Sobre o peso dos meus amores Eu vejo a distância Eu vejo os atalhos Eu vejo os perigos Eu vejo os outros gritando Eu vejo um Eu vejo o outro Não sei mais qual amo mais Sob o peso dos meus amores.
Começando com um labirinto que traz um fio que dá voltas por sobre o mundo e cria um novelo sobre si mesmo: Leonilson. As aulas da professora Tita começaram baseadas nas obras de José Leonilson Bezerra Dias, artista que nasceu em Fortaleza, Ceará em 1957, e em 1961 passa a residir em São Paulo, onde falece precocemente em 1993, aos 36 anos de idade. Ele fora escolhido para ser estudado em aula pelas questões que apresenta em seu trabalho, tanto em termos conceituais quanto formais. O fato de estar acontecendo no período de início do projeto uma exposição deste artista na Fundação Iberê Camargo, com o títuloàdeà Leo ilso :àso àoàpesoàdosà eusàa o es ,ààa a ouà ai doà o oàu aàlu a àpa aàoà tema proposto para trabalhar com as turmas: amor. Infelizmente foram poucos os alunos da turma que puderam participar da visita, aspecto que irei abordar de modo mais atento ao desenvolver a análise das aulas. Também, é preciso esclarecer que não pretendo aqui desenvolver um inventário ou análise da obra deste artista, mas apenas apresentar alguns aspectos de seu trabalho que são marcantes, e que foram explorados durante o desenvolvimento do projeto observado.
Imagem 4- Sob o peso dos meus amores- Leonilson:
Fonte: http://tecituras.wordpress.com/category/ensaios/artes/exposicoes-ensaios-sobre-arte- ensaios/ Este artista explorou a ideia de representação do mundo, com um olhar próprio: sua poética é muito pessoal, mas além de pessoal ela é única. Leonilson trabalha com um refinamento conceitual que se manifesta em uma estética por vezes precária, brinca de ser
simples, enquanto esconde uma acidez que corta fundo a sensibilidade. Impossível não ser tocado por seus trabalhos, ainda mais quando vemos um grande conjunto de sua obra. Na delicadeza das composições que utilizam tecidos como suporte, vemos bordados de figuras simples, ou então palavras, em que o descompromisso da forma se opõe à profundidade do que está escrito. Parece ser simples, pela economia de elementos, de cores, mas não é, na medida em que provoca o pensamento acerca da morte eminente, da sua morte- como aparece e à elàpue to . Evoca esse pensar sobre a vida, sobre como os espaços, tempos, lugares e objetos estão imbricados, e podem constituir representações de si, funcionam como autorretratos, mas sem um rosto aparente.
Imagem 5: El Puerto- Leonilson:
Ao falar de Leonilson, voltando a atenção ao aspecto de inventário presente no modo como construiu suas obras, Maciel (2012, p.36-37) comenta um pouco sobre essas escolhas do artista:
Pode-se dizer que o artista recusa a monumentalidade da ordem enciclopédica, em prol de algo menos enfático e mais particular. E é nesse sentido que, com suas listas, textos, imagens, mapas e coleções, o artista nos deixa uma espécie de diário do mundo em que viveu e de sua história pessoal que culminou na doença e na morte precoce. Um diário que não se coloca propriamente sob o amparo das datas, mas se abre aos fluxos da contingência e aos desvios do acaso, configurando-se como uma tela sem moldura. A narrativa autobiográfica que ele esboça, pela via do precário e do efêmero, dá-se, assim, menos como figuração do que como fulguração do vivido. É como se nos perguntasse, entre lírico e irônico, com quantos arquivos, com quantas imagens se pode construir a história de vida de uma pessoa e em que medida os rastros biográficos dessa pessoa podem servir de referência para que seja traçado um mapa do mundo.
Assim, podemos pensar um pouco no modo como Leonilson usou os fios para nos conduzir pelo mundo, ou melhor, pelo seu mundo, o labirinto de sua vida: nos deu apenas pistas de como percorrê-lo, sem nunca ter uma resposta fechada.
Du a teàasàaulasàfo a àap ese tadasàa pliaç esàdasào as:à Ni gu àeà Leoà oà consegueà uda à oà u do . A primeira obra consiste de um pequeno travesseiro (22cmx43cm), em que o tecido de algodão que já e bordado originalmente (é uma fronha) rece euàaài te fe iaàdeàu à o dadoàdoàa tista,àaàpala aà i gu à oà a toàsupe io .à Singelo e mordaz, pois o rosa delicado, desbotado do tecido de suporte, é ferido pelo i gu à o dadoàe àp eto,à e,àpo à se à o dado,à oà aisà se à possí elà deà se à apagado, sempre continuará ali atestando a presença de uma evidente ausência contida naquela pala a.àJ à aào aà Leoà oà o segueà uda àoà u do àaà o posiç oà à ealizadaàdeàout oà modo, mas mantendo a mesma força, evidenciada pelo uso da palavra como elemento visual e poético. Não mais um objeto, e sim uma pintura é o que vemos, uma pintura sem chassi, feita para ser pregada na parede, e que mostra como elemento central a figura de um coração humano, pairando por sobre uma imensidão de tinta vermelho-escuro, quase terroso, o título está escrito/pintado na parte superior da tela, enquanto que vemos pi tadasà asà pala as:à a is o à eà à luzes ,à a i aà doà o aç o,à deà odoà pa alelo,à eà a ai o,à ligadas ao coração vê-seà asà pala asà i o fo ado à eà solit io .à áà a ei aà o o foram dispostas, essa palavras soam como que o sangue que sairia do coração pelas artérias, e
circulando por todo o corpo, que não vemos, apenas está subentendido. É a consciência das limitações, e da finitude que emerge na imensidão vermelha dessa obra.
Imagem 6: Ninguém- Leonilson
Fonte:http://coreseamores2012.blogspot.com.br/2012/08/no-dia-12-de-abril-as-turmas-das.html Imagem 7: Leo não consegue mudar o mundo- Leonilson:
Fonte:http://letsblah.wordpress.com/tag/leonilson/
Com a apresentação das reproduções destas duas obras, em aula, se abre a possibilidade de ampliação de repertório dos alunos que as manusearam, olharam atentamente, uma vez que, formalmente, essas obras se apresentam fora dos padrões de uma arte mais tradicional, explorando justamente aspectos inerentes à arte contemporânea. Bem como abre a possibilidade de se pensar em como uma poética pessoal pode ser construída a partir da simplicidade, sem necessariamente um domínio técnico apurado, é olhar para o amor e modos de amar sem ficar restrito à um único modo de representação.
Pensar em amor, tendo Leonilson como referência, foi a provocação inicial, que deu origem a muitos desenhos, que depois se desdobraram em pinturas, bordados, aplicações tendo como suporte os Parangolés, que foram criados mesclando a referência de Leonilson, com a de Hélio Oiticica, artista que irei apresentar em seguida. Nesse amarrar de fios que foi o processo de criação dos alunos, vemos como os labirintos de um e de outro, deram origem a novos percursos. As palavras, elemento tão fortemente utilizado como plástico e poético em Leonilson, passaram a fazer parte de trabalhos, nos quais além do corpo ser mencionado, em toda sua fragilidade, agora ganha força e faz parte da construção do sentido, proposto pelo vestir e movimentar-se.