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Como abordamos na seção anterior, Ferdinand de Saussure estabeleceu a língua, a fala, o valor e a relação como forma de coexistência, mostrando que a diferença e a semelhança entre ambas é fundamental para os estudos linguísticos. Na obra Problemas de Linguística Geral, I18 (2008), especificamente no artigo de 1954 denominado Tendências recentes em linguística geral, Émile Benveniste reforça a noção de relação saussuriana: as questões de método na linguística envolvem as ciências humanas e cabe aos linguistas buscar seu objeto e seu sentido.

18 Tanto o PLG I quanto o PLG II apresentam uma compilação de artigos escritos pelo linguista francês Émile Benveniste. Dessa forma, os textos não estão, necessariamente, em ordem cronológica.

No entanto, o linguista francês ressalta a novidade do ponto de vista saussuriano, contrapondo-se aos estudos anteriores: para o linguista genebrino, a linguagem não comporta nenhuma dimensão histórica, ela é sincronia e estrutura e só funciona em razão de sua natureza simbólica. Benveniste afirma ainda que, para Saussure, o tempo não configurava um fator de evolução, a língua muda porque ela faz parte da natureza de elementos que a compõem em determinado momento, das relações de estrutura entre esses elementos. Sendo assim, a contribuição de Saussure para a linguística está enraizada na noção de sistema e de solidariedade entre todos os elementos de uma língua. Para Benveniste (1966), a noção de sistema, formado por estruturas, pode ser compreendida como a organização de um todo em partes e essa solidariedade mostrada entre as partes do todo está condicionada mutuamente. Dessa forma, o linguista francês apresenta um ponto de vista oposto aos dos linguistas americanos, cuja divisão dos elementos está relacionada à capacidade de associação ou de substituição entre si.

No excerto a seguir, Émile Benveniste destaca por que Saussure escolheu a língua a partir do ponto de vista sincrônico, desconsiderando, assim, seu aspecto diacrônico:

Um estado de língua é, antes de tudo, o resultado de um certo equilíbrio entre as partes de uma estrutura, equilíbrio que nunca leva a uma simetria completa, provavelmente porque a dissimetria está inscrita no próprio princípio da língua a partir da assimetria dos órgãos fonatórios. A solidariedade de todos os elementos faz com que cada alteração trate de um ponto colocado em questão no que se refere ao conjunto das relações e produza, cedo ou tarde, uma nova organização. Enquanto isso, a análise diacrônica consiste em colocar duas estruturas sucessivas e desconsidera suas relações, mostrando quais partes do sistema anterior foram escolhidas ou ameaçadas e como se preparava a solução realizada no sistema posterior. (Benveniste, 1966:09) 19

Podemos compreender, então, como se estabeleciam as noções sincronia e diacronia. Foi a partir dessa diferenciação que Saussure optou por escolher a língua em sincronia. Língua em sincronia significa solidariedade entre os elementos, estudo e descrição de uma realidade linguística, desconsiderando qualquer pressuposto teórico ou

19 « Un état de langue est avant tout le résultat d’un certain équilibre entre les parties d’une structure, équilibre qui n’aboutit cependant jamais à une symétrie complète, probablement parce que la dissymétrie est inscrite dans le principe même de la langue du fait de l’asymétrie des organes phonateurs. La solidarité de tous les éléments fait que chaque atteinte portée sur un point met en question l’ensemble des relations et produit tôt ou tard un nouvel arrangement. Dès lors, l’analyse diachronique consiste à poser deux structures successives et à dégager leurs relations, en montrant quelles parties du système antérieur étaient atteintes ou menacées et comment se préparait la solution réalisée dans le système ultérieur. »

histórico, próprio da diacronia. Considerando a Teoria da Argumentação na Língua, podemos afirmar que ela corrobora a noção de língua a partir da sincronia, revestindo de solidariedade seus enunciados, descartando sentidos previamente estabelecidos e reformulados diacronicamente.

Continuando a desenvolver as noções de língua e fala propostas por Saussure, Benveniste (1966) afirma ainda que o Cours de Linguistique Générale (2005) é uma mudança de atitude em torno do objeto, tentando formalizá-lo: é a língua projetada sobre o plano de uma semiologia universal. Essa semiologia trata do signo linguístico, ou seja, da língua a partir do significante e do significado, tendo sua natureza característica arbitrária. Benveniste aponta algumas divergências na teoria linguística de Saussure no que concerne a natureza do signo linguístico. A primeira delas diz respeito à arbitrariedade do signo. Saussure compreende que o arbitrário é imotivado, ou seja, não está de forma alguma relacionado à realidade. Dessa forma, quando se diz soeur (irmã), o termo não remete à realidade. No entanto, Benveniste reforça uma contradição presente nos estudos de Saussure: ao mostrar a diferença entre b-ö-f e o-k-s20, Saussure justifica os termos usando a realidade. Assim, para Benveniste, a língua saussuriana trata somente de forma, não de substância, sendo a relação entre significante e significado necessária, não arbitrária. É essa consubstancialidade do significado e do significante que permite a unidade estrutural do signo linguístico. Para Benveniste (1966), a arbitrariedade significa que determinado signo, e não outro, seja aplicado a algum elemento da realidade, e não a outro. Além disso, ele reforça que usar o termo « arbitrariedade » é uma forma de os linguistas se defenderem dessa questão e da solução de que há um sujeito falante que usa a língua de forma livre e instintiva. A arbitrariedade não intervém, portanto, na constituição do signo linguístico, ela só existe em relação ao fenômeno ou ao objeto material.

Outra característica inerente ao signo linguístico são as noções de mutabilidade e imutabilidade do signo. Segundo Benveniste (1966), não é entre significante e significado que a relação se modifica, é entre o signo e o objeto. Para o linguista francês, esse novo status pode ser chamado de motivação objetiva da designação, submissa à ação de diversos fatos históricos.

Outra divergência apontada por Benveniste se refere à noção de valor. Para Saussure, o valor entre ideia e som é arbitrário e relativo, uma vez que contém em si um elemento imposto pela realidade. Benveniste contesta essa concepção, afirmando que a noção elaborada por Saussure corresponde ao objeto real e ao elo que une o signo à coisa significada. Quando o linguista genebrino ratifica que o valor contém uma realidade objetiva como referência, perde-se a noção de que o signo linguístico se mantém por ele próprio, sendo portador de valor. O arbitrário, então, é eliminado, uma vez que valor teria um sentido equivalente. Benveniste (1966) reforça que o valor é um elemento do signo, e se o signo não for arbitrário, a relatividade do valor não depende da natureza arbitrária do signo. Para o linguista francês, ao conferir ao valor a noção de relatividade, torna-se necessário dizer que os valores são relativos uns aos outros, evidenciando a noção de necessidade.

A relatividade dos valores é a melhor prova de que eles dependem diretamente um do outro na sincronia de um sistema sempre ameaçado, sempre restaurado. Todos os valores são de oposição e só se definem pela diferença. Opostos, eles se mantêm em relação mútua de necessidade. (Benveniste, 1966: 55) 21

Percebemos, nesse excerto, que Benveniste considera a oposição como noção- base da teoria saussuriana. O signo, formado pelo significante e pelo significado, reforça o quanto essa relação de diferença é necessária, pois ambos são consubstanciais um ao outro. Dessa forma, o signo linguístico demonstra os valores em constante oposição. Diferença e oposição... princípio estrutural da língua.

Apesar de apontar algumas divergências no Cours de Linguistique Générale (2005), Benveniste (1966) reconhece a importância da obra do linguista genebrino para os estudos linguísticos: « o signo saussuriano é, de fato, uma realidade semiótica, ou seja, a unidade provida de sentido... O nível semiótico é isso: ser reconhecido como tendo ou não um sentido »22 . Percebemos, dessa forma, que Saussure estuda especificamente a língua e suas regras, cabendo a outros estudiosos contemplar o seu uso e os seus mais diversos sentidos. De acordo com Benveniste (1966: 21), a semiótica saussuriana aborda o sentido fechado e contido nele mesmo, e a semântica percebe o

21 « La relativité des valeurs est la meilleure preuve qu’elles dépendent étroitement l’une de l’autre dans la synchronie d’un système toujours menacé, toujours restauré. C’est que toutes les valeurs sont d’opposition et ne se définissent que par leur différence. Oposées, elles se maintiennent en mutuelle relation de nécessité. »

22 “Le signe saussurien est en réalité l’unité sémiotique, c’est-à-dire l’unité pourvue de sens… Le niveau sémiotique c’est ça: être reconnu comme ayant ou non un sens”. (Benveniste, 2008:21)

sentido como resultado de um encadeamento, da apropriação à circunstância e da adaptação dos diferentes signos. Notamos, portanto, que Saussure teoriza sobre seu objeto de estudo, a língua, enquanto Benveniste (1966), Ducrot (2005), ao trabalharem com a língua e o seu uso conjuntamente, unem a teoria ao uso, uma se servindo da outra para se constituírem. Essas duas abordagens estarão presentes nas seções 1.2.4, 1.3 e 2.1 respectivamente.

Mas no que a arbitrariedade pode servir para nosso estudo, visto que estamos tratando de como as hipóteses externas sustentam a ANL, modificando a hipótese interna Teoria dos Topoi para a Teoria dos Blocos Semânticos? De acordo com Saussure (2005: 180,181), a arbitrariedade é imotivada, ou seja, não evoca os termos que compõem o signo e outros que lhes são associados (por exemplo, o número vinte). Quando uma parte dos signos é relativamente motivada, há um desmembramento entre significante e significado (por exemplo, dezenove =dez+nove). Tratando-se da noção de valor, consideram-se os elementos do sistema de acordo com sua oposição, mantendo a solidariedade, remetendo à ordem associativa e sintagmática que limitam o arbitrário. Relacionando essa noção de arbitrariedade com a Teoria dos Topoi, podemos afirmar que ao considerar a realidade como provedora de sentido, abandona-se a noção de valor, ou seja, a semelhança e a diferença constitutivas do sentido. A Teoria dos Blocos Semânticos é capaz de resgatar essa relação entre as palavras a partir dos encadeamentos construídos em DC e em PT, como veremos na seção 1.3.2.

Na seção a seguir, veremos como Akatane Suenaga compreende a obra saussuriana: a partir das descobertas recentes sobre a obra de Ferdinand de Saussure, o linguista japonês explica, a partir de um sistema de paradoxos, as noções de língua social e língua individual, fala, arbitrário e inconsciente.

Figura 4: Saussure segundo Benveniste – parte I

Fonte: Figura elaborada pela autora

O ponto de vista de Benveniste sobre a teoria saussuriana aponta uma tríade que forma a base dos estudos linguísticos: o sistema, a língua e a solidariedade. No entanto, as noções de arbitrariedade e valor elaboradas por Saussure são contestadas por Benveniste, como veremos na figura a seguir.

Figura 5: Saussure segundo Benveniste – parte II

Fonte: Figura elaborada pela autora

Enquanto Saussure mostra a relação não arbitrária do signo linguístico, Benveniste afirma que essa arbitrariedade é constitutiva do objeto material e não considera o signo linguístico. Tratando-se do valor, Benveniste considera que o valor proposto por Saussure no CLG (2005) apresenta uma realidade objetiva, retirando, dessa forma, o caráter relacional do signo. Benveniste o recupera, mostrando que ele é relativo, oposicional e apresenta uma relação mútua de necessidade. Na seção a seguir, veremos como o linguista japonês Akatane Suenaga compreende a teoria saussuriana.

Benzer Belgeler