A importância da cláusula do devido processo legal acaba por se confundir com aquela atribuída aos direitos fundamentais em razão da íntima ligação entre eles existente.
Por sua vez, a questão relacionada aos direitos fundamentais acaba se confundindo com a história do próprio constitucionalismo na medida em que sua importância se reflete nos primeiros textos escritos, a ponto de hoje não se conceber a existência de uma Constituição que não os contemple como forma de limitar o exercício do poder pelo Estado.
Desta realidade não discrepou a nossa Constituição, que reservou lugar de destaque a este tema, seguindo o exemplo das mais avançadas do planeta.
Assim é que alojou os direitos fundamentais no Titulo II, dividindo- o em 5 capítulos distintos, merecendo especial destaque, tendo em vista os objetivos deste trabalho, os 78 incisos relacionados no artigo 5º.
Dentro deste contexto, importante a reprodução de alguns ensinamentos do Ministro Gilmar Ferreira Mendes contidos em sua obra Direitos Fundamentais e Controle de Constitucionalidade:
A Constituição brasileira de 1988 atribuiu significado ímpar aos direitos individuais. Já a colocação do catálogo dos direitos fundamentais no início do texto constitucional denota a intenção do constituinte de emprestar-lhes significado especial. A amplitude conferida ao texto, que se desdobra em setenta e sete incisos e dois parágrafos (art 5º), reforça a impressão sobre a posição de destaque que o constituinte quis outorgar a esses direitos. A ideia de que os direitos individuais devem ter eficácia imediata ressalta a vinculação direta dos órgãos estatais a esses direitos e o seu dever de guardar-lhes estrita observância.
O constituinte reconheceu ainda que os direitos fundamentais são elementos integrantes da identidade e da continuidade da
Constituição, considerando, por isso, ilegítima qualquer reforma constitucional tendente a suprimi-los (art 60 § 4º).
A complexidade do sistema de direitos fundamentais recomenda que se envidem esforços no sentido de precisar os elementos essenciais dessa categoria de direitos, em especial no que concerne à identificação dos âmbitos de proteção e à imposição de restrições ou limitações legais. 22
O trecho reproduzido se revela de extrema importância para subsidiar as conclusões a serem extraídas neste trabalho, na medida em que, ao demonstrar a importância atribuída aos direitos fundamentais, impede a utilização de qualquer sorte de interpretação que implique em restringir os seus efeitos.
Em outras palavras, se a Constituição Federal atribuiu a eles enorme importância, a ponto de inseri-los entre as chamadas cláusulas pétreas, impedindo até mesmo a deliberação acerca de qualquer proposta de Emenda que tenda a aboli-los, com muito mais razão não se poderá admitir que o mesmo efeito por ela vedado seja atingido por iniciativa do legislador infraconstitucional ou mesmo em sede de interpretação.
Desta forma, já em razão da importância atribuída a este tema por nossa Lei Maior pode-se concluir, sem nenhuma dificuldade, pela impossibilidade de sustentação de qualquer linha de interpretação que conduza a um efeito oposto àquele por ela estabelecido.
Dentro deste contexto, ainda acerca da importância atribuída aos direitos fundamentais em sede doutrinária, oportuna a transcrição, uma vez mais, dos ensinamentos do eminente Ministro:
Os direitos fundamentais são, a um só tempo, direitos subjetivos e elementos fundamentais da ordem constitucional objetiva. Enquanto direitos subjetivos, os direitos fundamentais outorgam aos titulares a possibilidade de impor os seus interesses em face dos órgãos obrigados.
Na sua dimensão como elementos fundamentais da ordem constitucional objetiva, os direitos fundamentais – tanto aqueles
22
MENDES, Gilmar Ferreira. Direitos fundamentais e controle de constitucionalidade. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 1.
que não asseguram, primariamente, um direito subjetivo quanto aqueloutros, concebidos como garantias individuais – formam a base do ordenamento jurídico de um Estado de Direito Democrático.23
As lições contidas no trecho reproduzido denotam, com meridiana clareza, a íntima relação existente entre os direitos fundamentais e um Estado Democrático de Direito.
Nesse sentido, pode-se inclusive afirmar que a inexistência de qualquer previsão acerca destes direitos acaba por desfigurar por completo o Estado com este perfil.
Neste particular, oportuna mais uma vez a reprodução dos ensinamentos do eminente Ministro, desta vez citando o grande jurista alemão Konrad Hesse:
Tal como observado por Hesse, a garantia de liberdade do individuo, que os direitos fundamentais pretendem assegurar, somente é exitosa no contexto de uma sociedade livre. Por outro lado, uma sociedade livre pressupõe a liberdade dos indivíduos e cidadãos, atos a decidir sobre as questões de seu interesse e responsáveis pelas questões centrais de interesse da comunidade. Essas características condicionam e tipificam, segundo Hesse, a estrutura e a função dos direitos fundamentais. Estes asseguram não apenas direitos subjetivos, mas também os princípios objetivos da ordem constitucional e democrática.24
O trecho reproduzido ressaltando a importância dos direitos fundamentais para um Estado Democrático de Direito, para uma sociedade livre, acaba por autorizar também a mesma conclusão para aquelas hipóteses em que, através de uma interpretação, pretenda-se tornar letra morta o conteúdo destes direitos.
Neste particular, não se pode perder de vista que a importância atribuída aos direitos fundamentais se estende para os de natureza política que surgem como uma de suas vertentes principais.
23
MENDES, Gilmar Ferreira. op. cit., p. 2.
Não se trata de conclusão gratuita uma vez que resulta da própria sistematização adotada por nossa Constituição, incluindo os direitos políticos no Capitulo IV do Titulo II.