Neste momento, dando continuidade à análise dos conflitos, tratamos de expor os caminhos institucionais que percorrem. Consideramos importante destacar esses percursos, visto que os conflitos acompanhados nos círculos ocorreram no contexto escolar e, na maioria das vezes, em escolas onde existem professores ou funcionários capacitados em Justiça Restaurativa. Entretanto, apesar de poderem ser trabalhados no próprio contexto escolar, tanto pela coordenação escolar quanto pelos facilitadores de Justiça Restaurativa, acabam sendo encaminhados às delegacias e ao Sistema de Justiça.
No Círculo 1, a adolescente afirma que, após o tapa/soco sentiu muita dor, que chorou muito e seu tio foi buscá-la na escola e, por esse motivo levou-a ao hospital. O médico que a atendeu afirmou que eles deveriam fazer um Boletim de Ocorrência. Assim fizeram, foram à delegacia e registraram a queixa, que foi encaminhada ao Fórum e, após audiência, à Justiça Restaurativa. A escola não tomou nenhuma
256 Vicentin e Rosa, 2010. 257 Vicentin e Rosa, p.12, 2010.
providência em relação ao conflito, não chamou os alunos para uma conversa e, nem mesmo suas famílias.
No Círculo 2, foi a professora que decidiu fazer o Boletim de Ocorrência, que desencadeou a audiência no Fórum e o círculo restaurativo:
Ad – A diretora não teve nem tempo de... quer dizer, ela não podia parar ela (a professora), era um direito dela. Ela já foi direto pra delegacia fazer um Boletim de Ocorrência, nem a diretora sabia o que era. No outro dia, ela veio com o boletim. (Círculo 2)
A escola não pôde construir nenhuma alternativa para a resolução do conflito, visto que a professora não abriu a possibilidade de diálogo, procurou os meios legais.
Apesar disso, nesse caso houve comunicação entre a direção da escola e a família, que percebeu interesse da diretora em buscar soluções e apoiá-los. Porém, não houve uma conversa entre todas as pessoas envolvidas, apenas uma conversa particular entre o jovem e a professora.258 O conflito desencadeou, ainda, denúncias da família junto às autoridades de ensino. A respeito dessas denúncias não temos informações acerca de seus encaminhamentos, tampouco a família.
No Círculo 3, é o rapaz quem toma as providências, procurando a polícia e, novamente, a escola não toma nenhuma atitude:
Ad – Aí ele chamou a polícia pra mim, aí eu chamei meu pai, como eu sou de menor. Chegando na delegacia fomos fazer corpo de delito. Voltamos e conversamos com o delegado e ele acusou meu pai de ter ameaçado ele, só que meu pai não fez nada. (Círculo 3)
A família da jovem descreve em detalhes as cenas da delegacia e do Fórum, tem conhecimento de cada papel desempenhado (delegado, escrivão, Juiz, promotor, advogado) e dos procedimentos. A mãe da jovem conta que o policial a chamou e aconselhou a não fazer a ocorrência, que “é melhor deixar passar”, mas ela insistiu que, se foi até ali, queria que escutassem os jovens, pois não estava ali para perder tempo.
Além disso, a mãe da jovem relata como foi a ida até o hospital, para fazer exame de corpo de delito. A recepcionista as encaminha para a assistente social, que faz perguntas referentes à relação dos pais da jovem e pergunta se a jovem sofre violências no contexto familiar. Não sabemos o contexto nem os termos dessas intervenções da assistente social, mas parecem indicar uma busca de causas familiares para o conflito.259
258 Como veremos no próximo capítulo.
Além disso, contam como foi a audiência no Fórum e o encaminhamento para a Justiça Restaurativa:
M – Aí a promotora disse, que ele (adolescente) agrediu ela, ela passou a ofendê-lo, o negócio lá da sexualidade dele e que meu marido ameaçou ele com o olhar. Mas meu marido nem recebeu intimação. [...] Ele (rapaz) começou a se abanar e dizer: vamos resolver logo isso, que eu não tenho tempo a perder. E começou a debochar da cara da promotora.
Ad – Aí a promotora perguntou: o senhor (rapaz) quer dar como encerrado o caso e levar pro conselho restaurativo ou prolongar aqui. Aí ele falou assim: Não, não quero nenhum dos dois. Aí ela falou: você não tem que querer alguma coisa aqui, você tem que escolher: conselho restaurativo ou levar adiante? Ele: conselho restaurativo (com ar de deboche). (Círculo 3)
Percebemos, pela fala da jovem e sua família, um descaso do rapaz envolvido no conflito. Relatam que ele não foi à primeira audiência, atrasou na segunda e não foi ao círculo restaurativo, o que causa incômodo à família. Além disso, com base no relato, podemos supor pelo modo como a promotora solicita a “escolha” do rapaz, que não só não houve uma escolha consciente pelas práticas restaurativas como não se buscou engajar as partes do conflito no diálogo e na resolução do conflito.
No Círculo 4, o professor decide registrar o Boletim de Ocorrência, após conversar com outros funcionários da escola e estes confirmarem que o jovem não é bom aluno e que faz parte do grupo que depreda a escola.
Quanto à participação dos outros alunos que fazem parte do grupo, percebemos, durante o círculo restaurativo, duas falas bastante diferentes:
Ad – O Juiz falou pra eu chamar meus amigos que tavam do lado. Só que aí chegou na diretora, ela mandou eu dar os nomes. Aí os nomes que eu dei bateu com a lista dela, que ela já aproveitou pra entrar no acordo com a escola. O nome que eu dei, só duas meninas, aí na hora que eu fui falar com a diretora, aí a professora puxou a folha, aí um monte de nome. Ué porque tudo isso? Ah eu já vou aproveitar que abriu esse negócio aí pra conversar, eu já vou aproveitar e já vou mandar todo mundo pra ouvir e não aprontar mais na escola
Prof – O Juiz pediu: A (jovem) você sabe quais são os alunos? Ele: sei. Então você vai lá na direção, conversa e vai dar os nomes, até tem um aluno aqui que ficamos sabendo até o ameaçou, fiquei pensando, nossa o Juiz falou isso! Porque é um problema. O Juiz pediu pra aqueles alunos que estivessem dando problema na escola que comparecessem hoje aqui. Razão pela qual a direção convidou todos aqueles alunos que de uma forma ou de outra se envolvem em pichação, etc., que viessem hoje aqui. (Círculo 4)
Podemos perceber que o “convite dos amigos” e a “convocação dos alunos ‘problema’” se confundem nas falas e, claramente, referem-se a práticas com objetivos opostos: ao que parece os jovens, inicialmente, se vêem convidados ao diálogo, entretanto, os relatos evidenciam que, para os adultos, eles são convocam ao interrogatório. Registre-se que em um momento do círculo, faço a seguinte intervenção:
Pesq – E todos esses foram convocados pra audiência?
Prof – Pra hoje, com o Juiz, só foi com esse. O Juiz disse A (jovem) você sabe quem são os outros alunos? Ele disse, sei. Então você conversa com eles pra comparecer no dia 24.
Pesq – Aí foi a própria escola que fez a convocação pra esses outros alunos? Profa – Fez o convite. (Círculo 4)
Faço questão, neste momento, de usar o termo “convocação”, para marcá-lo e problematizá-lo, pois é de fato isso que ocorre nesse contexto. Entretanto, a professora presente me corrige.
De forma geral, podemos afirmar que o roteiro institucional seguido pelo conflito inicia-se na escola, em um dos casos passa pelo hospital, e em todos chega à delegacia. Dali é encaminhado ao Fórum e posteriormente ao plantão de Justiça Restaurativa.
O que pudemos observar é que, a partir do momento em que o Boletim de Ocorrência é registrado, a rota entre as instituições não pode mais ser interrompida. Afirmamos isso porque a professora do Círculo 2, por exemplo, afirma que iria tentar reverter o processo, mas não consegue. Além disso, também no Círculo 1, a adolescente arrepende-se de ter registrado o Boletim de Ocorrência, afirma que não queria prejudicar o adolescente, mas não sabia das conseqüências do registro da ocorrência.