O único círculo em que o jovem não é apresentado por este Personagem “violento” é o Círculo 2, vinculado diretamente ao Personagem anterior, do aluno “problema”. É possível que ele realmente não desempenhe este Personagem ou, simplesmente, que não lhe seja atribuído. Até por que, a professora que fez o Boletim de Ocorrência de agressão física não estava presente no círculo. Se ela estivesse talvez o Personagem “violento” também fosse atribuído ao jovem.
Nos demais círculos, este Personagem é atribuído aos jovens pelos adultos, como familiares das “vítimas,” professores, facilitadores e polícia.
No Círculo 1, percebemos a mãe da adolescente bastante apreensiva com o conflito entre os adolescentes. Está preocupada com a possibilidade dele continuar
e se agravar, pois antes do conflito o adolescente já a havia seguido a ela e uma amiga com uma tesoura na mão.
A facilitadora pergunta se a adolescente tem receio dele, ela afirma que não, que sempre tiveram um bom relacionamento e parece não identificá-lo com este Personagem, apesar das preocupações da mãe e da facilitadora.
A cena a seguir evidencia os Personagens “violentos” e apresenta os aspectos cíclicos da violência e os desdobramentos do conflito:
Ad – Ele falou que eu que falei (algo em relação à sexualidade do rapaz), só que eu tava no celular. Por isso que os meninos se revoltaram. Foi aí que bateu nele e ele falou que foi eu que mandei. Sendo que...
F1 – Os meninos que bateram são da sua sala?
Ad – Então ele falou que fui eu que mandei, que foi meu namorado, sendo que meu namorado nem tava lá.
F4 – As pessoas que tomaram as suas dores? Quem são essas pessoas?
Ad – Foi da escola, só que eu não sei... porque eu não tava na hora que bateram nele, eu tava indo embora. [...] Aí a polícia veio e falou: “ei mocinha, foi você que bateu nele? Foi você que mandou? Foi a sua gang que bateu nele?” Aí eu falei assim; “eu não tenho gang nenhuma senhor.” Aí ele pegou e falou assim: “ah, você bateu nele”. “Não, não bati [...] quem me bateu mesmo na sala foi ele”. Aí ele já começou: “Eu não agredi ninguém, eu não agredi ninguém!” Aí eu fiquei alterada: “Claro que você me bateu. Você arrebentou uma lata na minha cara.” Eu não tenho porque mentir. (Círculo 3)
E na seqüência retoma:
Ad – Então, eu conheço as duas pessoas, mas o resto eu não... eu não podia generalizar “eu conheço o grupo”. E a escola falou que só pode dar uma advertência verbal, que cada ação tem uma reação.
M – Os meninos vieram conversar com a gente, eles não admitem isso lá no grupo, de bater... Ad – Não querendo... generalizar e ofend... (ela interrompe) mas é periferia ali, só tem pessoal da periferia lá. Imagina um... um bandido vê o cara batendo... bandido que é bandido não aceita!
F4 – Não, eu já não vejo assim. Você está muito extremada! As pessoas da periferia são pessoas do bem! (facilitador se exalta com o comentário preconceituoso da jovem)
Ad – Não, eu não tô... não... (os dois falam alto juntos) F1 – É porque ele tem um outro.... (tenta amenizar) F4 – É... uma visão diferente...
M – Eu entendo o que você tá querendo dizer, hoje os alunos não vão pra escola pra estudar, a gente sabe disso... eu sou educadora.... os meninos falaram: não foi ela que provocou. Então os meninos tomaram as dores por ela. Ela sabe quem tava ali, mas chegar e indicar... aí ela vai tá comprando briga... quer dizer, nós fomos pra defender e a filha da mãe tá nos entregando. Ela sabe, foi o grupo, ela não mandou. [...] Porque ele também sabe... porque ele que foi o causador da situação, toda ação tem uma reação, provocou... (Círculo 3)
Os jovens que agridem o rapaz (da gang, como é afirmado pelo policial), desempenham este Personagem “violento” e são identificados por ele, são Personagens rígidos, conservados, ficam presos a ele e precisam desempenhá-lo, são os responsáveis por garantir que um ato violento seja cobrado com mais violência.
A família reforça que a jovem não deve identificar quem agrediu o rapaz, pois o que reina é a lei da vingança, de que “toda ação tem uma reação.”. Quando a jovem destaca que “ali é periferia” reforça este Personagem, tão atrelado ao jovem de
periferia, onde os conflitos são resolvidos pela violência e devem ser silenciados para as autoridades (escola, polícia, família). As pessoas por detrás do Personagem “violento” devem, neste caso, ficar ocultas.
Os jovens “da gang” estão atrelados, para além do Personagem “violento”, ao Personagem “bandido”, que diz de sua maior vinculação com a violência. Parecem mais estruturalmente identificados ao Personagem “violento” e, portanto, um Personagem aceito e, possivelmente, valorizado, apesar do ocultamento proporcionado pela jovem. Já o rapaz tem uma atitude violenta que, como veremos adiante, está atrelada ao seu Personagem “homossexual”, aparentando, desta forma, ser muito mais uma atitude defensiva dele.
Podemos perceber, inclusive, certa hierarquia entre os Personagens “violento” e “bandido”, entre o rapaz e a “gang”. Possivelmente porque, para os jovens da “gang” o Personagem “bandido” parece ser aceito, desempenhado, e, em certa medida, valorizado, portanto, é um Personagem que, por ser mais estrutural, repete- se em outras relações e Papéis sociais desses jovens. O mesmo não ocorre com o rapaz. Outro aspecto é que há uma organização de grupo, que potencializa a ação, ao contrário do rapaz, que agiu sozinho e, de forma geral, lhe é mais atribuído o Personagem jovem “excluído” e “homossexual” do que o “violento”.
Vejamos como as marcas do Personagem “violento” aparecem na fala da irmã de um jovem que não se identifica com o Personagem:
I – A gente não sabia se ela tinha feito mesmo o ato (registrar o Boletim de Ocorrência). Então a gente ficou nessa, esperando. E foi uma semana muito difícil, que ele entrou em depressão, ficou sem comer, ficou sem nada ele ficou muito mal. Tanto que tinha até conversado com a coordenadora e ela queria que ele fizesse acompanhamento com psicóloga, tudo mais... que ela ia encaminhar e queria trocar ele de horário e ele chegou ao ponto de dizer que não queria mais ver a cara da professora. Isso ficou quase uma semana, que ele queria mudar de escola, queria mudar de escola e eu forçava ele a ir à escola, falei: “Não! Você vai pra escola! Você não é o errado!” E ele falava assim: “Agora eu sou fichado! Eu sou um marginal! Agora qualquer coisa que eu vou fazer eu tenho um BO lá”. Era isso que ele falava e ainda hoje fala. Que por causa dela ele tem um BO sem ter feito praticamente nada. (Círculo 2)
Chama atenção o fato de esta marca, “ter um Boletim de Ocorrência”, jogar imediatamente o jovem no estereótipo do Personagem “violento”. Atua como uma máscara, que não permite o relacionamento com o jovem por detrás dela, definindo, assim, a forma pela qual muitas pessoas se relacionarão com ele a partir de agora. O fato deste Personagem ser tão negativamente olhado pela sociedade pode, em situações futuras, servir até mesmo de motivo e “justificar” ações violentas contra ele, como em intervenções policiais, por exemplo. Assim, muitos jovens preferem e buscam manter esta marca em segredo.