Goiá
De que me adianta viver na cidade Se a felicidade não me acompanhar
Adeus, paulistinha do meu coração Lá pro meu sertão, eu quero voltar Ver a madrugada, quando a passarada
Fazendo alvorada, começa a cantar Com satisfação, arreio o burrão Cortando estradão, saio a galopar E vou escutando o gado berrando
Sabía cantando no jequitibá Por nossa senhora, Meu sertão querido
Vivo arrependido por ter te deixado Esta nova vida, aqui na cidade De tanta saudade, eu tenho chorado
[...]
Que saudade imensa do Campo e do mato Do manso regato que
Corta as Campinas
Aos domingos ia passear de canoa Nas lindas lagoas de águas cristalinas
Que doce lembrança Daquelas festanças
Onde tinham danças e lindas meninas Eu vivo hoje em dia sem ter alegria O mundo judia, mas também ensina Estou contrariado, mas não derrotado
Eu sou bem guiado pelas mãos divinas
Pra minha mãezinha já telegrafei E já me cansei de tanto sofrer Nesta madrugada estarei de partida Pra terra querida que me viu nascer Já ouço sonhando o galo cantando
O nhambu piando no escurecer A lua prateada clareando as estradas
A relva molhada desde o anoitecer Eu preciso ir pra ver tudo ali Foi lá que nasci, lá quero morrer.
* * * *
"Vixe, lá era bom demais! Sítio, Ave Maria, muito sossegado! Oxe, era bom demais de morar! Não tem lugar melhor do que aquele não!" (Leandro). É com saudades que Leandro lembra da terra em que nasceu e que deixou há poucos anos atrás: Mata Grande, no Estado de Alagoas. Em Mata Grande, morava, desde que nasceu, no sítio de sua família, que fica mais afastado da cidade. No sítio, vivem até hoje a mãe e mais cinco irmãos de Leandro, que vem de uma família de muitos irmãos: "Tudo mesmo parece que é 20!" (Leandro). A maioria mora em São Paulo e só os mais novos e dois irmãos casados continuam morando em Mata Grande. Leandro começou a trabalhar na roça da família aos sete anos de idade, plantando feijão, milho, mandioca e tendo que carregar sacos de feijão, de até 60 kg, nas costas: "Ave Maria, Deus me livre! Lá a gente carregava o feijão, não tinha carro de boi. Tinha que carregar nas costas pra casa, porque era meio longe, carregava na trouxa pra casa! Mas era sofrido, viu? Lá o cabra sofre mesmo!" (Leandro). O trabalho diário era pesado e Leandro precisou, desde cedo, aprender muitas coisas para conseguir sobreviver, pois o trabalho era a única garantia de que teriam alguma coisa para comer:
Porque, quando a gente é pequeno, a gente sofre mesmo um pouco. Também, oxe, eu comecei a trabalhar na roça tinha sete anos! E é sofrido! Oxe, amanhecia o dia, vai pra roça! E é puxado, o dia todinho com enxada
ou na foice, qualquer coisa...e tem que aprender tudo! Pra comer tem que saber fazer as coisas. Ficar parado não dá não! (Leandro)
E para conseguir o sustento da família, todos tinham que trabalhar: "Oxe, tinha que trabalhar! Todo dia tinha que trabalhar! [...] Todo mundo! Não tinha um que não trabalhava!" (Leandro). Em alguns anos, quando a colheita era boa, ainda conseguiam vender alguns sacos de feijão, ficando com um pouco de dinheiro no bolso. Mas havia anos que o que colhiam não dava pra vender e, às vezes, ficava complicado até para comer: "É, mas o cara tem que superar. Por Deus, né? [...] O ano que tirava pouquinho, tinha que segurar mesmo!" (Leandro).
Não havia muitas opções de trabalhos sem ser na roça, pois a cidade era muito pequena e não conseguia oferecer serviço pra todo mundo. As pessoas que moram na cidade acabam sendo até mais pobres do que quem mora na roça:
Se tivesse algum serviço, ficava por lá mesmo! [...] Porque lá, tem que ter serviço na cidade. [...] Ninguém chama pra gente trabalhar na cidade, porque lá não tem nada pra gente fazer! Vixe, é ruim demais isso! Porque lá, você trabalha de roça só, porque outro serviço sem ser a roça, você não tem não! Não consegue! (Leandro)
Com a falta de serviços na cidade, muitos falam sobre São Paulo, dizendo que era um lugar mais fácil de se conseguir as coisas, que dava para ganhar muito dinheiro e também juntar para poder voltar com "alguma coisinha": "São Paulo que é mais falado. Mas só a gente vindo pra cá pra ver como é que é!" (Leandro). Alguns também falam que São Paulo já foi bom e que, agora, não era mais a mesma coisa, que não "presta" mais pra conseguir nada, mas são poucos. E, assim, muitos deixam Mata Grande para tentar conseguir algum emprego em São Paulo: Leandro foi um deles!
Em 2007, um pouco antes de completar 18 anos, ele decide que era hora de sair de casa para "tentar a vida" na tão falada São Paulo, onde suas irmãs já moravam há bastante tempo: "Tem que sair pra conhecer outras coisas. O cara fica em casa, nunca sabe como é cidade grande assim. Tem que sair pra ver como é que é fora, né?" (Leandro). Já veio com trabalho certo, que o marido de uma prima havia conseguido, para trabalhar em uma obra, na construção de um prédio, registrado e tudo.
A viagem até São Paulo foi longa: três dias de ônibus! Veio desanimado por deixar sua terra e o "povo do Norte20
", mas com muitas expectativas: “Opa, ai vai ser bom demais aqui, oh! Essa cidadona ai!” (Leandro). Chegando aqui, foi morar com as irmãs na Zona
20 Todos os participantes do presente estudo, ao se referirem à sua região de origem, na maioria das vezes,
Norte de São Paulo e estranhou que havia um pouco de "mata" no bairro em que moravam: “Oh, São Paulo me diziam que era uma cidade que não tinha mata assim, mas lá é mais de...” (Leandro).
E foi só começar a trabalhar para perceber que o que falavam sobre São Paulo não era a realidade:
O cara...fala que São Paulo é isso, que São Paulo é bom, que vai ganhar muito dinheiro aqui. (risos) Que vai ganhar muito dinheiro...paga nada aqui! Um cabra...o salário da gente é tudo mixaria aqui. Aqui, tem vezes que o cara ganha só pra comer mesmo. Esse pessoal ai fica lá no Norte dizendo que: “Ah, o cara lá tá no São Paulo, tá bem de vida lá!”. Não sabe o que é vida aqui! (Leandro)
Então, logo no primeiro mês, a decepção chegou, pois achava que conseguiria juntar algum dinheiro, mas seus "patrões" não pagaram o salário prometido: "Peguei uns caras pra trabalhar que os caras não pagavam direito, nem nada. Pagavam num mês e outro não. Pagavam tudo enrolado!" (Leandro). E o trabalho na obra era pesado, mas este não era o problema principal: "O problema não é que é pesado, que a gente que é acostumado a trabalhar em roça lá, sabe o que é peso mesmo! Mas o negócio de trabalhar de graça também não dá, né?" (Leandro).
Passado este primeiro mês em São Paulo, Leandro já sonhava em voltar para sua terra: “Já vi que São Paulo não dá não! [...] Homem, eu vou voltar pra casa.” (Leandro). Mas como não queria voltar de "mãos vazias", agüentou ficar por cinco meses, só para ver se conseguia juntar alguma coisa para levar pro "Norte", mas não conseguiu: "Porque vim pra cá pra chegar lá com a mão limpa também, né? Ai vão dizer: 'Oxe, o cara tava fazendo o que em São Paulo que não arrumou nada?'. Mas também, em cinco meses, você não arruma nada não. Só uma mixaria mesmo!" (Leandro).
Voltou para Mata Grande com pensamentos de nunca mais voltar pra São Paulo e a viagem de volta foi uma alegria: "Quando a gente tá indo embora de novo, vixe, é bom demais, viu? Pra voltar, é bom! Quando a gente vai embora mesmo pra terra da gente, né?" (Leandro). Mas, em 2009, quando estava com 20 anos, a vontade de "tentar a vida pra cá" bateu de novo, pois um primo ofereceu seu emprego para ele, que era de "guardinha" de uma rua na Zona Sul de São Paulo, onde Leandro trabalha até hoje.
É, então, voltei pra mais uma vez, pra ver se dá certo! Por enquanto tá indo bem, vamos ver daqui pra frente mesmo! Quando eu vim da outra vez pra cá, que eu fui pro Norte de novo, eu falei: “Oxe, nunca mais vou no São Paulo mais, viu?”. O pessoal me perguntava como era São Paulo e eu falava: “Oh
resolvi vir pra cá de novo, eu falei: “Vou tentar mais uma vez, eu! Ficar só na terra da gente não dá não!”. (Leandro)
Leandro foi morar de aluguel, sozinho, na Vila Constância, uma das comunidades da região da Cidade Ademar e começou o trabalho de guarda em uma das ruas da região, perto dos bairros mais abastados. Em seu bairro, não conhece quase ninguém, só três primos e um colega. Só consegue visitar as irmãs de vez em quando, aos Domingos, pois trabalha de segunda à Sábado, das 6h às 18h e, por isso, não tem muito tempo de sair para outros bairros da cidade: "Eu mesmo não saio muito! Tem bairro que eu não saio também. Eu fico mais aqui nesse bairro. Quando eu saio, é ao redor mesmo do bairro." (Leandro). É também pela falta de tempo que Leandro só consegue freqüentar a Igreja de vez em quando e, às vezes, vai em algum bar no bairro, mas não gosta muito.
O trabalho de guarda ocupa a maior parte de seus dias e, apesar de muitos falarem que é um serviço fácil, porque fica "sentado o dia inteiro", muitas são as inseguranças que Leandro vive em seu dia-a-dia:
É complicado esse serviço aqui, viu? É complicado, tem muita responsabilidade! Preocupação demais! [...] O cara no meio da rua, protegendo os outros, vendo a hora da gente levar algum tiro ai, oh. Você tem umas preocupações. Tem um assalto, você vai dar uma de valentão? Você, e ai? Acaba morrendo e o homem que fica de boa. E ainda tem morador que não dá valor ao guarda, né? Tem morador que não dá! Tem uns que pagam e uns que não pagam! Ainda, quando tem roubo, ainda vem pra cima do guarda. Nem fala com o guarda, ainda vem dizer que o guarda viu e que não sei o que. Vem perguntar se a gente não viu. Eu chego a falar:
“Você não paga pra mim e eu tô olhando a sua casa!”. Vai falar pra polícia: “O guarda viu ai!”. Ai vem pra cima da gente! (Leandro)
Além da insegurança e do medo constante que o trabalho na rua traz, há também, mensalmente, as inseguranças do salário, que não é algo fixo, já que cada morador paga quando e quanto quer, sendo que outros nem pagam e ainda exigem segurança: "Acho que o complicado é isso: quando você for terminar de receber tudo, você já vai ter gastado quase tudo já!" (Leandro). Muitas vezes, Leandro já foi parar na delegacia, pois os moradores exigem que ele vá para contar o que viu: "Quando assalta as casas do pessoal aqui no bairro, só cai pra cima de mim!" (Leandro). E ele não pode reclamar, não pode falar nada, senão as pessoas param de pagar pelo seu serviço.
Foi através do trabalho na rua, que Leandro acabou conhecendo muita gente, como os guardas que trabalham nas ruas próximas e também as mulheres que trabalham como domésticas nas casas do bairro: "Porque, se não estivesse aqui, não conhecia ninguém aqui! Trabalho na rua...o cara conhece um monte de gente." (Leandro). Em muitas tardes, fica conversando com os outros "guardinhas", que, em sua maioria, também vieram do "Norte".
Apesar das dificuldades de seu trabalho, Leandro acha que qualquer serviço é bom para quem tem "coragem de trabalhar", "de pegar no pesado", mas a maioria das pessoas não quer esse tipo de serviço, querem algo mais fácil e, por isso, os serviços pesados acabam "sobrando" para quem vem da roça:
Esse pessoal que tá morando em casona, em predião, vai dizer: eles mesmo não fizeram isso! O pessoal da roça que fez isso, porque se não fosse o pessoal da roça pra ter coragem de fazer isso, eles não iam fazer não! Porque aqui ninguém tem coragem de trabalhar assim não, no pesado! Eles não sabem quem faz, né? Porque se soubessem como a gente sofre pra fazer isso, pra ganhar alguma coisa...Eles nunca pegaram no pesado pra saber como é que é! Só a gente que já pegou no pesado pra ver como é que é mesmo! Carregar saco de feijão na cabeça como eu já carreguei, não é brincadeira não! (Leandro)
E Leandro continua sonhando em voltar para sua terra, sente saudades do trabalho na roça, mesmo sendo puxado. Só continua em São Paulo para ver se junta algum dinheiro para levar para lá, mas seu plano mesmo é "agüentar" mais um pouco aqui e depois voltar para sua terra. Fala com sua mãe todos os Domingos: "Ela quer que eu vá embora pra lá de novo! O pessoal de lá liga direto pra eu ir pra lá." (Leandro). E a saudade acompanha Leandro todos os dias:
Eu prefiro mais a roça do que trabalhar assim em cidade grande. Porque a roça é...foi o meu primeiro serviço, meu primeiro trabalho! E acho que eu sou mais minha terra, mesmo mais trabalhosa, do que trabalhar em cidade grande assim! [...] É, eu tenho vontade de trabalhar de roça. Eu sinto saudade de trabalho de roça! [...] Eu nunca troco a minha terrinha por cidade grande assim não, porque eu tô aqui, mas tô doido pra ir pra casa! (Leandro)
Na roça, havia o trabalho pesado, a falta de dinheiro, o sofrimento, mas é onde também há sua família, casa sem aluguel, conhecidos por toda parte, "ar fresco da terra", cachoeira aos Domingos, terra pra plantar a própria comida, "liberdade para ir pra qualquer canto", ajuda entre os vizinhos: "Acho que lá tem tudo que a gente quer. Quem mora na sua cidade é quem sabe o que é, né? Quem nasceu lá." (Leandro).
Já, em São Paulo, tudo é mais "separado", não conhece quase ninguém: "Ninguém conhece ninguém, ninguém fala com ninguém!" (Leandro). O ar é abafado, por conta do "encalçamento": vem do cimento e não da terra. Não há liberdade para ir aonde quiser: se sente "preso". Aqui, é preciso pagar pra morar, o que dificulta juntar dinheiro: "Lá o cabra mesmo constrói. E aqui não! Aqui você acha que vai ficar numa boa e vai ficar mais apertado ainda!" (Leandro). As pessoas não se ajudam como na roça e o preconceito é grande com quem vem de fora:
Aqui, ninguém divide com ninguém não! Se você bater na porta de um pra pedir um copo d’água, ninguém quer dar não! [...] Porque você vai na casa de uma pessoa, se você vai pedir, daí fala que o cara é...ladrão, é mesmo, vamos falar mesmo! Eu tô indo pra casa, se eu passar assim em alguma rua e um morador tiver saindo, já fica pensando que a gente é algum ladrão. O pessoal pensa mesmo! Muitas vezes, eu já passei em rua assim e vi o pessoal saindo e fica olhando pra mim. [...] Ah, sei lá, esse pessoal que tem dinheiro quer...é muito orgulhoso! Tem medo da gente que vem do mato! [...] Pensam que a gente é algum bicho. (Leandro)
Mas, apesar de todos estes problemas, São Paulo também tem suas "partes boas", porque aqui é mais fácil conseguir algum serviço e ter algum dinheiro no bolso, porque você trabalha para os outros e recebe um salário, já na roça, eles trabalhavam para si e se não vendessem nada ficavam "sem nenhum centavo no bolso!". Agora, se fossem perguntar para ele como é São Paulo, Leandro daria o seguinte conselho: "Não vá pra São Paulo não, que se não arrumar alguma coisa, é melhor voltar mesmo. Porque se você não arrumar alguma coisa, você rala muito aqui em São Paulo, viu?!" (Leandro).
E, assim, Leandro continua sua luta com o corpo em São Paulo e o coração em Mata Grande, tendo como companheira as suas lembranças: "Não, pra lembrar, a gente lembra, né? O que o cara viveu...Todo mundo tem sua história pra contar! A gente nunca esquece o que viveu mesmo! Nunca esquece não!" (Leandro).