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Em nossa Constituição, a cláusula do Devido Processo Legal foi inserida, como não poderia deixar de ser, entre os direitos fundamentais, apresentando o seguinte perfil:

Art. 5.º

LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal;

LV – aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes.

Uma passada de olhos pelo dispositivo reproduzido permite ao intérprete concluir, com meridiana clareza, que o contraditório e a ampla defesa incidem com toda sua força sobre os que litigam em processo, independente de sua natureza, vale dizer, judicial, administrativo e, também aos acusados em geral, com todos os meios e recursos inerentes.

Portanto, em vista da diretriz adotada pela Constituição não se pode conceber a ideia de processo, em todas as suas vertentes, dissociada da cláusula do Devido Processo Legal, até como forma de salvaguardar o próprio Estado Democrático de Direito que nela encontra uma de suas principais vertentes.

De resto, outra não foi a conclusão atingida pela Ministra Carmem Lucia Antunes Rocha, em artigo publicado na Revista Trimestral de Direito Público, denominado Princípios Constitucionais do Processo Administrativo no Direito Brasileiro.

O processo é um instrumento que garante ao homem que a justiça pelas próprias mãos não precisa ser feita, porque ela será aperfeiçoada pelo Estado em forma processada segundo paradigmas jurídicos bem definidos e previamente estabelecidos e conhecidos. Fora daí, não há solução para a barbárie e para a descrença do Estado. 29

De outra parte, oportuno registrar que não se limitou a Constituição a assegurar a incidência do contraditório e da ampla defesa para os que atuam no processo, mas para aqueles que litigam, controvertem, algo totalmente diferente.

Neste particular, importante anotar que a noção de processo encontra-se intimamente ligada à de relação jurídica, envolvendo, pois, plexo de direitos e obrigações.

De outra banda, resulta também da leitura do dispositivo constitucional em análise, que a cláusula do Devido processo Legal em nosso país foi adotada no duplo sentido que adquiriu durante seu período de evolução, com a importante novidade de sua extensão também para os processos administrativos, de forma a estabelecer-se um limite para a atuação do Estado.

29

ROCHA, Carmem Lucia Antunes. Princípios constitucionais do processo administrativo no direito brasileiro. Revista Trimestral de Direito Púbico, São Paulo, n. 17, p. 5-33, 1997.

Dentro deste contexto, cumpre observar que a questão relacionada ao significado da cláusula do devido processo legal na Constituição em vigor foi também muito bem captada pelo eminente Ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Ferreira Mendes.

Destarte, o brilhante constitucionalista começa por asseverar que a redação atual oferecida a ela pela Constituição Federal acabou por afastar qualquer sorte de dúvida que ainda pudesse remanescer acerca da sua extensão.

Nesse sentido, observa, com a clareza que lhe é peculiar, que este direito deve se estender para aqueles que litigam em qualquer processo judicial ou administrativo. Confira-se:

A Constituição de 1988 (art. 5º, LV) ampliou o direito de defesa, assegurando aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. As dúvidas porventura existentes na doutrina e na jurisprudência sobre a dimensão do direito de defesa foram afastadas de plano, sendo inequívoco que essa garantia contempla no seu âmbito de proteção, todos os processos judiciais ou administrativos.30

Mais adiante, o eminente Ministro estabelece precisas observações quanto ao conteúdo da cláusula do devido processo legal, nos termos a seguir reproduzidos.

Assinale-se, por outro lado, que há muito vem a doutrina constitucional enfatizando que o direito de defesa não se resume a um simples direito de manifestação no processo. Efetivamente, o que o constituinte pretende assegurar – como bem anota Pontes de Miranda – é uma pretensão à tutela jurídica.

Observe-se que não se cuida aqui, sequer, de uma novação doutrinária ou jurisprudencial. Já o clássico João Barbalho, nos seus comentários à Constituição de 1891, asseverava, com precisão:

“Com a plena defesa são incompatíveis e, portanto, inteiramente inadmissíveis, os processos secretos, inquisitoriais, as devassas, a queixa ou o depoimento de inimigo capital, o julgamento de crimes inafiançáveis na ausência do acusado ou tendo-se dado a produção das testemunhas de acusação sem ao acusado se

permitir reinquiri-las, a incomunicabilidade depois da denúncia, o juramento do réu, o interrogatório dele sob coação de qualquer natureza, por perguntas sugestivas ou capciosas.”31

As lições reproduzidas não deixam dúvidas quanto à necessidade de aplicação da cláusula do devido processo legal aos litigantes em qualquer processo, seja ele de natureza judicial ou administrativa.

Dentro deste contexto, tendo em vista o princípio da máxima efetividade a ser conferida às regras constitucionais, em especial aquelas relacionadas aos direitos fundamentais, deve-se entender que a diretriz estabelecida pela Lei Maior teve por objetivo abranger a todos os processos em que exista uma pretensão resistida, tramitam eles na esfera judicial ou fora dela.

Os aportes doutrinários até este passo colacionados permitem extrair a conclusão segundo a qual, por força do princípio de hermenêutica da máxima efetividade a ser conferida aos direitos fundamentais, o direito ao contraditório e à ampla defesa tem também sua aplicação assegurada a processos de natureza administrativa apreciados por órgãos que não integram a estrutura do Poder Judiciário.

Nesse sentido, cumpre observar que não fossem essas as conclusões a serem extraídas do preceito constitucional e teríamos então situações em que pessoas poderiam sofrer sanções, ainda que de natureza administrativa, sem a possibilidade de defesa, o que não se pode admitir.

Assim, sobreleva notar que a tentativa de se excluir a aplicação da cláusula do devido processo legal para processos de natureza administrativa tornaria letra morta o direito fundamental referido.

Em outro dizer, sustentar que a cláusula do devido processo legal não se aplica a processos de natureza administrativa implica em realizar

uma interpretação por demais restritiva, que acaba por esvaziar, neste particular, o dispositivo constitucional.

Implica em afrontar, como já se disse, importantes princípios de hermenêutica, entre os quais destacam-se o da máxima efetividade a ser conferida aos direitos fundamentais e o da razoabilidade.