cinejornalismo); logo depois com um dardo, alveja à distância com o oralidade (radiojornalismo); e enfim, como um temporal cobre as lonjuras do mundo com a imagem luminosa, o som e as vozes do conhecimento, no exato momento em que ocorre (telejornalismo). (1980, p. 14).

Desde os primórdios da profissão de jornalista, encontram-se registros de que as histórias podem conter distintos interesses. Muitas discussões a respeito dessa questão apontam que a imprensa tem um valor inestimável no que diz respeito à democracia. Informar o público e desempenhar o papel de cão de guarda. Esses valores estão enraizados na história do jornalismo, cujos “princípios clássicos baseiam-se na idéia de esclarecer cidadão, relacionados a critérios de objetividade que dizem respeito ao suposto poder de verdade” (MORETZSOHN, 2003, p. 55).

Porém, é justamente a noção de objetividade apontada como “uma das principais virtudes da matéria jornalística, qualidade defendida há quase um século pela imprensa americana, espelho de muitas, inclusive a brasileira“ (AMARAL, 1996, p. 17), que está em crise.

É muito difícil classificar os princípios que guiam esse “paradigma” do jornalismo. Ainda mais desafiador é aplicar tais critérios no dia-a-dia das redações. Imparcialidade e equilíbrio na hora de redigir uma história dependem de muitos fatores externos e internos sujeitos à subjetividade de cada repórter.

A proposta de uma linguagem absolutamente transparente, por trás da qual se apresentasse o fato íntegro, para que o leitor produzisse seu julgamento, conduziu os jornalistas a atitude de indagação e lhes deu, em certas circunstâncias, o poder de buscar o seu próprio ponto de equilíbrio, desenvolvendo um conceito de verdade extraído dos fatos

com extraordinário poder de convencimento dos próprios fatos (LAGE, 2001a, p. 35).

A história das agências de notícias, sobretudo a Associated Press, contribui nesse aspecto. Com o seu surgimento inicia-se a produção de uma notícia que continha um padrão: uniforme, neutra e imparcial. Criada por um grupo heterogêneo de jornais que precisa diminuir custos de cobertura, a AP teve como premissa oferecer uma matéria sem comprometimento editorial. Daí o valor conferido à isenção que começa a reger o mundo das notícias.

Embora os jornais norte-americanos tenham importância fundamental na expansão e adoção do conceito de imparcialidade, os jornais ingleses foram os primeiros a entrar na era da objetividade.

A Penny Press inicia o processo de venda avulsa. Representa o novo rumo que a imprensa tomaria. “A sociedade passa a ser a própria notícia, o que acaba redefinindo as noções de público e de privado” (AMARAL, 1996, p. 30).