• Sonuç bulunamadı

1.5. Engellilerin Sosyal Yaşamda Yeri ve Algılanması

1.5.2. Engellilerin Günlük Yaşamda Algılanması

1.5.2.2. Sosyal Dışlanma

Durante o percurso do trabalho de campo, ocorreram mais encontros com os participantes do que somente aqueles em que suas narrativas de vida foram gravadas e mesmo nestes encontros, havia muito mais do que o gravador é capaz de captar. Como já foi dito anteriormente, a maioria dos encontros ocorreram nas casas dos participantes, sendo que, somente a conversa com Leandro foi realizada em seu local de trabalho, em uma das ruas da região, na qual trabalha como guarda. Assim, os outros encontros se configuraram muito mais

como visitas e pude experimentar toda a hospitalidade dos participantes, que me receberam de portas abertas em suas casas e em suas vidas.

A casa de Maria Nascimento e seu marido, Valdívio, foi a que mais freqüentei durante o percurso do trabalho de campo, devido à minha maior proximidade com Maria, que foi quem me ajudou a encontrar quase todos os participantes para a pesquisa e que também foi desenhando os contornos do estudo comigo. Todos os encontros com os participantes proporcionaram muito mais vivências do que somente o que é "visível" nas gravações das narrativas.

Assim, durante todo o caminho, fui registrando estes encontros no Diário de Campo: conversas que tive com os participantes; descrições e impressões dos bairros e das casas em que moram; descrição dos encontros; sons vindos da rua durante as conversas; os sucos, bolos, refeições que tive a oportunidade de receber durante estas visitas; os gestos enquanto contavam suas vidas; enfim, tudo aquilo que fica invisível ao fazer a transcrição de uma narrativa e que merece visibilidade.

Os encontros, como já foi dito, não tinham hora para acabar, com o intuito de deixar o participante mais livre para contar sua própria história, obedecendo muito mais o seu tempo interior, do que o tempo marcado nos relógios. Por isso, eles duraram de uma hora e meia a quatro horas. O gravador só foi utilizado enquanto a pessoa narrava sua vida e, em outras conversas que ocorriam durante as visitas, ele não foi ligado.

Durante estas conversas, combinei com cada participante que entregaria uma cópia da transcrição de sua narrativa, caso fosse de seu interesse. Muitos gostaram da idéia, pois sonhavam em ter suas vidas escritas. Senti, então, a importância de registrar suas narrativas e devolvê-las para eles, que ficavam impressionados com o tanto de "páginas" de suas vidas. Maria, por exemplo, ficou surpresa quando falei que a transcrição de sua narrativa havia gerado 41 páginas e comentou: "Nossa, a minha história é grande mesmo!" (Maria Nascimento).

As transcrições foram como um segundo encontro com cada participante, com muitas horas despendidas neste trabalho para que nada do que foi falado se perdesse. Escutei cada história várias vezes e cada uma delas ficou "presa" em minha memória, como se fossem situações vividas por mim. Durante o trabalho de transcrição, mesmo com os devidos cuidados, sentia que muito se perdia, como os gestos, sotaques, olhares, lágrimas. A transcrição em si já faz com que mesmo alguns aspectos da fala sejam perdidos: a passagem

do oral para o escrito já traz perdas. A transcrição, como colocado por Bourdieu (1999), é uma verdadeira tradução e até uma interpretação.

[...] tudo o que foi perdido na passagem do oral para o escrito, isto é, a voz, a pronúncia (principalmente em suas variações socialmente significativas), a entonação, o ritmo (cada entrevista tem seu tempo). [...] Assim, transcrever é necessariamente escrever, no sentido de reescrever: como a passagem do escrito para o oral que o teatro faz, a passagem do oral para o escrito impõe, com a mudança de base, infidelidades que são sem dúvida a condição de uma verdadeira fidelidade. [...] Existem as demoras, as repetições, as frases interrompidas e prolongadas por gestos, olhares, suspiros ou exclamações, há as digressões laboriosas, as ambigüidades que a transcrição desfaz inevitavelmente, as referências a situações concretas, acontecimentos ligados à história singular de uma cidade, de uma fábrica ou de uma família, etc. (BOURDIEU, 1999, p. 709-710)

Foram feitas duas versões das transcrições: uma literal com tudo o que foi falado por mim e pelos participantes, mesmo com os vícios de linguagem, erros de colocação, gírias, entre outros aspectos da linguagem oral; e outra revisada, adaptada, diminuindo os vícios de linguagem, corrigindo os erros de colocação, tornando a leitura da narrativa mais fácil de acompanhar e também como uma forma de respeito por cada participante. Foram entregues as duas versões para eles, que poderiam escolher quais delas eu deveria utilizar em meu estudo. Eles acabaram deixando a escolha em minhas mãos, dizendo que não se importavam e optei por utilizar a versão adaptada.

Além das duas versões das narrativas transcritas, também entreguei um CD com a gravação das conversas, que foi recebido com surpresa e alegria por alguns participantes, como Maria, que assim que recebeu o CD, já colocou no rádio para escutar:

Deu risada ao ouvir sua voz no rádio e depois ficou alguns minutos quieta escutando a gravação. Ficava com um sorriso no rosto escutando sua voz, escutando sua própria história. Então, seus olhos começaram a se encher de lágrimas e ela disse que escutaria um pouco a cada dia. Deixou o rádio tocando sua história mesmo enquanto conversávamos, ficando como "trilha sonora" do nosso encontro. (Trecho retirado do Diário de Campo)

A narrativa gravada parecia algo mais acessível aos participantes do que a narrativa transcrita. Era algo que eles poderiam escutar enquanto estivessem fazendo suas atividades diárias e que poderiam mostrar para os outros também. Uma lembrança concreta, com sua história gravada para sempre.

A devolução das conversas transcritas e gravadas se configurou como um rico momento de "revelação" para os próprios participantes, que tinham, agora, suas histórias concretas em suas mãos: tanto para ler, como para escutar, podendo compartilhá-las com quem quisessem. "Revelação" também para mim, que tinha as histórias gravadas não só no

papel, ou no CD, mas também em minha memória. E, agora, meu papel é re-narrá-las, na tentativa de que se tornem também uma "revelação" para quem as ler neste estudo.

[...] as entrevistas transcritas estão à altura de exercer um efeito de revelação, particularmente sobre os que compartilham tal ou qual de suas propriedades genéricas com o locutor. [...] Capazes de tocar e de comover, de falar à sensibilidade, sem sacrificar ao gosto do sensacional, podem levar junto as conversões do pensamento e do olhar, que são freqüentemente a condição prévia da compreensão. (BOURDIEU, 1999, p. 711)

Benzer Belgeler