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De acordo com os dados do DEPEN (Departamento Penitenciário Nacional), sobre os quais já tivemos oportunidade de nos deter neste trabalho, a falta de formação educacional e profissional é um fato no ambiente carcerário.
Quando perguntados a respeito da profissão ou ocupação desempenhada, foram abundantes nas respostas atividades que exigem pouca ou nenhuma qualificação. [...] Entre os homens foram mais corriqueiramente mencionadas atividades ligadas à construção civil (18,6%), como ajudante de pedreiro, pedreiro, servente, pintor etc., e ajudante geral (18,6%). A categoria vendedor ambulante também foi significativa entre as ocupações mencionadas (10,0%). Mais de um décimo dos homens entrevistados atendidos pelo projeto declarou não ter ocupação e 5,2% dos homens entrevistados não atendidos pelo projeto afirmaram estar nessa condição. A situação das mulheres atendidas não é diversa, sendo recorrentes nas respostas atividades que prescindem de qualificação: diarista, doméstica e faxineira (17,9%) e ajudante geral (10,3%). O número de mulheres sem ocupação (14,4%) é mais alto do que o dos homens. A categoria dona de casa ou do lar reúne 8,3% das mulheres, o que infla ainda mais a quantidade de mulheres que declararam não ter uma profissão.
A insuficiência na qualificação profissional é um problema que atinge um número considerável de adultos na população brasileira. Esse índice, se analisado separadamente, é ainda maior entre os ex-presidiários, que, além disso, contabilizam a falta de formação educacional.
Em 2012, obsevou-se que a maior causa de desemprego no Brasil era a falta de qualificação, como se observa dos seguintes dados:
Duzentos milhões de jovens, com idade entre 15 e 24 anos, de países em desenvolvimento não completaram o ensino primário, equivalente ao ensino fundamental no Brasil, e precisam de caminhos alternativos para adquirir habilidades básicas para o emprego. O número representa 20% da população desses países nessa faixa etária e foi apresentado no 10º Relatório de Monitoramento
Global de Educação para Todos, publicado hoje (16) pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). [...]
No Brasil, aqueles que moram na zona rural têm o dobro de chance de ser pobres e 45% não completaram o ensino fundamental.
Segundo a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, o mundo está testemunhando uma geração jovem frustrada pela disparidade crônica entre habilidade e emprego. “A melhor resposta à crise econômica e ao desemprego de jovens é assegurar a capacitação básica e relevante de que precisam para entrar no universo do trabalho com confiança”, disse. Para ela, esses jovens precisam ter caminhos alternativos para a educação, para conseguir as habilidades necessárias à sobrevivência, a viver com dignidade e contribuir com suas comunidades.
O relatório mostra ainda que não investir nas habilidades de jovens tem efeitos de longo prazo visíveis em todos os países. Mesmo nas nações desenvolvidas, a estimativa é que 160 milhões de adultos, ou 20% deles, não tenham requisitos mínimos para se candidatar a um emprego, como ler um jornal, escrever ou fazer cálculos. Por isso, a Unesco defende que investir no desenvolvimento das habilidades de jovens é uma estratégia inteligente para países que querem impulsionar seu desenvolvimento econômico.
A partir dos dados, a entidade alerta que apesar de a área econômica ser a primeira a se beneficiar da mão de obra mais qualificada, o setor privado contribui muito pouco na educação dos jovens, com apenas 5% dos fundos oficiais. Além disso, recomenda que governos e países doadores de fundos globais para a educação se empenhem para garantir o investimento necessário.173
173 Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-10-16/falta-de-qualificacao-entre-jovens-e- causa-de-desemprego-mostra-unesco. Acessado em: 23 de dezembro de 2012.
A Lei de Execução Penal preceitua: “Art. 41 - Constituem direitos do preso: [...] III - Previdência Social;”. O Código Penal, por sua vez, preceitua: “Art. 39 - O trabalho do preso será sempre remunerado, sendo-lhe garantidos os benefícios da Previdência Social”.
A Resolução nº 14, de 11 de novembro de 1994, publicada no Diário Oficial da União de 2 de dezembro de 1994174, fixou as Regras Mínimas para o Tratamento do Preso no Brasil, dispondo:
Art. 56. Quanto ao trabalho:
I - o trabalho não deverá ter caráter aflitivo;
II – ao condenado será garantido trabalho remunerado conforme sua aptidão e condição pessoal, respeitada a determinação médica;
III – será proporcionado ao condenado trabalho educativo e produtivo;
IV – devem ser consideradas as necessidades futuras do condenado, bem como as oportunidades oferecidas pelo mercado de trabalho;
V – nos estabelecimentos prisionais devem ser tomadas as mesmas precauções prescritas para proteger a segurança e a saúde dos trabalhadores livres;
VI – serão tomadas medidas para indenizar os presos por acidentes de trabalho e doenças profissionais, em condições semelhantes às que a lei dispõe para os trabalhadores livres;
VII – a lei ou regulamento fixará a jornada de trabalho diária e semanal para os condenados, observada a destinação de tempo para lazer, descanso. Educação e outras atividades que se exigem como parte do tratamento e com vistas à reinserção social;
VIII – a remuneração aos condenados deverá possibilitar a indenização pelos danos causados pelo crime, aquisição de objetos de uso pessoal, ajuda à família, constituição de pecúlio que lhe será entregue quando colocado em liberdade.
Por fim, as Regras Mínimas para o Tratamento dos Reclusos, no que se refere ao trabalho, assim estabelecem:
71.
1) O trabalho na prisão não deve ser penoso.
2) Todos os reclusos condenados devem trabalhar, em conformidade com as suas aptidões física e mental, de acordo com determinação do médico.
3) Deve ser dado trabalho suficiente de natureza útil aos reclusos de modo a conservá-los ativos durante o dia normal de trabalho.
4) Tanto quanto possível, o trabalho proporcionado deve ser de natureza que mantenha ou aumente as capacidades dos reclusos para ganharem honestamente a vida depois de libertados.
5) Deve ser proporcionado treino profissional em profissões úteis aos reclusos que dele tirem proveito, e especialmente a jovens reclusos.
6) Dentro dos limites compatíveis com uma seleção profissional apropriada e com as exigências da administração e disciplina penitenciária, os reclusos devem poder escolher o tipo de trabalho que querem fazer.
174 Disponível em:
http://portal.mj.gov.br/services/DocumentManagement/FileDownload.EZTSvc.asp?DocumentID=%7B3F19373 B-3AD2-4381-A3AE-DE18FD7DD67D%7D&ServiceInstUID=%7B4AB01622-7C49-420B-9F76-
Entende-se que a resposabilidade do Estado é objetiva, como dito anteriormente, com base no artigo 37, parágrafo 6º, da Constituição Federal, e em face das normas anteriormente apresentadas, no que se refere aos Sentenciados.
Afirma-se que não basta, porém, ter leis que apregoem direitos se, na prática, estes são inexistentes. É fundamental dar vida às leis.
Sendo pobre a maioria dos Sentenciados, devem-se envidar esforços conjuntos, orquestrados pelo Estado, para afugentar essa pobreza. A ressocialização é o primeiro passo nesse enfrentamento, sem o qual resta-lhes um caminho descendente e ignominioso que os precipitará infalivelmente na miséria social e humana.
Dostoiévski, utilizando-se do recurso simbólico da ficção, soube capturar bem tal realidade.
[...] a pobreza não é um pecado, essa é a verdade. Sei também que a embriaguez não é nenhuma virtude. Mas a miséria, meu senhor, a miséria... essa sim, essa é pecado. Na pobreza ainda se conserva a nobreza dos sentimentos inatos; na miséria não há nem nunca houve ninguém que os conserve. A um homem na miséria quase que o correm a paulada; afugentam-no a vassouradas da companhia dos seus semelhantes para que a ofensa seja ainda maior; e é justo, porque na miséria sou eu o primeiro pronto a ofender a mim mesmo.175
Do contexto que envolve sua saída e das perspectivas com as quais deixa o cárcere dependem a maneira como o sentenciado se conduzirá e as interações sociais que passará doravante a ter.
O Estado viola diariamente o direito do Sentenciado ao trabalho, pois ao mesmo tempo em que o afirma, deixa de propiciar os meios para sua concretização. Dessa forma, toda vez que não cumpre o seu papel de ressocializador, omitindo-se quanto à formação profissional de seus custodiados, deve ser responsabilizado, semelhantemente ao que ocorre a estes últimos quando vêm a reincidir no crime depois de colocados em liberdade.
A efetivação da Lei de Execução Penal é responsabilidade do Estado. Tendo ele próprio, por meio do Poder Legislativo, estatuído a norma, não pode, em razão disso, figurar
175 DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo. Tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011, p. 23.
acima dela e merecer algum tipo de isenção quando e se, porventura, a infringe. Até porque, cumpre destacar, como bem destaca Hely Lopes Meirelles,
Na Administração Pública, não há liberdade nem vontade pessoal. Enquanto na administração particular é lícito fazer tudo que a lei não proíbe, na Administração Pública só é permitido fazer o que a lei autoriza. A lei, para o particular, significa “pode fazer assim”; para o administrador público significa “deve fazer assim”.176
Outro aspecto que causa impacto direto na administração penitenciária, tornando insuficientes os recursos a ela destinados, é a corrupção. É imprescindível reunir esforços para trazer à realidade o que é necessário, em termos de estrutura, ao sistema prisional – em sentido amplo, já que carências básicas não vêm sendo supridas. O problema mais sério, no entanto, sem embargo de entendimento contrário, é a falta não de recursos – estes são suficientes –, mas de competência do Estado para gerenciá-los corretamente.
Com uma carga tributária bastante onerosa e dono de uma economia que faz deste o sexto país mais rico do planeta, resta ao Estado somente fazer valer a Lei de Execução Penal, criada há quase trinta anos.
No Brasil, a propósito, a falta de investimentos em estrutura social e, principalmente, em educação, nas décadas passadas e na atual, tornou-se a principal causa de miséria extrema e, por consequência, de crimes.
A falta de investimentos e mudanças legais no tratamento ao Sentenciado implicou, ao longo do tempo, o surgimento de organizações criminosas com princípios esquerdistas, uniu a “classe dos miseráveis”, permanentes excluídos, portadores de conhecidas cicatrizes sociais, que vêm consolidando sua união apoiados em fundamentos altruístas plagiados dos grupos antiditadura, em atividade nas décadas de 60 e 70 do século anterior.
Na história da humanidade, muitas conquistas de direitos somente se efetivaram por meio do uso da força. No caso do Brasil, atualmente, os direitos já existem e são legítimos, porém não vão além de sua consignação no texto, por falta da responsabilização, a nosso ver, inclusive do próprio Estado.
Compete à Administração Penitenciária, com base no princípio da conveniência e oportunidade, determinar a existência de trabalho de presos, bem como indicar os locais e horários para o seu cumprimento.
Quanto à percepção do pagamento do trabalho do Sentenciado, este é feito ao diretor do Presídio onde o Sentenciado estiver custodiado, podendo, inclusive, esta autoridade dispor dos valores e empregá-los na indenização de danos causados pelos Sentenciados às suas vítimas.
Celso Delmanto ensina:
O trabalho é direito e dever dos presos. Será sempre remunerado (em valor não inferior a três quartos do salário mínimo), mas devendo a remuneração atender à reparação do dano do crime, assistência à família etc. (LEP, art. 29). Garante-lhe, ainda, este art. 9 do CP, os benefícios da Previdência Social. Assim, embora o trabalho do preso não fique sujeito ao regime da Consolidação das Leis do Trabalho (LEP, art. 28, § 2º), ele tem direito aos benefícios previdenciários.177
Heleno Cláudio Fragoso chama a atenção para o descumprimento da lei no âmbito penitenciário:
Infelizmente, devemos dizer que as disposições da lei sobre o trabalho penitenciário constituem uma bela e generosa carta de intenção que não está, e dificilmente estará algum dia, de acordo com a realidade. A ociosidade é comum e generalizada em nossas prisões.178
Embora de 2004, é oportuna a transcrição de parte do Agravo nº 450.318-0, da Comarca de Itabirito, sendo o Juiz Relator Alexandre Victor de Carvalho, do já extinto Tribunal de Alçada do Estado de Minas Gerais.
Todo ser humano, uma vez capacitado à atividade laboral para a manutenção de sua própria subsistência e sua perfeita integração na sociedade, de onde é produto, tem necessidade de fugir à ociosidade através do trabalho. A esta regra não escapa o condenado à pena restritiva de liberdade, cujo trabalho, como dever social e condição da dignidade humana, terá finalidade educativa e produtiva (art. 28 da LEP). Educativa porque, na hipótese de ser o condenado pessoa sem qualquer habilitação profissional, a atividade desenvolvida no estabelecimento prisional conduzi-lo-á, ante a filosofia da Lei de Execução Penal, ao aprendizado de uma profissão produtiva porque, ao mesmo tempo em que impede a ociosidade, gera ao condenado recursos financeiros para o atendimento das obrigações decorrentes da responsabilidade civil, assistência à família, despesas pessoais e, até, ressarcimento ao Estado por sua manutenção. O trabalho, durante a execução da pena restritiva da liberdade, além dessas finalidades, impede que o preso venha, produto da ociosidade, desviar-se dos objetivos da pena, de caráter eminentemente ressocializador, embrenhando-se cada vez mais nos túneis submersos do crime, corrompendo-se ou corrompendo seus companheiros de infortúnio.
177 DELMANTO, Celso. Código penal comentado. 5ª ed.. Rio de Janeiro: Editora Renovar, 2000, p. 75. 178 FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de direito penal, parte geral. 14ª ed. São Paulo: Editora Forense, 1993, p. 298.
Aos sentenciados também deve ser oferecida a possibilidade de se aprimorarem profissionalmente. Uma das atividades comuns realizadas no interior dos presídios é costurar bolas. Conquanto isso possa auxiliá-lo em sua remição, fato é que, fora das grades, dificilmente será reinserido na sociedade exercendo tal ofício.
E em face das inovações tecnológicas e da dinâmica instaurada no ambiente do trabalho, não poderá o Sentenciado se manter por meio de trabalhos braçais.
Como o trabalho é um direito social, vale destacar as considerações de Norberto Bobbio:
É o direito que se dá aos chamados direitos de segunda geração, e refere-se à exigência de que o Etado reconheça aos cidadãos não apenas seu direito à liberdade pessoal (chamados de direitos de primeira geração), mas lhes conceda a proteção ao trabalho contra o desemprego, a instrução contra o analfabetismo, a assistência para a invalidez e velhice.179
Deverá o Estado, dessa forma, como maneira de ressocializar, propiciar meios, que incluam o estudo, a fim de que o Sentenciado possa previamente se preparar para as situações que enfrentará quando deixar o cárcere.
Não é por outra razão que se pensa que o estudo sem o trabalho não tem força suficiente para ressocializar. Ambos estão estreitamente ligados.