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Dois aspectos se relacionam e naturalizam relações socialmente estabelecidas: as diferenças culturais são compreendidas como desdobramento biológico e os exemplos retirados do vocabulário da biologia são interpretados a partir de elementos culturais. Em ambos os casos, o resultado é a essencialização de relações historicamente produzidas. Um dos exemplos mais expressivos da associação entre biologia e cultura é a comparação feita entre os cérebros masculinos e femininos (ver anexos C e D). O cérebro feminino, que tem como ponto central a emotividade (hemisfério da necessidade de compromisso, em forma de coração), é expresso por emoções (―centro nervoso do ciúme‖), algumas compulsões (―núcleo de roupas e sapatos‖, ―centro de chocolate‖, ―célula do consumismo desenfreado‖) e pontos menores que indicariam as dimensões mais ―racionais‖ (―partícula de leitura de mapas‖, ―neurônio de estacionamento paralelo‖, ―célula de sentido de direção‖). É notável que a proporção entre os âmbitos mais emotivos e os mais racionalizados são claramente distintas. Ao localizar no cérebro tais disposições, toma-se como decorrência biológica padrões de comportamento socialmente construídos, sejam eles direcionados ou não às mulheres.

O cérebro masculino, que tem como ponto central a sexualidade (em forma de círculo), reserva campos maiores às atividades que requerem habilidade física (―esportes‖, ―atividades perigosas‖), facilidade de se esquivar ―das pressões inconvenientes‖ (―impulso de mentir e exagerar‖, ―segmento de fuga a perguntas de cunho pessoal‖, ―glândula das desculpas esfarrapadas‖) e campos menores para atividades relacionadas aos cuidados domésticos e em relação aos filhos (―neurônio para ouvir choro de criança no meio da noite‖, ―habilidades domésticas‖, ―sinapse de roupa bem passada‖). Mesmo apresentando características que, na prática, podem se associar a uma figura do ―machão‖ (tem força física, habilidade para mentir, não é protagonista nas tarefas domésticas), ainda assim não se atribui uma conotação negativa a esse modelo de comportamento; ele é apenas justificado.

Pode-se argumentar que a proposta do livro é mostrar uma ―visão científica e bem- humorada‖ das diferenças entre homens e mulheres. Não se perde de vista que o cérebro é utilizado como metáfora que fala sobre as diferenças de comportamento, porém o recurso

113 simultâneo ao dito discurso científico e ao riso acaba por provocar duas formas de aceitação das diferenças conforme são justificadas: pela autoridade da ciência usada como fonte de explicação e pelo riso que confirma determinados lugares sociais, reforçando sua concepção.

Ao justificar as diferenças cerebrais, os autores se remontam novamente ao suposto passado ancestral de homens e mulheres (PEASE & PEASE, 2000, p. 38):

[c]omo já dissemos, os cérebros masculinos e femininos evoluíram com potência, capacidades e talentos diversos. O homem, responsável pela caça, precisava de áreas no cérebro que comandassem a travessia de longas distâncias, com o desenvolvimento de táticas para localizar e atingir o alvo. Não tinha de ser bom de conversa nem se ligar nas emoções alheias. Por isso, não produziu em seu cérebro regiões importantes dedicadas ao relacionamento interpessoal.

A mulher, ao contrário, precisava da aptidão para percorrer pequenas distâncias, visão periférica mais ampla para monitorar o ambiente em volta, habilidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo e boa capacidade de comunicação. Como resultado dessas necessidades diferentes, os cérebros masculino e feminino desenvolveram áreas específicas para comandar cada tarefa.

A narrativa, ao mencionar que o cérebro se adaptou a determinadas tarefas, separadas por gênero, o faz ao tratar tal adaptação como única oportunidade na história. Na remota ―época das cavernas‖, cenário ao qual os autores se reportam para falar do passado, os cérebros teriam se adaptado para determinadas funções, de uma vez por todas. Ao atrelar essa adaptação a uma dada concepção de gênero, constroem uma exposição em que lugares fixados de gênero são requeridos a todo o tempo.

É útil relembrar aqui as ideias de Connell sobre a construção social de masculinidades e feminilidades como resultantes de processos sociais e não como derivações da condição biológica. Para construir uma ideia de masculinidade associada ao caráter mais frio/agressivo e belicoso21, ao lado de uma feminilidade mais emotiva, Allan & Barbara Pease invertem a ordem dos acontecimentos. Ao invés das tarefas surgirem como resultado de divisão social de tarefas, ―resultam das necessidades‖ dos cérebros em se adaptarem às funções que lhe fossem adequadas: os homens, adaptados para enxergar ―longas distâncias‖ e as mulheres atentas a aquilo que estivessem ―em sua volta‖ (com o detalhe que estão aptas para várias atividades ao mesmo tempo22). Por esse raciocínio, a organização social é

21 ―O homem evoluiu com três responsabilidades: guerrear, proteger e resolver problemas‖ (PEASE & PEASE,

2000, p. 64).

22 Uma das consequências é a atribuição ―feminina‖ a determinadas profissões (PEASE & PEASE, 2000, p. 71):

―Veja a carreira de secretariado. Nesse trabalho, cumprir várias tarefas ao mesmo tempo é uma necessidade. Não é de admirar que, em 1998, das 716.148 pessoas que seguiam essa profissão no Reino Unido, 99,1 por cento

114 concebida como decorrente da composição cerebral de seus membros. Significa, em última instância, que as diferenças são pensadas não somente em termos de simbologias, mas também enquanto estruturantes das posições sociais em seu sentido mais amplo.

O livro também se utiliza do teste psicológico do perfil cerebral, um recurso criado por algumas correntes da psicologia que utilizam questionários como forma de classificação de determinadas personalidades, ao mesmo tempo em que as quantificam. O teste é feito através de 30 perguntas e apresenta como resultado uma escala que varia do cérebro supermasculino ao cérebro superfeminino.

Como a tendência da essencialização é generalizar uma determinada concepção, indiretamente a cultura urbana do modo de viver ocidental é o pano de fundo dos exemplos apresentados pelos autores: ―as mulheres usam o banheiro como espaço para reuniões sociais e sala de terapia‖, ―sob pressão, os homens bebem e começam guerras. As mulheres comem chocolate e vão fazer compras‖, ―o homem moderno consegue facilmente encontrar o caminho de um bar muito afastado, mas não é capaz de achar qualquer coisa na geladeira‖, dentre outros exemplos que provavelmente se relacionam com o cotidiano de um determinado segmento de pessoas, não das camadas sociais como um todo.

Benzer Belgeler