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Para finalizar, passaremos a apresentar o terceiro grupo de pesquisas que se caracteriza pelo objetivo de relacionar a análise de gêneros ao contexto digital. A pesquisa de Batista (1998) poderia ser enquadrada no segundo grupo, pois a autora considera que seu trabalho assume aplicação ao ensino de inglês instrumental (...) e aplicação ao ensino de inglês para fins gerais (pp. 141-143), no entanto, a autora também assume que sua investigação se empenha em estudar o propósito comunicativo do gênero, o qual ela designa de e-mail de troca de informação, escrito em inglês por funcionários de uma multinacional no Brasil.

Nosso interesse principal não reside, exatamente, na descrição que é feita do referido gênero, mas na aplicação dos critérios de comunidade discursiva de Swales (1990) ao grupo pesquisado, ainda que essa aplicação não seja realizada de maneira

satisfatória. Batista (1998) se limita a, praticamente, citar os critérios sem relacioná-los com profundidade à comunidade pesquisada, conforme já mencionado no capítulo anterior. Talvez valha a ressalva de que a autora deixa de observar a reformulação que Swales (1992) realiza em sua concepção de comunidade discursiva.

Xavier & Santos (2000) sugerem, ancorados em Bakhtin (1997), que a Web, enquanto esfera complexa de comunicação, absorve gêneros primários e secundários, simultaneamente, gerando o que eles estão chamando de gêneros hipertextuais (p. 54), rótulo também adotado no presente estudo. Estes autores consideram que o hipertexto, além de reconfigurar a escrita e enriquecer a linguagem com uma superposição de sistemas semióticos, mistura as várias funções sócio-comunicativas de gêneros anteriores aos hipertextuais. Evidentemente, estas três características não aparecem com a mesma intensidade em todos os gêneros deste domínio discursivo e, por esta razão, os autores ponderam:

Certamente, em cada um dos gêneros hipertextuais haverá uma tendência ao predomínio de um dos sistemas sígnicos. Constata-se na prática linguageira das salas de bate-papo, os chamados chats, o emprego intenso de emoticons e figuras, algumas delas até com recurso de animação, a fim de se obter um ritmo conversacional mais próximo do diálogo cotidiano. O mesmo já não ocorre com os Fóruns Virtuais e com os E-mails nos quais se usam menos expressões indicadoras de emoção, poucas figuras e mais enunciados verbais (Xavier & Santos, 2000: 55).

Embora não descrevam um gênero em particular, as considerações teóricas mencionadas, acima, vêm ao encontro da proposta de nossa pesquisa. Além disto, os autores assumem que as questões referentes aos gêneros oriundos da Web necessitam de análises mais refinadas, a fim de ganhar consistência e se consolidar no cenário dos estudos relativos aos gêneros (p. 57).

Em um outro estudo, Xavier & Santos (2000a), partindo da mesma concepção teórica, descrevem o fórum eletrônico como um gênero hipertextual. Deste estudo, interessa-nos a análise que os autores fazem das escolhas lingüísticas usadas no referido gênero. Entre estas escolhas, os autores analisam os períodos curtos, os truncamentos e as abreviações como marcas da oralidade que simulam o debate em fóruns presenciais.

Neste contexto, tal estudo, também, nos oferece suporte para a análise que apresentaremos mais adiante.

Um estudo bastante inovador sobre o discurso eletrônico foi o desenvolvido por Komesu (2001). A autora levantou a hipótese de que as home pages pessoais ou, simplesmente, páginas eletrônicas marcavam o surgimento de um novo gênero caracterizado pela função fática da linguagem. Para verificar tal hipótese, este estudo comparou 50 páginas eletrônicas, retiradas da Internet, com a escrita das apresentações pessoais encontradas em orelhas de livros impressos, em (auto)biografias, cartas manuscritas e e-mails pessoais, a fim de identificar o que pode ser tomado como característico dessa escrita digital, no âmbito de convivência com outras práticas de escrita (Kosemu, 2001: 11).

A conclusão da autora é que a home page pessoal é um gênero do discurso, cujas características apontam para a tentativa de o escrevente representar aspectos prosódicos da conversação na modalidade escrita (p. 91). A análise dos sinais de pontuação como exclamação, interrogação e reticências nos chamam a atenção por assumirem funções similares no chat. Além deste interesse, apoiamo-nos na pesquisa de Komesu (2001) para apontarmos a home page como um dos gêneros35 que organizam a comunicação na comunidade discursiva dos Tananans, conforme mostraremos no item 5.4.

Abreu (2002) ressalta que as novas tecnologias têm constituído novos gêneros do discurso, destacando o uso do computador conectado em Rede como um forte instrumento facilitador da aprendizagem. A autora assume o chat como um legítimo gênero que possui regularidades, ainda que não bem definidas. Seu estudo, no entanto, elege o chat educacional, deixando de contemplar o que ela chama de chat social. Segundo a autora a transposição do chat do contexto social mais amplo para o contexto da educação propicia o surgimento de um novo gênero educacional (p. 88). O nosso interesse neste trabalho reside na questão de a autora assumir o chat como um gênero,

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Sobre a classificação de uma home page como gênero não existe consenso entre os autores. Marcuschi, por exemplo, é categórico quando avisa ao seu leitor: antes de mais nada, ressalto que não vamos tratar como gênero a home page [...], já que ela não passa de um ambiente específico para localizar uma série de informações, operando como um suporte e caracterizando-se cada vez mais como um serviço

além de adotar a concepção teórica de Bakhtin (1997). Adicione-se, ainda, que o nosso objeto não assume o propósito comunicativo daquele analisado por Abreu, embora ambos sejam chat, um gênero em constituição que entre as características a autora aponta os emoticons (p. 88). Enquanto aquele abriga um número bem restrito de participantes, o chat aberto abriga um grande número de usuários.

Não podemos deixar, ainda, de mencionar dois trabalhos atuais de Marcuschi (2002; 2002a), onde encontramos reflexões teórico-metodológicas acerca dos gêneros emergentes do meio digital. Nestes trabalhos o autor compreende que a cultura eletrônica favorece uma explosão de novos gêneros (2002: 19) e que esses gêneros têm características próprias e devem ser analisados em particular (Marcuschi, 2002a: 13).

Nestes últimos estudos sobre gênero, o autor sugere, apoiado em Bakhtin (1997), que o analista de gêneros eletrônicos observe a composição, o estilo e o tema, além de ser crucial o fato de se considerar a integração de recursos semiológicos (Marcuschi, 2002: 15) como parte constitutiva das marcas desses eventos. Assume relevância para o nosso trabalho a atenção que Marcuschi dá às formas de semiotizações. Segundo o autor, convém ao analista, que estuda esse objeto, observar os emoticons como uma das formas de semiotizações, além de verificar outros índices que se manifestem pela escrita em um estilo fragmentário. Acrescente-se o fato de o autor considerar indispensável à descrição dos recursos operacionais disponíveis nas salas de chat (Marcuschi, 2002a: 24), os quais, por simularem gestos e atitudes de um diálogo face a face, configuram-se como características importantes desse gênero.

Finalmente, outro aspecto fulcral para a nossa pesquisa incide na questão da transmutação, também adotada por Marcuschi (2002: 20), quando observa que seguramente, esses gêneros não são inovações absolutas, quais criações ab ovo, sem ancoragem em outros já existentes. O fato já fora notado por Bakhtin [1997] que falava na transmutação dos gêneros e na assimilação de um gênero por outro gerando novos. Este aspecto foi assumido em Araújo (2002), onde, considerando o hipertexto internetiano como um modo de produção textual que gera gêneros com características hipertextuais, descrevemos, em um pequeno artigo, as marcas hipertextuais do chat, estudado como gênero de uma esfera complexa de comunicação que é a Web. Naquele estudo, iniciamos uma discussão a respeito da intersemiose som-imagem-escrita como

marca da mudança de esfera sofrida pelo diálogo cotidiano. A discussão é retomada e ampliada nesta Dissertação.

Consoante vimos, na exposição sucinta que fizemos acima, as pesquisas, cujo objeto foi o texto eletrônico, permitiram que nos ocupássemos do chat para caracterizá- lo como um dos gêneros eletrônicos. Das que se ocuparam desse empreendimento, os gêneros contemplados foram o e-mail de troca de informação, a lista de discussão, a home page e o chat educacional. Com exceção das reflexões apresentadas por Marcuschi (2002a) e das que fizemos em Araújo (2002), parece inexistir, no Brasil, um estudo mais exaustivo que caracterize o gênero chat. Em adendo, excetuando-se Bernardino (2000), que caracteriza como comunidade discursiva os Alcoólicos Anônimos, que mantêm a troca de depoimentos numa lista de discussão em um ambiente internetiano, constata-se, ainda, que não existe um estudo aplicando a referida noção em uma sala de chat.

Neste sentido, a presente pesquisa pretende contribuir com os estudos sobre os gêneros digitais, especificamente, no entendimento do chat que não possui o propósito comunicativo educacional, mas que se apresenta como um gênero reconhecido e usado como suporte verbal de uma determinada comunidade virtual que se constitui, também, em uma genuína comunidade discursiva.

Benzer Belgeler