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TURGUT ÖZAKMAN’IN “TÖRE” ADLI OYUNUNDA KĠġĠLEġTĠRME VE AKSĠYONA BAĞLI OLARAK ORTAYA ÇIKAN DRAMATĠK MOTĠFLER

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DRAMATĠK MOTĠFĠN MODEL OYUNLARLA ĠNCELENMESĠ

2.2. TURGUT ÖZAKMAN’IN “TÖRE” ADLI OYUNUNDA KĠġĠLEġTĠRME VE AKSĠYONA BAĞLI OLARAK ORTAYA ÇIKAN DRAMATĠK MOTĠFLER

A tradição literária romanesca tem uma vocação de representar trajetórias de vida, seja na sua completude ou em recortes temporais marcados, mas que, em qualquer dos casos, apresenta um processo de transformação. Esta disposição do romance deu margens para o estabelecimento de uma tipificação dentro do gênero e para a determinação das características desta classificação que se encerra sob o signo do Bildungsroman, ou romance de formação.

Dentro da extensa lista de romances que se encaixam nesta categoria, canonizou a crítica literária como paradigma do modelo o romance de Goethe Os anos de aprendizado de

Wilhelm Meister que narra o percurso de formação do jovem protagonista em busca de

ascensão social.

A história de vida do jovem Wilhelm Meister, sua trajetória desde o lar burguês em direção à busca por uma formação universal e pelo aperfeiçoamento de suas qualidades inatas, sua relação com as várias esferas da sociedade da época até sua inserção na aristocracia, por meio de um casamento interclasses (mésalliance), foram vistos com Morgenstern como o percurso exemplar, como a trajetória arquetípica a ser cumprida pelos filhos da incipiente burguesia alemã em busca de legitimação e reconhecimento político. (MAAS, 2000, p. 20).

Essas características acionam outra constatação que se atrela à gênese do romance de formação e é afeita à constituição do próprio gênero romance: o apelo burguês. Com o crescimento da burguesia frente às antigas relações feudais, cria-se a necessidade de representação deste novo indivíduo que emerge na sociedade, um indivíduo que perde a sensibilidade do coletivo e firma-se a partir de valores particulares e interesses individuais e, deste modo, transforma a concepção de mundo em subjetiva. As novas relações de trabalho e de riqueza criam o protagonista do romance de formação, a saber, o burguês como herói. Diferentemente do herói da epopeia, expressão literária de um tempo em que a humanidade agia em coletividade, o herói burguês surge como um indivíduo comum, imperfeito, sujeito a

falhas e, no romance de formação, especialmente, aflora como um inapto no meio em que se estabelece, isto é, representa o papel do “herói sem lugar”.

O surgimento do romance como expressão literária tem suas bases consolidadas no século XVIII, apesar de constatações anteriores apontarem para uma dissolução da tradição literária antiga, medieval e renascentista desde o aparecimento de obras tais como Lazarillo

de Tormes, Dom Quixote e Gil Blas de Santilanne. A ficção em prosa já se constituía uma

prática literária. No entanto, somente no século XVIII ocorre uma consonância entre este fazer artístico e a realidade histórica e social de outra classe, que não a nobreza. Aquele foi, efetivamente, o século de ascensão da burguesia em todos os planos: da economia à política, dos costumes à produção cultural e, neste sentido, a queda vertiginosa da aristocracia também deixava obsoletas as práticas e as preferências da vida fidalga.

A literatura de retórica sofisticada, as produções em verso de estilo rebuscado e a ficção que retratava o cotidiano cortesão perdiam seu sentido numa sociedade em cujo seio crescia uma classe de trabalhadores abastados desprovidos do conhecimento erudito da nobreza. Esta classe precisava ver representados na literatura seus feitos, seus empreendimentos e suas aventuras e esta perspectiva do indivíduo burguês gerava a necessidade de uma transformação na produção cultural que, evidentemente, passou por uma revisão de estilo e pela adoção de um tom menos solene, responsável por acentuar a referencialidade da linguagem no romance em detrimento da utilização da palavra como objeto estético.

Na esteira desta mudança, as grandes fontes literárias do passado, tais como a mitologia, a História e a lenda, deviam sair de cena e dar lugar à representação da experiência individual retirada dos fatos da vida burguesa. Neste sentido, subvertem-se as noções clássicas de unidade de tempo e espaço, que defendiam a representação encaixada no período de um movimento de rotação da Terra e localizada preferencialmente em um único cenário, em favor de uma cronologia representativa da vida humana e de seus feitos, somada à apresentação de um espaço com características de um ambiente físico real, particularizado por seus detalhes minuciosamente descritos (LUKÁCS, 1999). Arquétipos e modelos genéricos deviam ser substituídos por situações específicas; a representação de tipos universais escapava à verossimilhança. Portanto, além de tempo e espaço alinhados à percepção histórica, as personagens ganhavam, com a ascensão do romance na Europa, sobretudo na Alemanha, na França e na Inglaterra, nome e sobrenome, uma individualidade claramente debitária da própria cultura burguesa.

Mediante essas características, é possível considerar Tess of the d’Urbervilles um

Bildungsroman, porque as particularidades que apresenta permitem a aproximação da obra

com esse gênero literário. Como um romance de formação, Tess expõe a trajetória de vida da protagonista, o choque da personagem com as convenções instituídas, a emergência de um incipiente modo de vida burguês na região de Wessex, o contrapondo à antiga ordem e, dessa forma, representa a dramatização da crise de valores socioeconômicos de uma maneira evidente. Acrescente-se a isso que Thomas Hardy reescreve o tradicional Bildungsroman, agora, focalizando a vida de uma jovem que, diferentemente dos tradicionais protagonistas masculinos do gênero, tem um final não muito auspicioso: é condenada à morte.

Defensor da tese que relaciona o romance como um descendente da epopeia antiga, Lukács (1999) enxerga entre esses dois gêneros semelhanças que vão da disposição para a representação das aventuras humanas, passando pela independência de ação que deixa homens e acontecimentos agirem como dotados de vida, até a instituição de vários planos no texto literário. No momento em que o indivíduo do romance ascende de sua condição individual e particular para defender questões que são de uma classe, representando um tipo, o gênero aproxima-se da epopeia. Contudo, pela própria disposição coletiva da visão da Antiguidade, na epopeia há um acordo tácito entre indivíduo e sociedade que direciona o enredo a um desfecho triunfalista, muito em contrariedade com o conhecido romance moderno carregado de exemplos que demonstram o estabelecimento de uma tensão entre o sujeito e a coletividade, conflito determinante para a falha do indivíduo em sua luta contra as forças da sociedade. Em Tess of the d’Urbervilles é clara esta disposição do romance à medida que o choque de valores de duas épocas e de classes sociais distintas promove o desenlace fatalista da personagem central. Benjamin (1987, p. 54) vê desta maneira a diferença entre o épico e o romance:

O homem épico limita-se a repousar. No poema épico, o povo repousa, depois do dia de trabalho: escuta, sonha e colhe. O romancista se separou do povo e do que ele faz. A matriz do romance é o indivíduo em sua solidão, o homem que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações, a quem ninguém pode dar conselhos, e que não sabe dar conselhos a ninguém. Escrever um romance significa descrever a existência humana, levando o incomensurável ao paroxismo.

Tess é a própria personagem do romance moderno. Sua vida, com todas as intempéries e obstáculos que se apresentam, alimenta o propósito a que se presta esse gênero literário. O sentimento de desamparo é percebido na individualidade de cada personagem, o choque de

ideias e valores também é representado no indivíduo, desde que a confiança na humanidade coletiva esfacelou-se com o fim da Antiguidade.

Ao estabelecer-se de maneira recorrentemente conflitante com o ambiente em que vive, Tess aproxima-se da figura de protagonista de um Bildungsroman. Esse descompasso tão característico ao gênero é fundamental para o assentamento de um embate que evidencia, por exemplo, a sucumbência de um modo de vida perante outro e a revisão do papel tradicional da mulher.

Neste sentido orienta-se a posição de Jeffrey Sommers, para quem o romance de Hardy, em questão, muito diz quando observado sob a perspectiva da formação:

One feature of the Bildungsroman according to Marianne Hirsch, it should be remembered, is that the protagonist and society are in opposition, clearly the same with Tess, who is a victim of society’s double standard and its long memory53. (SOMMERS, 1982, p. 161).

Desse modo, nota-se a importância de se atentar ao drama da personagem para a identificação mais precisa da crise de valores que se estabelece a partir da observação da história de um indivíduo.

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