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Embora McCleary (1996) se ocupe da lista de discussão, uma modalidade assíncrona de CMC, caracterizando-a a partir das marcas de oralidade que ponteiam este discurso, julgamos pertinente observar as considerações que o autor faz a respeito das interações síncronas que ocorrem na Internet. Neste sentido, o nosso interesse se centra na discussão, apresentada pelo autor, sobre o IRC. Em relação a estas conversações, interessa-nos a descrição feita do contexto técnico. Segundo sua análise, o controle das

infinidades de janelas que o internauta julgar conveniente abrir, durante a sessão de chat, torna essa modalidade de comunicação bastante complexa (p. 31).

De acordo com McCleary (1996: 31), a complexidade conversacional potencialmente supera até aquilo que um conversador hábil consegue administrar durante um coquetel animado. Esta assertiva do autor se refere ao número de participantes do chat que, na maioria dos casos, é grande. Para conseguir falar com muitas pessoas, ao mesmo tempo, o usuário precisa controlar as muitas janelas que se abrem e se fecham, de acordo com os tópicos que esteja desenvolvendo, reservadamente, com outros usuários.

Para o autor, esta participação numerosa incide na troca e organização do turno, que se torna complexa. Os pares adjacentes, devido à rapidez com que se dá esta modalidade de CMC, não parecem mais adjacentes e o usuário deverá realizar as ligações coesivas mentalmente. Concomitante a isto, o autor salienta o uso das abreviações e dos emoticons como um repertório grande de código para representar o não-verbal e como pistas relevantes para manter a participação ativa dos usuários (p. 35).

Essas observações são importantes para nossa pesquisa por algumas razões. Em primeiro lugar, um dos objetivos que orientaram esta investigação foi o de descrever o contexto técnico, presentes nas telas do chat, para relacionar a complexa intersemiose gerada neste contexto à transmutação do diálogo cotidiano para a Web. Em segundo lugar, chamou-nos a atenção o fato de o autor considerar complexa esta atividade de interação, pois nos dá margem para seguir a proposta de Bakhtin (1997) sobre a formação dos gêneros. Além disso, a interpretação que McCleary (1996) faz das abreviações e dos emoticons se assemelham ao que fizemos nesta pesquisa. Dito de outra maneira, o que McCleary (1996: 29) aponta como complexidade das conversações, estudamos aqui como marcas de um novo gênero que surge como resultado das complexificações, pelas quais passam o diálogo cotidiano quando absorvido pela esfera em questão.

Vellasco (1999) assume um enfoque teórico-metodológico da sociolingüística interacional para investigar os provérbios e outras expressões populares em uma lista de discussão. Embora se trate de uma análise de uma modalidade assíncrona de

comunicação, esta pesquisa, também, nos interessa na medida em que a autora observa as ocorrências de abreviações e emoticons em seu corpus. Como a pesquisa se serve dos conceitos da Análise da Conversação, as abreviações e emoticons são analisados como marcadores conversacionais, ainda que abreviações como vcs [vocês] sejam entendidas, também, como marca denotativa de pressa e informalidade (p. 130). A conclusão de Vellasco (1999: 139) é que o discurso internáutico [favorece] uma tecnologização da fala, que sustenta uma linguagem oral dependente da escrita. Esta conclusão remonta a nossa hipótese central, segundo a qual o chat é um gênero do discurso gerado pela mudança de esfera do diálogo cotidiano, ou seja, o que a autora chama de tecnologização da fala, chamamos, neste trabalho, de transmutação, já que o chat é, de fato, um diálogo reformatado pelo contexto plurisemiótico da Web, na qual se cruzam escrita, som e imagem para imprimir, neste evento interativo, as marcas do novo gênero. Para encerrar a discussão sobre as pesquisas deste primeiro grupo, passaremos agora a apresentar as três últimas, cujo objeto comum é o chat, investigado sob a perspectiva da Análise da Conversação. Contudo, o nosso interesse incide no tratamento que estes autores dão às formas abreviadas, aos emoticons e a outras características que são latentes neste tipo de interação virtual.

No trabalho de Hilgert (2001: 51), as formas abreviadas são interpretadas como uma das marcas mais evidentes do gênero chat. Segundo os resultados do autor, estas formas, em sua maioria, são formadas por um conjunto de letras que são reconhecidas pelo falante nativo da língua por fazerem essas letras parte de sua constituição gráfica (idem). Assim se expressa o autor: em nosso corpus identificamos as seguintes abreviaturas: N (não), q (que), tb/tmb (também), vc (você), hj (hoje), blz (beleza), tc (teclar), td (tudo), pq (porque), kd (cadê) (Hilgert, 2001: 51).

Esta citação nos leva a perceber que os internautas assumiram uma espécie de contrato de comunicação, segundo o qual é preciso reduzir o número de caracteres para interagir nas salas de bate-papo. As abreviações apresentadas por Hilgert (2001) não apresentam vogais em sua forma, restringindo-se às consoantes. Ao observar nosso corpus verificamos também muitas ocorrências similares, de modo que procuramos diferenciar, quantitativamente, as abreviações que excluem as vogais daquelas que as apresentam em sua forma, conforme se pode verificar no item 5.5.1.

Nader (2001), em relação ao chat dos canais de IRC, estudou as características lingüísticas, além da troca de turnos, da organização tópica e da identificação dos marcadores conversacionais. Centraremos atenção ao que a autora chama de características lingüísticas (p. 10) por ter uma relação mais direta com a proposta de nossa investigação. De acordo com Nader (2001: 50), as escolhas lingüísticas que aparecem no chat só podem ser compreendidas por quem possui conhecimento sobre as salas de bate-papo, haja vista, estas apresentarem um discurso permeado por abreviações, repetições de letras e de emoticons.

Em nosso estudo, apoiamo-nos em Bakhtin (1997: 302) para associar essas ocorrências às marcas próprias do gênero, pois a comunicação verbal na vida cotidiana não deixa de dispor de gêneros criativos. Além do mais, o fato de algumas pessoas estranharem as escolhas lingüísticas do chat pode, também, ser explicado se ancorarmos nosso argumento em Bakhtin (1997), pois segundo este autor

são muitas as pessoas que, dominando magnificamente a língua, sentem-se logo desamparadas em certas esferas da comunicação verbal, precisamente pelo fato de não dominarem, na prática, as formas do gênero de uma dada esfera (p. 303).

Fonseca (2001) caracteriza a alocação de turnos em salas de chat. Baseando-se em Cherny (1999)34, a autora aponta quatro características para o chat: a estrutura temporal, a granularidade da mensagem, o canal e a não estocagem de mensagem (p. 75). Destas características, interessam-nos a segunda e a terceira.

Em relação a granularidade, a autora mostra que os turnos longos não são constantes no chat porque reduz[em] o ritmo da conversação, o que a torna menos interativa (p. 76). Esta constatação de Fonseca (2001) vem ao encontro do nosso objetivo de identificar e classificar as abreviações como estilo do gênero e como opções lexicais da comunidade discursiva dos Tananans. Ora, se existem abreviações é porque os usuários não enviam e nem esperam turnos longos, portanto, tendem a observar a máxima da quantidade de Grice (1982).

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CHERNY, L. Conversation and community in a virtual Word. In. Standfork. Califórnia: CSLI Publications. pp. 149-199, 1999.

Quanto ao canal, a terceira característica, julgamos interessante o modo como a autora classifica os comandos dos atos ilocutórios. Segundo seu argumento, estes comandos, quando ativados, procuram reproduzir sinais prosódicos, paraverbais e não verbais presentes nas interações face a face (p. 77), além de assumirem a função [de] alocar turnos (p. 78). Em nosso trabalho, estes comandos são descritos e analisados como elementos geradores de complexificação do gênero, uma vez que, para ativá-los, o usuário deve manejar o teclado e o mouse, a fim de operar, simultaneamente, com mais de uma linguagem.

Benzer Belgeler