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I. BÖLÜM

2. TUR ZMDE ARZ VE TALEP

2.2. Turizm Talebi ve Özellikleri

2.2.3. Turizm Talebini Etkileyen Faktörler

A partir daqui, abordaremos, com maior detalhamento, a tipologia de violência que constitui o foco deste estudo, a violência intrafamiliar. Entretanto, o faremos mantendo sempre em mente que se trata também de um conceito historicamente construído e sujeito à mobilidade, além de não ser separável das demais formas de violência existentes no âmbito social.

Para tal, cumpre tecer, inicialmente, alguns comentários acerca do tema família. Importa destacar que a família, assim como todo sistema constituído nas relações humanas, não representa uma estrutura fixa e universal, estando sujeita às injunções históricas, culturais, econômicas, políticas e de ordem individual ao longo do tempo. Esse caráter é destacado por Cavalcante e Schenker (2009), quando descrevem a família como instituição historicamente construída, além de ser espaço potencial para abrigar a ocorrência de violência.

Algumas análises ressaltam o quanto o formato da família atual está vinculado ao desenvolvimento de processos econômico-produtivos. Engels (1884/1985) traz a função que o desenvolvimento da acumulação de riquezas e da propriedade privada exerceu no surgimento do casamento monogâmico, no estabelecimento de papéis de gênero hierarquicamente desiguais entre homens e mulheres e na alteração do formato e do significado dos sistemas de parentesco. Aponta igualmente que as estruturas familiares se alteram a depender das diferentes realidades de classe social. O significado das relações de responsabilidade dos pais quanto ao cuidado e educação dos filhos também responde a conjunturas históricas específicas, conforme analisa Foucault (2003), ressaltando que as exigências de produção e de reorganização dos espaços públicos a partir do século XVIII se refletem na divisão do espaço privado das residências familiares e no jogo de papéis e lugares que cada membro passa a ocupar nelas. O próprio status social e familiar da criança e da infância se presta a profundas modificações conforme diferentes conjuntos de regras sociais, valores e formas de conhecimento do mundo (Ariès, 1981).

Segundo Antoni, Barone e Koller (2007), o conceito de família, na atualidade, relaciona-se a um grupo de pessoas que nutrem um mesmo sentimento de pertencimento e aos laços afetivos que predominam nessas relações, saindo-se de uma visão mais tradicional desse conceito, que o relacionava aos vínculos de consanguinidade. Debert (2001), por sua vez, aponta que a família, hoje, afastou-se de um modelo patriarcal, completamente impenetrável pelo âmbito público, bem como não representa mais um reduto exclusivo de carinho e proteção paternal, baseado em um modelo de Estado do Bem-Estar (well fair stat) presente no pós- guerra. A autora entende que, diante da ideologia da cidadania e dos direitos humanos, a família passa a ser uma aliada do Estado no sentido de exercer papéis determinados diante de sujeitos que podem, potencialmente, malograr no desfrute desses direitos e da cidadania. Tratando especificamente da violência intrafamiliar contra idosos, ela reflete sobre os dilemas postos quando a valoração da cidadania vinculada à autonomia se confronta com a condição de dependência dessa população, abordando que, nesses casos, a família acaba tornando-se instância com deveres específicos normatizados pelo Estado no cuidado de tais membros.

Ferreira, Moura, Morgado, Gryner e Branco (2009) enfatizam que para se pensar a família como um contexto de violência, faz-se necessário dessacralizar essa instituição social e desnaturalizar a violência que ocorre em seu interior. Isso implica colocar em xeque concepções secularmente construídas que têm por base um ideal de sua constituição e de suas relações, em que a família é composta por pai, mãe e filhos, nos papéis de provedores, cuidadores e protegidos. As autoras chamam a atenção para que os profissionais, em muitas ocasiões, ainda perpetuam máximas naturalizadas do papel da família, acreditando que seus membros estariam imunes a um processo de socialização que é, em si mesmo, violento.

Antoni, Barone e Koller (2007) colocam que a importância de se abordar a violência intrafamiliar repousa em sua gravidade, que reside em atingir diretamente os processos desenvolvimentais em relação aos aspectos físicos, psicológicos e sociais dos seres humanos envolvidos, do sistema como um todo e da sociedade ao qual esse sistema pertence. Trata-se de fenômeno complexo que pode trazer consequências danosas para os indivíduos e a sociedade (Cavalcante & Schenker, 2009). A relação entre a violência familiar e a que se manifesta no sistema social mais amplo é também apontada por Guimarães (2010) e por Soares (2006).

Bucher-Maluschke (2004) explora a violência a partir da perspectiva de que ela pode ter sua origem em condições de ruptura dos processos de afetividade e vínculo, que se iniciam na família e podem estender-se para os contextos sociais, institucionais, políticos. A autora aponta que nenhum ser humano nasce agressivo, hostil, afetuoso ou amoroso, pois tais manifestações são aprendidas e se apresentam como potencialidades do sistema emocional. Enfatiza que, desde o início da vida, os afetos se organizam a partir da interação com o outro, em relações de aceitação, amor, rejeição e recusa, que, posteriormente, se organizam nas relações consigo mesmo. Os afetos se constituiriam, assim, numa dinâmica vincular, que tem na família seu núcleo essencial:

A família é um lócus onde nascem e amadurecem os afetos, onde se inicia a vivência do amor. É por meio dela que se desenvolve um espaço de aconchego, mas também onde seus membros experimentam conflitos, sofrimentos, injustiças, onde se desenvolvem a raiva, o ódio, que podem culminar até na violência. É no interior da família que se faz a aprendizagem social de base pelo reconhecimento das diferenças, da singularidade, das necessidades de cada um, da autoridade, da tolerância à frustração, da importância do compromisso e da negociação, do respeito às regras, passo fundamental para a aceitação no nível social mais amplo das normas, das leis. (Bucher-Maluschke, 2004, p. 160).

A autora enfatiza que a destruição do sentido das relações de confiança habituais, na família, faria que os sujeitos passassem a utilizar a agressividade e a violência como única forma possível de expressão e de autodefesa.

Embora a violência intrafamiliar venha sendo amplamente discutida atualmente, havendo crescente preocupação com o que pode ser considerado como um aumento em sua incidência (Antoni, Barone & Koller 2007), Bucher-Maluschke (2004) recorda que o fenômeno está presente, por exemplo, na mitologia grega e nos relatos bíblicos. Tal observação, a nosso ver, reforça, ainda uma vez, o caráter histórico, social e subjetivamente construído da noção de violência, que faz que determinadas ações que ocorrem na família passem a ser enunciadas como formas de violação dos direitos humanos e de cidadania, causando danos aos indivíduos e necessitando ser mais bem estudadas e enfrentadas.

A violência intrafamiliar é definida como qualquer ação ou omissão que prejudique o bem- estar, a integridade física, psicológica ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de outro

membro da família. É qualquer forma de abuso cometida no espaço privado dessa instituição. Pode manifestar-se dentro ou fora do domicílio, por qualquer integrante da família nuclear ou extensa que mantenha relação de poder com o indivíduo agredido. Pode ser também exercida por aqueles que desempenham funções parentais, ainda que sem laços de consanguinidade (Day & cols., 2003; Cesca, 2004; Narvaz & Koller, 2006; Minayo, 2009; Guimarães, 2010). O termo violência doméstica é apontado por tais autores como mais vinculado a uma noção de territorialidade onde o fenômeno se manifesta (o domicílio), podendo ser exercido e/ou envolver indivíduos que não componham o grupo familiar e tenham um convívio esporádico nesse espaço.

Na literatura que aborda a violência intrafamiliar, é comum que os autores chamem a atenção para que, devido a múltiplos fatores, suas manifestações tendem a permanecer silenciadas. Referindo- se especificamente à violência intrafamiliar contra a mulher, Diniz e Pondaag (2004), por exemplo, ressaltam que, corriqueiramente, as mulheres envolvidas em tais circunstâncias não nomeiam suas vivências como violentas, embora consigam identificar seu próprio sofrimento. Tendem a calar e guardar segredo sobre o que lhes acontece, enquanto os homens têm dificuldade em identificar o efeito devastador que seus atos e posturas têm sobre suas companheiras e demais membros da família. As autoras enfatizam que o silêncio e o segredo falam das dimensões pessoais, relacionais e sociais complexas que envolvem o fenômeno da violência.

Minayo (2009) ressalta que a violência intrafamiliar tem muitas manifestações, sendo as mais comuns aquelas que submetem as mulheres, as crianças e os idosos ao pai/marido/provedor; ou colocam crianças sob o domínio dos adultos, quando deveriam estar sob sua proteção. Recorda que algumas crenças e mitos poderosos mantêm tais configurações, sendo discriminatórias, machistas e perpetuando problemas que dificultam o desenvolvimento dos indivíduos. Trata-se de crenças que atribuem ao homem o lugar de chefe e dono da família, sabendo o que é bom para todos; que a criança necessita ser castigada e punida por seus cuidadores para ser educada; que a mulher é domínio e posse do homem; e que os idosos são inúteis por não mais produzirem serviços e bens materiais.

Outros autores vão nesse mesmo sentido, multiplicando as descrições de como as estruturas hierárquicas e de desigualdade entre indivíduos e grupos são constituintes das normas sociais, inclusive no tocante a um modelo esperado de funcionamento da família. Fazendo parte de tais normas, as desigualdades de poder entre homens e mulheres ou entre pais e filhos, por exemplo, passam a ser naturalizadas e não são reconhecidas como violências (Brauner & Carlos, 2004; Galinkin, 2007). Consideramos importante ressaltar que tais processos não se operam sem contradições atinentes à própria dinâmica das relações de poder, estabelecido em rede. Como exemplo, é possível apontar que, apesar de estarem colocadas em condições hierárquicas de subalternidade, as mulheres aparecem, no campo econômico-produtivo, como uma importante força de trabalho, além de desempenharem papéis

domésticos de vulto no tocante à educação dos filhos. Seriam lugares de exercício de poder comumente não nomeados, que, justamente por isso, permitem a manutenção do que se tem denominado de contexto de dominação patriarcal.

Existe uma ampla literatura que é bastante rica ao denunciar desigualdades de gênero que justificam formas de opressão das mulheres, dentro e fora da família, e apontar para a necessidade de desnaturalizá-las. Do mesmo modo, diversas produções e movimentos sociais têm procurado evidenciar a naturalização atribuída aos castigos físicos infligidos a crianças e adolescentes, justificados como práticas educativas. Cavalcante & Schenker (2009), explorando a polêmica criada diante da possibilidade de o Estado brasileiro proibir, via legislação, o uso de palmadas em crianças por seus cuidadores, apontam a necessidade de que a naturalização das agressões físicas na sociedade precisa ser debatida e questionada com um nível de complexidade maior do que vem sendo feito.

Atualmente, tramita na Câmara dos Deputados, tendo sido aprovado por Comissão Especial em 2011, o Projeto de Lei 7672/2010, que estabelece o direito de crianças e adolescentes de serem educados e cuidados sem a utilização de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante. A proposta gerou ampla repercussão e intensa polêmica nos meios de comunicação, que a contrapõem com os valores culturalmente arraigados no Brasil a respeito da eficácia de correções físicas, entendendo-se que, se aprovada, a Lei seria uma ingerência do Estado sobre o direito dos pais e cuidadores quanto à educação dos filhos. Apesar dos temores com relação à criminalização de tais práticas, a proposta aborda a necessidade da construção de políticas públicas, nos âmbitos da saúde, da assistência social e das instituições de defesa de direitos, que permitam o fomento de uma cultura de paz na resolução de conflitos e que propiciem apoio às crianças, adolescentes e suas famílias. Entendemos que esse movimento de debate toca em uma questão essencial, desvelando as tensões existentes na negociação das responsabilidades de agentes como a família e o Estado diante da violência. Se, de um lado, urge investir em processos de desnaturalização de dinâmicas violentas invisibilizadas no âmbito privado, por outro, cumpre ao Estado, por meio da elaboração de políticas públicas, garantir as condições concretas para que novos modos de convivência se efetivem.

Consoante com as perspectivas citadas, Ravazzola (2003) traz o conceito de anestesias relacionais para tentar compreender como se dá o ciclo de repetição da violência na relação conjugal. Acreditamos que ele pode se aplicar, por empréstimo, aos demais silenciamentos presentes na violência intrafamiliar. A autora traz que essa violência aparece como algo inesperado pelos indivíduos, subvertendo as expectativas em relação a seus papéis, baseados em uma noção ideal do espaço familiar como protetivo a seus membros. Isso se alia, conforme apontado por outros autores, a concepções e asserções, presentes inclusive no modo de se construir a linguagem e as conversações, que justificam as posições de cada qual dos envolvidos nas ações violentas (vítimas, agressores e

testemunhas/terceiros). Ravazzola (2003) concebe que a violência intrafamiliar se repete e se perpetua, em silêncio, porque os atores envolvidos não veem suas condutas como violentas, não podendo problematizar seu próprio imobilismo em relação a elas, uma vez que não compreendem o significado deletério que produzem, por seguirem uma lógica que lhes parece coerente. Instala-se, assim, uma verdadeira anestesia relacional ou duplo cego. Ravazzola (2003) concebe que as anestesias se instalam e levam as pessoas de um horror inicial a um entorpecimento dos sentimentos em relação à violência na família, porque se trata de fenômeno difícil de nomear, e não vemos aquilo que não podemos nomear, nem é possível perceber que não vemos. A autora aponta, ainda, do ponto de vista da teoria sistêmica, a importância que os terceiros/testemunhas da violência possuem, notadamente os profissionais, no sentido de poder observar a violência inscrita nos fenômenos e atuar para desestabilizar as anestesias relacionais, trazer instabilidade ao sistema familiar e, potencialmente, romper o ciclo de repetição dos abusos.

Entendemos que, embora tais reflexões não se refiram, diretamente, à violência dirigida a pessoas com deficiência, oferecem interessantes empréstimos para se pensá-la. Acreditamos que, entre as tradições naturalizadas que se deve debater com mais cuidado e sem extremismos (Cavalcante & Schenker, 2009), estão os processos de exclusão social, estigmatização e vulnerabilização das pessoas com deficiência, inclusive na família.

Uma série de pesquisadores têm se dedicado a compreender as consequências que a violência intrafamiliar proporciona, direta e indiretamente, em curto e em longo prazo, para a saúde e o desenvolvimento dos indivíduos. Os estudos realizam recortes conforme seus focos de interesse, abordando o fenômeno e suas consequências para todos os membros da família, incluindo-se mulheres, crianças e os próprios homens quando há violência doméstica contra a mulher, crianças e adolescentes diante de maus-tratos e abuso sexual, além de especificidades relativas a pessoas idosas e com deficiência (Giffin, 1994; Reichenheim, Hasselmann & Moraes, 1999; Debert, 2001; Krug & cols., 2002; Day & cols., 2003; Brancalhone, Fogo & Williams, 2004; Diniz & Pondaag, 2004; Weber, Viezzer& Brandemburg, 2004; Maia & Williams, 2005; Porto & Koller, 2006; Silva, Coelho & Kaponi, 2007; Cavalcante & Bastos, 2009; Guimarães, 2010; Medeiros, 2010). Minayo (2009) refere que, ainda que a violência seja um problema social que acompanha a história da humanidade e não um problema médico típico, afeta muito a saúde dos indivíduos: provoca morte, lesões e traumas físicos, e um sem número de agravos mentais, emocionais e espirituais.

Em revisão bibliográfica efetuada por Guimarães (2010), especialmente voltada à temática da violência conjugal, aponta-se que são múltiplos os danos físicos, sociais, psíquicos e desenvolvimentais resultantes em tais situações, tanto para vítimas quanto para agressores. Day e cols. (2003) referem que a violência familiar contra crianças pode afetar todos os aspectos de suas vidas,

incluindo psicológico, físico, comportamental, sexual, acadêmico, interpessoal, espiritual, com comprometimento da autoestima e possibilidade de estímulo subsequente à perpetuação da violência. Os danos podem ser imediatos e se perpetuarem ou aparecerem ao longo do tempo, sendo que os autores descrevem uma extensa lista de manifestações potenciais que vêm sendo identificadas.

A violência contra pessoas idosas e com deficiência pode assumir quaisquer das manifestações assinaladas, sendo que danos à saúde e psicológicos seriam semelhantes aos já relatados, muito embora sejam poucos os estudos que abordem peculiaridades nas consequências da violência intrafamiliar para tais grupos de forma sistemática e aprofundada. Ressalta-se, isso sim, que seriam grupos considerados como mais propícios a sofrerem violência, por serem vulneráveis. Voltaremos a esse tópico, com cuidado, no capítulo subsequente, quando nos debruçaremos criticamente sobre a concepção de uma vulnerabilidade aumentada das pessoas com deficiência para serem violentadas.

2.3 – VIOLÊNCIA E SAÚDE PÚBLICA: FATORES DE RISCO E DE PROTEÇÃO,

Benzer Belgeler